ideias de guerrilha

Um arsenal de ideias contra a resistência do ócio

Eduardo Silva Ruano

Redator na Obvious, Whiplash e La Parola. Sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras

Resenha do Filme '12 Anos de Escravidão', de Steve McQueen

12 Anos de Escravidão é ousado em caprichar na interpretação do período escravagista americano. Veja a resenha do filme vencedor de três estatuetas do Oscar em 2014.


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12 Anos de Escravidão (2013) é o terceiro e também o mais aclamado filme do diretor britânico Steve McQueen. O roteiro foi escrito por John Ridley, e o filme é protagonizado por Chiwetel Ejiofor, contando também com o poder promocional de atores como Brad Pitt e Benedict Cumberbatch.

O filme aborda a história verídica de Solomon Northup, um negro livre nascido nos Estados Unidos da época escravagista. De acordo com a narrativa, Northup era músico e trabalhava como violinista no distrito de Saratosa, em Nova York, e vivia com a esposa e dois filhos. Certo dia, dois homens visitam Northup para lhe oferecer um emprego provisório de duas semanas em Washington, o qual ele aceita. Assim que os três chegam lá, os recrutadores embriagam e drogam Northup antes de o jogarem em uma senzala da propriedade de James Burch, um rico vendedor de escravos.

A história de Solomon Northup prossegue até ele ser posto para trabalhar em plantações no estado de Louisiana por 12 anos antes de sua libertação.

Na 86ª edição do Oscar, o filme foi indicado em nove categorias e ganhou três prêmios: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o) e Melhor Roteiro Adaptado.

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Na opinião da crítica de cinema Susan Wloszczyna, o filme "faz você sentir que testemunhou a escravidão em todo seu horror como se fosse a primeira vez".

Realmente, esse filme transmite uma sensação metódica de desespero ao ponto de constantemente ansiar-se por esperança e alívios emocionais. O relato histórico do filme não faz a escravidão ser mais real, mas com certeza cria uma verdade psicológica ao interpolar um incidente que não é de todo factual, pelo menos a que temos acesso do que a mídia disponibiliza em termos de informação.

O filme é ousado em caprichar na interpretação do período escravagista americano. O diálogo que Steve McQueen deseja suscitar é crítico:

"Veja onde estamos agora através da perspectiva da escravidão. Olhe para o tamanho da população prisional, para os problemas de saúde mental, a pobreza, o desemprego. A evidência da escravidão é o que vemos ao redor. Não é uma coincidência. Não existe uma consequência sem causa. Quando penso sobre o tema, me vem uma sensação de vergonha, de embaraço, e você acaba pensando que uma das razões de estar vivo hoje é devido a esse passado recente infeliz."

Por dentro dos bastidores

Em entrevista para o portal IndieWire, Steve McQueen falou sobre a motivação para desenvolver o filme:

"Eu realmente quis contar uma história sobre aquele tempo e lugar da época escravagista na América, mas eu queria ter um personagem que não fosse óbvio em termos de comércio na escravidão; alguém com habilidades artísticas e que pudesse encontrar a si mesmo em diferentes localizações geográficas. Enfim, quis criar algo com escopo e escala emocionais."

Quando perguntado sobre qual foi a maior dificuldade do filme, John Ridley, o roteirista, respondeu:

"O idioma e a linguagem. Na primeira vez que li a história de Solomon, foi ótimo. Você atravessa todo o livro e quebra a narrativa. O enredo é bastante auto-evidente, mas o estilo de escrita é arcano e rebuscado. Outra coisa difícil foi a educação sobre o ambiente da época. Eu tinha que prestar atenção em detalhes específicos da história, atentar-me para as pequenas coisas."

Durante entrevista para o site NPR, o ator Chiwetel Ejiofor falou sobre a originalidade e moral em relação a 12 Anos de Escravidão:

"Meu pai era crente das ideias de uma diáspora africana, de um senso de união entre pessoas descendentes da África, e foi com essa atitude que eu cresci. Fazer parte de uma herança dessas e então migrar para a Louisiana, você começa a sentir-se ligado a todos os sentidos da escravidão, à natureza internacional da mesma e para a completa ausência de humanidade que a cercava."

