Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/

Na tua companhia, fomos todos campeões

A despedida de Alex dos gramados foi marcada por fortes emoções. A disputada partida entre Coritiba e Bahia foi palco para as lágrimas do capitão alviverde, que é símbolo de esperança e resistência no futebol contemporâneo. Tido por muitos como o último grande camisa 10 do Brasil, Alex deixa de ser jogador, mas continua vivo como um suspiro poético no corrompido e desencantado mundo da bola.


alex_e_o_filho.jpg Após a despedida de Alex dos gramados, pai e filho conversam no Estádio Couto Pereira. Foto: Coritiba/divulgação

No primeiro dia de agosto do ano de 1985, o poeta Paulo Leminski declarava, após a inédita conquista coxa-branca de um título brasileiro, que o dia amanhecia verde e branco na capital paranaense. Crônica escrita em tonalidades alviverdes por um escritor que, pouco se importando com os não-me-toques futebolísticos, vestia as cores do Clube Atlético Paranaense. Daí a força do seu relato: ainda que um “rival”, Leminski cedia naquele momento ao clima de festa da nação coritibana e hasteava em seu quintal uma flâmula com “as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário”. Prova de sua inteligência sensível, certamente avessa ao irracionalismo das violentas brigas de torcida que hoje presenciamos cada vez com mais frequência dentro e fora dos estádios, o poeta registrou, em grande estilo, sua homenagem ao primeiro campeão brasileiro do Estado do Paraná.

Naquela ocasião, Paulo Leminski declarou ouvir no canto dos pássaros o nome dos craques vitoriosos: “Lela, Lela, Rafael, Rafael”. Passadas quase três décadas do feito heroico que cravou o nome daqueles jogadores na história do clube e do futebol brasileiro, pintando para sempre uma estrela amarela na camisa alviverde, hoje os pássaros de Curitiba devem estar novamente cantando o nome de um ídolo coxa-branca. Ao contrário daquele momento de glória, contudo, o dia de hoje é de uma melancolia estranha, não apenas para a torcida do Coritiba, como também para todos os amantes de um futebol romântico. É que Alexsandro de Souza, o Alex, daqui por diante eternamente capitão do Coritiba Football Club, acaba de se despedir dos gramados. Por isso é que, ao menos para o escritor sentimental que assina esta crônica, no ar da cidade não se sente o cheiro de pólvora e foguete, mas sim uma espécie de nostalgia por aquilo que nunca chegou a ser – por tudo que um dia sonhamos e, no baque da realidade, percebemos que não foi possível alcançar. Alex passou feito um suspiro poético pelo desencantado mundo do futebol brasileiro, saturado pela desigualdade abismal das cotas de TV e pelas somas financeiras milionárias que flutuam pelos bastidores do espetáculo da bola, quase sempre determinando os seus rumos.

De fato, foi um tanto emocionado que, enquanto torcedor, observei a despedida de Alex neste último domingo, em partida disputada contra o Bahia, feito ela fosse um filme carregado de simbolismos. É que não sou daqueles que se entristecem pela ausência do jogador, mas sim por tudo aquilo que ele representa ao vestir a camisa Coxa. A rigor, com ou sem Alex, nos próximos anos o Coritiba permanecerá habitando numa média competitiva que é típica dos times médios no Brasil: constantemente lutando contra o rebaixamento na série A, eventualmente caindo para a B ou, nas boas temporadas, brigando por uma vaga em torneios internacionais. Essa é a rotina de tantas equipes que, com realidades econômicas modestas quando comparadas ao chamado G12, estão inviabilizadas a alçar vôos maiores. O dado, contudo, é justamente aquilo que deu um vulto muito maior ao retorno de Alex para o Coritiba. Ídolo pelos clubes onde passou, transformado em estátua pelos torcedores turcos do Fenerbahce, o capitão coxa-branca poderia ter optado, em seu retorno para o Brasil, por encerrar sua carreira ganhando títulos com o Cruzeiro, clube onde foi campeão de tudo e que, hoje, figura como a grande potência do futebol nacional. Mas o último grande camisa 10 do Brasil não se diferencia de seus colegas boleiros apenas por aquilo que já fez dentro de campo: raridade dentro ou fora do mundo do futebol, Alex é um homem de princípios, que toma atitudes condizentes com seus ideais. Parece pouco? Talvez seja. Em um país tão carente de bons exemplos, contudo, é mais do que suficiente para manter acesa a chama dos sonhos, sobretudo aqueles que não se deixam deformar pelas luzes de um holofote. Por essas e outras, a trajetória de Alex é tão inspiradora. Sua postura não se resume à postura de um atleta, nem tampouco à de um torcedor. Agiu dentro de campo como um pai esforçado e amoroso que quer deixar aos filhos nada menos do que um grande exemplo. Daí a imensa identificação que os torcedores têm com o craque.

