Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/

Notas e acordes da província: os ruralismos do rock paranaense

Marcado por um processo de urbanização recente e conflituoso, o Paraná é dono de uma forte herança rural, que se ressignifica no embate entre tradição e modernidade presente nas manifestações artísticas locais. Conheça algumas das principais marcas do ruralismo no rock paranaense.


joao lopes.jpg João Lopes, ícone do ruralismo do rock paranaense - o autêntico bicho do Paraná

Quando nos idos da década de 1980, Ivo Rodrigues, eterno vocalista do Blindagem, cantava sobre o cheiro do mato, tomar banho de rio, comer pinhão, entre outros afazeres da vida interiorana, o que fazia era, mais do que expressar um bucolismo casual, anunciar uma tímida porém significativa tendência do rock paranaense. Da clássica Bicho do Paraná, de João Lopes, até os mais recentes experimentalismos, a grande marca do rock paranaense, em que pesem as muitas e notáveis exceções, é sua relação íntima com o ruralismo e a rusticidade do campo.

Em partes, trata-se do velho estigma do provincianismo, noção presente em larga escala na discussão literária local, graças ao legado corrosivo do Joaquim e seu mentor, Dalton Trevisan. No campo musical, contudo, diferente do que comumente ocorre em outras formas de expressão, o provincianismo não surge como marca negativa, deficiência a ser superada, mas sim como manifestação cultural legítima, um valor identitário. E mesmo que nosso ambiente musical, como de resto qualquer outro, seja também eclético, nada impede que uma banda de som pesado e agressivo, por exemplo, como o Motorocker, esteja apta a presentear seu público – carinhosamente chamado de bugrada pelo vocalista do grupo – com uma canção batizada de Meio caipira eu sou, saudação irreverente ao modo de vida rural e campeiro. Ou ainda que uma dupla folk-sertaneja como Os Irmãos Carrilhos abra seu espaço frente ao imenso universo da música independente, fundindo elementos que, aparentemente distantes, de perto, guardam inegáveis semelhanças.

Como se vê, as possibilidades são inúmeras. Verifica-se, na atualidade, uma extensa gama de nomes e grupos que, de algum modo, trabalham com a marca caipira do paranaense. Destaco aqui, contudo, três nomes da música alternativa ou independente recente que exemplificam a nova leva de roqueiros que exploram criativamente o ruralismo e o provincianismo do paranaense.

Formada na cidade de Francisco Beltrão, sudoeste paranaense, a banda Paraná Blues conta apenas com um álbum de estúdio. Suficiente, contudo, para figurar neste breve inventário. Fazendo um rock calcado na matriz do blues, as letras do grupo são recheadas de símbolos da vida no campo: pássaros, matas, cigarros de palha, chimarrão na varanda. Casinha Ribeirinha (Lá tem os bichos, tem as vacas/ Tem os grilos e a cascata/E a gralha do pinhão, gralha do pinhão), ou Quero-quero (Quero-quero voa baixo/mas seu canto é alto pra me acordar/Quero uma erva da boa/um chimarrão a toa na varanda) são alguns bons exemplos desta combinação.

Tendo em suas origens uma relação íntima com o trabalho agrícola (tal como o nosso fandango caiçara e a música caipira), o blues, estilo oriundo da cultura afro-americana do sul dos Estados Unidos, por suas similaridades temáticas com as formas musicais do caipira brasileiro, pode ser visto também enquanto um análogo para as modas de viola na cultura roqueira do Paraná. Na hibridização do rock com o sertanejo, o caipira, o blues, o folk e demais vertentes da música de raiz, vê-se como, no intuito de dialogar com as tradições rurais de nossa região, os músicos paranaenses ressignificam, inclusive, musicalidades estrangeiras, dotando-as de um acento local.

