Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/

O pequeno titã

A música consiste, dentre todas as formas de expressão artística da contemporaneidade, na mais poderosa ferramenta de subjetivação dos indivíduos. Durante a infância e/ou adolescência, é comum nos depararmos com discos que deixam permanentemente suas marcas em nossa memória, por vezes mudando os rumos de uma vida. Neste artigo, um caso de amor incondicional com o Acústico dos Titãs.


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Fazia sol, muito sol, e um calor intenso que me fazia suar e molhar a camisa, quando paramos naquela lojinha de bugigangas na principal avenida da praia de Enseada, em São Francisco do Sul. Não fosse criança, certamente, àquela altura, eu já estaria praguejando, reclamando das assaduras na perna, das queimaduras na pele, o rosto vermelho, a maresia salgada grudando nos poros que já estavam congestionados pelo protetor solar, entre tantos outros desprazeres e incômodos que somente as regiões litorâneas conseguem me proporcionar. Mas, naquele tempo, eu era, literalmente, apenas um piá pançudo. Não tinha nada que reclamar. Ainda mais numa data especial como aquela: no dia 04 de janeiro de 1998, eu completava meus nove anos.

Naquela época, minha família descia todo verão para aquela porção menos valorizada do badalado litoral catarinense. O calendário quase não falhava: logo após o ano novo, dia 02 ou 03, a gente arrumava as malas e passava uma semana se apertando numa casa que, hoje, me pareceria excessivamente distante do mar. Pelo menos daquele pedaço de mar que nos interessava: do outro lado da ponte, onde alugávamos a tal casa, ficava (e ainda fica, se as ondas não chegaram a comer toda a areia) a praia de Ubatuba, de mar aberto, desaconselhada para banhistas. De lá, toda manhã, caminhávamos até a praia de Enseada, carregando cadeiras e guarda-sóis, e encontrávamos parte da família de minha Mãe, que também fazia sempre esse mesmo itinerário. Eram sete dias comendo peixe e estourando ondas. Sete dias fazendo buracos e catando conchas na areia. Rotina que era furada somente pelos dias de chuva, quando nos resguardávamos do agito e passávamos o dia no baralho ou, talvez, jogando general. Os festejos do meu aniversário, deste modo, eram comemorados quase todos os anos no litoral – longe dos amigos da escola, sem muito alarde, com um bolinho de chocolate comprado na padaria, que a Mãe fazia questão de pôr na mesa com vela e tudo, só pra me animar.

Criança é um bicho que adora fazer aniversário, mas gosta mesmo, na verdade, é de receber presentes. É por isso que, ainda hoje, o meu aniversário de nove anos continua sendo, entre tantos outros, o mais especial. Naquele dia, entramos no Lojão do Jacaré, uma espécie de 1,99 sofisticado que tinha, ao lado da porta, um jacaré inflável que acenava para mim. Meus pais não tinham muita paciência com lojas de brinquedo, ou era eu que os irritava, demorando muito nas escolhas, e por isso, eles me apressavam, pedindo que, antes de entrar na loja, eu pensasse muito bem naquilo que queria ganhar. Influência ou não daquele réptil simpático que nos chamou para entrar, me decidi a levar justamente uma boia em formato de jacaré. E, entre todos os lugares de Enseada, aquele era, com certeza, o mais provável para se achar qualquer coisa que fosse no formato desse parente distante e sem glamour dos grandiosos e enigmáticos dinossauros – esses sim, uns bichos fascinantes.

Por outro lado, também havia ali o menos provável – pelo menos aos padrões dessa nova era da música digital em que, alguns anos mais tarde, todos entraríamos. Em meio a uma miríade de lembrancinhas de mau gosto, brinquedos do Paraguai, brincos, anéis e colares, plaquinhas sogrofóbicas e outras inutilidades feitas especialmente para os farofeiros e banhistas de plantão, estava lá o presente que, hoje tenho clareza, mudou a minha vida. O acústico dos Titãs, que à época era um estouro em vendas, estava lá, esperando para ser levado. Larguei o jacaré brega no balcão e, como que hipnotizado, fui conferir o tracklist daquela pepita de ouro perdida em alto mar. Eu já conhecia, por meio da coletânea Rock Brasil – minha verdadeira iniciação ao contagiante universo das guitarras e do rock n’ roll –, Homem Primata, em sua versão de estúdio, elétrica e efusiva. Além disso, ouvia os maiores sucessos do disco (Pra Dizer Adeus, Flores, Nem 5 Minutos Guardados, etc.) todos os dias, pela rádio. Mas foi, sobretudo, Os Cegos do Castelo, mais um estrondoso sucesso comercial que os caras emplacaram naquele ano, a principal motivação para a minha escolha. Assim, olhei para a boia, voltei a vista para o CD, pensei nas outras crianças que faziam festa na água com suas baleais e pneus de plástico e em como eu queria participar dessa alegria também, respirei fundo e falei convicto: já escolhi, Pai, quero ganhar esse CD.

Até então, meu Pai nunca tinha me presenteado com um CD. Na época, eu tinha algumas fitas K7 – piratas que a gente comprava em uma antiga loja de música no centro de Rio Negro. Agora, o nível era outro. Eu tinha um disco que, além das músicas, vinha com encarte e tudo o mais. Fui me tornando, aos pouquinhos, um grande fã dos Titãs. E deles, fui migrando de banda em banda, de estilo para estilo, e, mais tarde, para outras artes, sempre voltando periodicamente para as minhas origens, deliciando-me com os requintes e a sofisticação da roupagem acústica que a banda soube dar para clássicos como Diversão, Comida, O Pulso e tantos outros. E hoje, posso compreender milhões de motivos que me façam pensar que, talvez, o Acústico MTV nem mesmo seja tudo isso que eu pensava que fosse. Outros discos entraram, posteriormente, na minha discoteca afetiva. Outros sons me roubaram, outros acordes me fizeram sonhar com a vida de rockstar, encorajando-me, inclusive, a arranhar uma guitarra. E com a música se tornando a parte mais importante da minha vida, fui conhecendo gente nova, mudando minha forma de ver as coisas, crescendo como pessoa. Mas nunca, em momento algum, nenhum outro disco conseguiu mudar aquilo que sinto por este que foi o meu primeiro CD. E é por isso que, desde piá e ainda hoje, mesmo com esse tamanho nanico que eu tenho, meu pouco mais de um metro e meio, sou sempre gigante quando estou com essa trupe de Titãs.


Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/.
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