Nascido e criado na cidade de Rio Negro, interior do Paraná, não tive a oportunidade de experimentar o futebol como o fazem as crianças das grandes cidades. Na companhia de meu Pai, no entanto, aprendi a vivenciar o futebol sob uma ótica quase política, a perceber o esporte como representação do nosso mundo – nunca como uma corrida de cavalos, em que se aposta naquele que tem mais condições de vencer. Para nós, o importante nunca foram os títulos que um time conquista. Nunca pudemos comemorar juntos aquilo que os torcedores dos “grandes clubes” chamam de “títulos de expressão” – o que, de modo algum, quer dizer que não esperemos ansiosa e pacientemente por isso. Assim também a história se repete com muitos e muitos alviverdes perdidos pelo mundo. Daí a importância do retorno de Alex para o Coritiba. E do simbolismo da sua figura. O nosso camisa 10, como um Pai que tenta passar aos seus filhos um bom exemplo de persistência e coerência, retornou ao seu time do coração não pela possibilidade concreta da conquista de um título, ou pelos ganhos financeiros, que certamente seriam maiores em outras plagas. Alex se tornou um dos maiores ídolos da história do Coritiba pelo exemplo que está deixando para uma legião de piás e gurias que, sedentos por um grito de “é campeão”, estão sempre a um passo de desencantar com o mundo do futebol orgânico e, consequentemente, a um passo de perder a crença no poder dos periféricos, dos subalternos, dos não-hegemônicos, dos que lutam por um lugar ao sol. É que num país onde o futebol faz parte do feijão com arroz da cultura, o modo como o encaramos traduz e reflete muito daquilo que vemos no arrabalde da vida. E aprender a sonhar com o que parece impossível é, dentre todas as lições possíveis, a maior que o futebol pode nos dar.

Assim, não torcemos pelo Coritiba porque este seja o clube mais vitorioso ou com o maior número de títulos: somos Coritiba porque, no mundo da bola, longe deste escudo nos sentimos como estrangeiros, como se já não falássemos a mesma língua que o mundo ao redor. Estão enganados, portanto, aqueles que pensam que fazemos parte de uma torcida que se emociona com coisas pequenas; ao contrário, nossas alegrias são imensas, maiores do que nós mesmos conseguimos perceber. Nos últimos anos, muito se falou nas frustrações que a torcida coxa viveu: supostamente, não aproveitamos como devíamos o retorno de um craque do gabarito do Alex. De minha parte, digo que nada disso foi grande o suficiente para fazer sombra em algumas das cenas mais bonitas que o futebol brasileiro já conseguiu produzir: do choro emocionado de um menino que voltou a fazer gols e a sonhar com o futuro – o nosso eterno K9 – às lágrimas de um ídolo que se aposenta em grande estilo, nos braços da família, os últimos dois anos do torcedor coxa-branca foram recheados de grandes emoções. Coroando tudo isso, pudemos festejar a mais sincera e desinteressada das comemorações já realizadas na história do futebol brasileiro profissional: como se o Couto Pereira fosse o palco da conquista do maior dos títulos possíveis, jogadores e torcida se uniram numa bonita celebração pelo troféu que não veio, pela garra e pela vontade, pelos sonhos não realizados, pelas frustrações, pelas lágrimas de quem persiste e insiste numa batalha tida por muitos como perdida, pelos filhos que se magoam ao fim das partidas que terminam com derrotas, pelo microcosmos existencial que a luta contra o rebaixamento pôde se tornar no coração daqueles que acompanharam um longo 2014 de eternas dificuldades.

Por tudo isso e muito mais, o futebol paranaense acordou desnorteado nesta manhã de segunda-feira, porém, fortalecido em sua esperança. O exemplo está aí. Depois dele, virão ainda muitos outros. Todo fim é também um recomeço. Se a aposentadoria de Alex enfraquece a chama desta luta desigual, o caminho trilhado que o ídolo deixa no mundo do futebol será por muito tempo uma garantia de que este fogo continuará ardendo. O ideal de um futebol e, por contigüidade, de uma vida mais humana, menos econômica, mais marcada pelos sentimentos de compaixão e união do que pelas cifras que entram e saem dos cofres dos clubes. A tumultuada passagem de Alex em seu retorno ao Coritiba entrará para a história do clube como um grande motivo de orgulho: ser coxa-branca, hoje, é ainda melhor do que foi há pouco tempo atrás. É que temos uma grande referência feita de carne e osso, e isso será sempre algo de muito mais valioso do que qualquer abstração competitiva.

Neste último domingo, 07 de dezembro de 2014, entramos todos dentro do sonho de Alex e, sabendo que o final de sua trajetória como jogador profissional no mais alto dos altos da glória que sua carreira conheceu valia mais do que um título nacional, comemoramos juntos a grandeza desse pai dedicado, que é exemplo não apenas para os seus filhos, como também para os muitos e muitos e muitos pequenos e futuros alviverdes que, agora, também fazem parte da família do “menino de ouro”: essa imensa família Coxa-Branca. E é por isso, capitão, e muito mais, que os passarinhos agora estão cantando o seu nome. Você, como toda a torcida que vibrou extasiada com o sofrido 3x2 do último domingo, esteve à altura do teu destino. Na tua companhia, fomos todos campeões.


Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/.
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