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Eduardo Silva Ruano

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Ninfomaníaca: O Melhor de Lars von Trier Nesse Filme Polêmico e Excitante

Ninfomaníaca é divertido, visualmente interessante e muito intenso. O filme instiga prazeres indecentes além da ninfomania, por isso é polêmico e excitante. Uma marca registrada do diretor Lars von Trier.


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Ninfomaníaca (vol. I e II) é uma crônica poética sobre a jornada de uma mulher diagnosticada com ninfomania. Muitos críticos concordam que esse seja o melhor filme de Lars von Trier por ser uma demonstração fidedigna ao seu estilo.

No filme, a atriz Charlotte Gainsbourg interpreta o papel da ninfomaníaca Joe, enquanto Stacy Martin faz o mesmo papel da garota mais jovem. Shia LaBeouf, Uma Thurman e Stellan Skarsgård também integram o elenco principal.

Ninfomaníaca é divertido, visualmente interessante e muito intenso. O filme instiga prazeres indecentes além da ninfomania, por isso é polêmico e excitante. Uma marca registrada do diretor Lars von Trier.

Em entrevista para o jornal The Guardian, a atriz Charlotte Gainsbourg comentou como Ninfomaníaca possui características evidentes em Lars von Trier:

"A visão dele é muito honesta. Ele tem esse jeito sincero de se colocar na tela sem querer agradar ninguém."

Lars von Trier adora uma polêmica. Sua abordagem cinematográfica causa reações polarizadas nas pessoas: raiva ou admiração, atração ou repulsa.

Na verdade, ao longo de sua carreira von Trier tem sido acusado de misoginia devido às mulheres controversas que protagonizam alguns de seus filmes, e Ninfomaníaca não deixa de ser uma maneira do diretor confrontar tal crítica. O filme aborda tabus culturais e promiscuidade sexual a partir de uma perspectiva exclusivamente feminina, mas também permite a um homem misógino aprender através de tais experiências (se estiver disposto a tal).

Com uma penetração filosófica profunda, von Trier explora a arte da pornografia e a rudez da ninfomania, apresentando toda a vulgaridade de uma mulher ninfomaníaca nessa história que pode assustar (e até enojar) grande parte do público. O preço de sua honestidade é a acidez, e o custo das verdades que expõe é a deselegância.

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Ninfomaníaca é explícito sem ser grosseiro, poético sem ser utópico, e exagerado sem ser ridículo. O filme é dividido em dois volumes, o que não é muito acessível, mas teve que ser assim por razões comerciais.

Explorando o filme Ninfomaníaca

Logo na primeira cena de Ninfomaníaca (vol. I), somos recebidos pelo som metálico e industrial da banda alemã Rammstein. Um bom prelúdio do que estaria por vir.

Durante uma tarde de chuva forte, um homem chamado Seligman (Stellan Skarsgård) vai ao mercado fazer compras e, na volta, encontra uma jovem mulher ferida e jogada no meio de uma viela sem saída. Ele decide levar a garota para casa, pois ela lhe pede uma xícara de chá com um pouco de leite. Chegando lá, a moça visivelmente assustada resolve contar a Seligman sobre todas as suas experiências eróticas, sexuais e românticas que a fizeram chegar na atual condição. Paciente, solidário e também curioso, Seligman é todo ouvidos e passa a ouvir atentamente tudo que a moça tem a lhe dizer. Ela se apresenta depois como Joe.

No filme, Joe conta como se tornou viciada em sexo, e Seligman tenta compreender aonde se encontra a raiz desse vício. As histórias são contadas por ela na forma de narrativas, e estas vão sendo interpretadas por Seligman através de metáforas.

Durante a conversa dos dois, Joe tenta defender sua personalidade como forma de justificar a auto avaliação de vergonha pela pessoa que foi em outrora. Seligman, por sua vez, não demonstra intenção de atacá-la nem julgá-la; muito pelo contrário, ele se mostra simpático e complacente, apenas querendo ajudar a moça a lidar com seus próprios julgamentos sombrios.

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No meio do filme, von Trier (na pele de Seligman) cita Edgar Allan Poe para traçar um paralelo entre ninfomania e alcoolismo.

Por muitos anos, Edgar Allan Poe foi depressivo e alcoólatra. Nos períodos de crise melancólica, ele recorria ao álcool como um estimulante imprescindível. Quando Poe precisou parar de beber urgentemente, ele sofreu do que os médicos chamam de “delirium tremens”, choques hipersensíveis e sistemáticos causados pela abstinência repentina de álcool. Em tal delírio, todo o sistema nervoso fica em estado de alerta máximo e a pessoa é acometida por pânico constante e paranoia; cria-se fantasias mórbidas e alucinações horrorosas que deturpam a consciência e corroboram a percepção sensorial. Dizem que Poe morreu em uma crise como essa.