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Sobre a ideação do filme, Steve McQueen disse o seguinte:

"Eu tive a ideia de ter um homem livre do Norte que é raptado e puxado para o labirinto da escravidão. Gostei disso pelo fato do público poder acompanhar essa figura enquanto assume o contexto escravagista. Minha esposa achou esse livro, 12 Years a Slave, e quando o li fiquei completamente atordoado. Foi como um raio vindo do céu, ao mesmo tempo que me senti chateado pela ampla falta de conhecimento sobre o livro. Eu vivo em Amsterdã, onde Anne Frank é considerada uma heroína nacional. Para mim, esse livro foi uma espécie de diário de Anne Frank escrito 97 anos antes; um relato em primeira mão da escravidão. Basicamente, eu tornei minha paixão por esse livro em filme."

A obra explora a violência e maldade humanas em diversas cenas de tortura, flagelo, estupro, privação física e sensorial. Sobre a experiência de filmar cenas explícitas de violência, Ejiofor contou:

"As cenas de violência são realmente necessárias para que possamos entender a jornada psicológica de Solomon e entender quem ele foi, o que teve que suportar, e num sentido mais amplo, o que as pessoas pensariam dele. Eu acho que dá ao público uma compreensão interna do que aconteceu e ainda acontece em menor escala. As cenas foram desconfortáveis de serem feitas, mas de certo modo isso legitimou o relacionamento e tornou mais fácil de assumir a persona de Solomon."

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O local escolhido para as gravações foi um dos palcos da escravidão naquele meio de século XIX: as plantações de algodão e cana no estado da Louisiana, nos EUA. O atual dono das propriedades conta que, hoje, já não existem mais os túmulos e lápides para identificar os corpos dos mortos, mas ele sabe que basta cavar a terra para conseguir encontrar os vestígios da existência daqueles escravos. Os artefatos arquitetônicos originais da escravidão foram removidos do local, mas muitos detalhes estéticos permaneceram, como por exemplo os edifícios ao redor, a faixada e os detalhes na pintura. Como disse Steve McQueen, "foi como estar na cena do crime".

Embora o assunto do filme seja áspero, o local de ação é exuberante e mostra um retrato igualmente belo da vida dos escravos. Para a equipe de produção do filme, a proximidade real com o espaço onde as coisas se desenrolaram fez com que o trabalho fosse intenso e prazeroso, projetando-os para diversos aspectos da vivência. Ejiofor relata:

"Saber que nós estávamos lá no exato lugar onde as coisas ocorreram foi tão emocional e poderoso. Foi como se estivéssemos dançando com os fantasmas."

O conflito entre livro e filme

A biografia que serviu de inspiração para Steve McQueen não foi escrita por Solomon Northup (que era um cidadão alfabetizado), e sim por David Wilson, um advogado branco que mora em Nova York. Daí partem muitas opiniões negativas em torno da autenticidade da história que norteou o filme. O fato de um branco ter escrito a biografia de um negro não é uma reiteração irrelevante de se fazer.

Publicado pela Derby & Miller em 1852, o livro original se chama Twelve Years a Slave: Narrative Of Solomon Northup, e aborda “um cidadão de Nova York sequestrado em Washington D.C em 1841, e salvo em 1853, de uma plantação de algodão nas imediações de Red River, estado de Louisiana.

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Segundo o redator Michael Cieply, do The New York Times:

"Durante décadas, estudiosos vêm tentando desvendar a verdade literal do relato de Northup das convenções do gênero literário escravagista."

Um historiador chamado James Olney afirma que as pressões populares criaram uma certa uniformidade no conteúdo das narrativas de escravos, com temas comuns e recorrentes que envolvem principalmente três tópicos: o questionamento da identidade pessoal, as descrições angustiantes de opressão e a defesa aberta em prol da causa abolicionista.

"Quando os abolicionistas convidaram um ex-escravo para contar sua história de experiência na escravidão em prol da convenção antiescravagista, e quando posteriormente foi promovida na mídia impressa, os abolicionistas tinham claras expectativas compreendidas por si mesmas."

Em artigo recente para o site The Atlantic, o crítico de cinema Isaac Butler também argumentou sobre essa questão de adequação literal do filme:

"A prática de julgar a ficção por quão bem pode estar em conformidade com a realidade. Nós estamos falando sobre a redução da verdade em função da precisão. O que importa mesmo, em última instância, é uma obra de narrativa em que o mundo e os personagens criados sejam verdadeiros e completos o suficiente para atender aos propósitos do trabalho."