Chicken Album CAPA.jpg The Chicken Album - o registro que consagrou, na cena independente, o blues alternativo e o "Estilo da Galinha" d'O Lendário Chucrobillyman

Não é a toa que Klaus Koti, natural de Itararé (cidade paulista fronteiriça com o Paraná), radicado em Curitiba, encontrou no delta blues norte-americano o fermento necessário para dar liga à sua música experimental de galinheiro. Tendo no currículo inúmeros outros projetos artísticos e musicais, a banda de um homem só intitulada O Lendário Chucrobillyman é o projeto mais visado e ousado de Koti, que já realizou apresentações dentro e fora do Brasil. Contando com três álbuns de estúdio e um EP, o Chucrobillyman é mais um bom exemplo de como a música de raiz pode flertar com experimentações tipicamente pós-modernas, resultando em uma sonoridade ímpar, que traz para primeiro plano um trabalho de reinvenção das culturas tradicionais. Com canções primitivistas, a monobanda explora uma atmosfera caipira com a urgência e a sujeira do rock, especialmente de sua vertente punk. Na percussão, o uso de ferro velho, latas de tinta e tábuas de lavar roupa ajuda a criar aquilo que o músico multi-instrumentista chama de Estilo da Galinha.

Símbolo maior da atmosfera rural, a galinha é ainda figura recorrente na estética de outro grupo de rock paranaense. Com 10 anos de estrada, o quarteto Charme Chulo é quem melhor exemplifica a influência caipira no rock do Paraná, atingindo um patamar de quase-movimento. Seu segundo disco, intitulado Nova Onda Caipira, pode mesmo ser visto enquanto um manifesto sonoro de afirmação da cultura interiorana. Com influências que vão do rock e do pós-punk inglês até a moda de viola, as composições do Charme Chulo expressam o ser jacu como um estado de espírito, como um sentimento e uma visão particular de mundo. Ser jacu, na lírica da banda, não se resume a morar no mato, mas antes a uma forma de estar no mundo, uma atitude interior, ainda que culturalmente adquirida, que se reflete no comportamento dos indivíduos.

Mas não nos enganemos pela aparência: quem acredita no resgate da tradição como um processo pacífico e harmonioso, pode ser surpreendido pelos conflitos resultantes desta combinação. Por vezes, o diálogo com o passado pode exigir uma postura crítica frente às práticas culturais tradicionais. É o caso, por exemplo, do recém-lançado (ou pré-lançado) terceiro disco da banda, o duplo Crucificados pelo Sistema Bruto, em que o embate entre passado e presente se torna mais explícito e corrosivo. No rock caipira dos Chulos, há um amplo espectro de temáticas – da matança animal à alienação frente aos rumos de nossa sociedade – que não se desvinculam de um posicionamento político radical em relação ao presente, assim como de um enfrentamento de valores.

charme chulo.jpg Com um Passeio Público dividido entre aviões e carroças, grandes edifícios e pinheiros imponentes, o debut autointitulado do Charme Chulo

A despeito das largas diferenças existentes entre os nomes da música produzida na região, portanto, determinadas aproximações já podem ser percebidas concretamente na cultura musical paranaense. Estado de urbanização relativamente recente, o Paraná presenciou um intenso e problemático processo de êxodo rural na década de 1970. Quase adentrando no último quartel do século XX, a população paranaense ainda era majoritariamente habitante do campo. A nostalgia campeira e a rusticidade jacu, portanto, são a herança das gerações agrícolas que, progressivamente, cederam e cedem lugar às massas urbanas da contemporaneidade. O bucolismo das matas, as rodas de chimarrão, a programação das rádios AM, os cafezais enluarados e as rodas de viola são elementos ativos de nossa cultura, fundamentos de uma estética não apenas musical como, sobretudo, existencial. Mesmo quando negadas, tais influências acabam se colocando numa posição de destaque na sensibilidade do paranaense. Confrontadas com a vida urbana, elas se reinventam no frutífero diálogo entre passado e presente, tradição e modernidade.

Entre o desafino dos rabecões, o manusear das gaitas e o ponteio das violas, neste século XXI que, tardiamente, solta as suas garras na terra dos pinheirais, as guitarras invadem a cena como um elemento novo para a resolução de uma velha equação. Os músicos do Paraná, ao que parece, estão tomando para si, enfim, o dever de casa da História.


Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/.
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