Von Trier ressalta que o ato de ingerir álcool (caso de Edgar Allan Poe) é um recurso eficaz para amenizar a dor e gerar prazer, da mesma forma que reagir sexualmente às crises (caso de Joe) também funciona. No entanto, é importante lembrar que não é possível uma obliteração completa da dor, sendo assim, não importa quão criativos sejam os nossos artifícios, toda e qualquer tentativa de fugir da realidade será malsucedida enquanto o propósito único for o de evitar a dor existencial.

Sinteticamente, von Trier mostra que a ninfomania causa uma progressiva falta de empatia na medida em que o abuso de álcool provoca insensibilidade à longo prazo. Isso pode ser compreensível, mas não aceitável. Num momento do filme, Joe diz:

"Eu conscientemente usei e feri outras pessoas para o bem da minha própria satisfação. Eu descobri o meu poder como mulher, e usei-o sem qualquer preocupação com os outros."

De acordo com von Trier, uma ninfomaníaca não é apenas uma pessoa que não consegue se satisfazer plenamente em relações sexuais, mas também alguém que se tornou alienada ao amor e incapaz de expressar tais emoções genuínas.

Considerando que o ingrediente secreto do sexo é o amor, isso explica a impotência do gozo de uma ninfomaníaca.

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O diretor reforça sua crença de que sexo é artificial e substancialmente insatisfatório sem o amor. Segundo ele, sexo pede por amor assim como uma árvore necessita da luz do sol para manter-se viva.

"Como silhuetas no inverno, as árvores são difíceis de distinguir. Na verdade, são as almas das árvores que vemos no inverno. No verão, tudo é verde e idílico; no inverno, são os galhos e troncos que se destacam. Veja o quão tortos eles são. Os galhos precisam levar todas as folhas à luz do sol para a árvore sobreviver."

Uma das principais frentes de batalha crítica de von Trier é desmistificar as virtudes da sociedade do amor. Por exemplo, na ocasião em que Seligman faz um apontamento sugestivo:

"Para cada 100 crimes cometidos em nome do amor, apenas 1 é cometido em nome do sexo."

O fato de o amor ser mais letal que o sexo não é tanto o que von Trier quis evidenciar. Na verdade, sua intenção foi outra. As pessoas que fazem parte da "sociedade do amor" costumam considerar a ninfomaníaca como sendo uma viciada egoísta que não deseja mais nada na vida além de orgasmos. Contra essa falácia comum, von Trier rebate mostrando que o desejo por amor é algo mais destrutivo do que se quer imaginar, e que mitos envolvendo sexo contribuem para essa ignorância.

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Em Ninfomaníaca, Lars von Trier cria um paradoxo muito interessante entre ninfomania e polifonia. Em polifonia, a combinação certa de vozes e melodias distintas produz harmonia; no caso da ninfomania, a combinação de várias experiências sexuais diferentes produz desarmonia.

Sabemos pela história de Joe que, no transcorrer de sua vida, ela pôde transar com incontáveis homens, mas nenhum deles lhe trouxe felicidade. Como ela diz:

"Eu estaria mentindo se dissesse que a solidão não foi minha companheira constante."

Apesar de Joe ter tido relações sexuais com centenas de homens no decorrer de sua vida, o único relacionamento significativo que ela conseguiu ter foi com Seligman (um solteirão assexuado). De fato, ele foi o único que lhe ofereceu libertação e pôde ouvi-la, compreendê-la e aceitá-la em toda sua subjetividade e completude.

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Sobre o volume II de Ninfomaníaca, este começa logo a partir do ponto em que o primeiro volume terminou, funcionando como uma extensão. Agora, von Trier estende sua noção de amor, sexo e desejo ingovernável até os limites do radicalismo.

Nesta segunda parte do filme, há várias cenas de tortura, flagelo, sadomasoquismo e violência contra Joe, e isso definitivamente provoca uma grande rebelião feminina. É de se imaginar que as mulheres, após assistir ao filme, sintam vontade de jogar von Trier contra a parede para cortar seu pênis (e também as bolas).

Na entrevista para o The Guardian, a atriz Charlotte Gainsbourg comentou sobre a dificuldade nas cenas de sadomasoquismo:

"As cenas de sexo não foram difíceis, mas as de sadomasoquismo foram constrangedoras e humilhantes. Usei uma prótese de vagina, então por duas horas seguidas eu tinha que lidar com alguém mexendo lá embaixo. Também tinha que ficar horas sem fazer xixi. Essa foi a parte difícil."

Com Ninfomaníaca (vol. I e II) von Trier conseguiu exatamente o que queria: criar um filme envolvente, chocante e intrigante que acendesse a chama do público.


Eduardo Silva Ruano

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