Bem, pode-se dizer que o principal propósito de 12 Anos de Escravidão foi bem cumprido: ambientar e atualizar o público sobre as consequências sociais, culturais e principalmente emocionais da escravidão como sendo uma barbárie da civilização.

Sim, obras de ficção necessitam de quanto mais precisão puderem transmitir para que a história soe mais verdadeira, só que no caso de 12 Anos de Escravidão, trata-se de um fato verídico. De acordo com Butler, a diferença entre livro e filme não é que um seja verdadeiro e o outro falso, mas sim que as táticas aplicadas para representar a verdade foram distintas.

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O filme ressoa bastante condescendente, e mesmo sem ter lido o livro, posso dizer que 12 Anos de Escravidão me pareceu real e o aceitei dessa forma.

O legado da escravidão

O filme 12 Anos de Escravidão foi muito elogiado pela crítica especializada pelo fato de retratar com lucidez a escravidão sulista nos EUA, na época um país profundamente segregado e preconceituoso.

O legado da escravidão representa uma lembrança perpétua, principalmente para os negros. Mais de 150 anos depois, medo, vergonha e desconfiança ainda persistem e, apesar da necessidade de seguir em frente, esse passado funesto sempre retorna para assombrar.

Assistindo ao filme, cria-se uma certa simpatia para com Solomon Northup em perspectiva, representante oficial de uma nação escrachada e pormenorizada. Ficamos sabendo que ele passa por uma provação extraordinária; uma experiência brutal realmente dolorosa, mas que depois encontra sua redenção.

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No filme percebemos que, para os escravos, sobrevivência não tem tanto a ver com a consciência da mortalidade (visto que são tratados como animais, não seres humanos). No caso de um escravo, sobreviver é mais sobre abaixar a cabeça e ocultar a real identidade a fim de evitar considerações impróprias, é sobre negar a própria existência para evitar a morte. Perder a esperança todos os dias, na ânsia de reconquistá-la. Assim, o filme inflama nosso senso de justiça e, no fundo, provoca aquela sede de vingança.

Indiferentemente da etnia ou classe social, é esperada uma identificação com o propósito do filme, uma vez que sua força motriz é o desejo de liberdade. Então, o espectador é inspirado à empatia, compaixão e solidariedade, emoções que apenas escondem a verdadeira revolta que envolve a melódica história de Solomon Northup.

Escravidão é (e sempre será) um tema controverso, já que o público em geral costuma repudiar o fato de pessoas terem sua liberdade privada e a vida negada. Uma cicatriz psicológica tão grande como a escravidão dificulta a formação de comunidades coesas que favoreçam em torno do tema, mesmo porque é mais fácil se relacionar ignorando tais atrocidades. Dessa forma, a integração entre brancos e negros ainda é um tabu social absolutamente inaceitável. Os brancos, por sua vez, são rechaçados quando mostram não se importar com a injustiça relacionada à cor da pele a qual menos os aflige, e os negros, eles são vitimados por isso.

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O tabu social da escravidão precisa ser quebrado, no entanto, pensar ou agir otimista nesse sentido está longe de ser uma iniciativa potencial, visto que a igualdade é tão utópica quanto o preconceito é real.

A escravidão é um assunto que sempre será discutido, independentemente da ordem social, já que a relevância da pauta é justamente questionar as divergências em detrimento dos próprios interesses. Daí, muitas pessoas negam ou evitam falar sobre a escravidão, seja por não se importarem, ou então por afetarem-nas negativamente.

Um homem negro, responsável, digno e trabalhador que é explorado para servir caprichos capitalistas de indivíduos unicamente preocupados com a acumulação e posse de capital, um homem livre que é manipulado para fins mercantilistas. Embora a receptividade e aderência a esse tema possam parecer universais, filmes sobre a experiência de negros, e mais especificamente, sobre a escravidão, ainda são remotos a públicos com pouca ligação cultural ao assunto.

Enfim, 12 Anos de Escravidão não teve a intenção de culpar uma nação inteira pelas desumanidades impostas aos negros, mas sim conscientizar o público em geral sobre um passado que ainda é doloroso para milhões de pessoas no mundo inteiro. O filme serve para reflexão da iniquidade e injustiça inerentes às diferenças, no caso, étnicas.

*Com informações do USA Today e LA Times.


Eduardo Silva Ruano

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