ideias de guerrilha

Um arsenal de ideias contra a resistência do ócio

Eduardo Silva Ruano

Redator na Obvious, Whiplash e La Parola. Sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras

Sobre Feminismo em Tempos de Machismo

O feminismo é, infelizmente, um tema atual. A luta pela igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres é uma causa de força maior, e um tabu social absolutamente inaceitável que deve ser debatido.


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No Enem de 2015, o tema da redação foi: "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Infelizmente esse tema é atual, e a apropriação da pauta segue o ritmo do movimento revolucionário feminista que, hoje, insurge subitamente. O debate do assunto é certamente necessário.

No âmago da discussão, encontramos, de um lado, machistas, e do outro, feministas. No entanto, é conveniente lembrar que o machismo não é exclusividade dos homens.

Muitas mulheres de fato se sentem diminuídas em um complexo de inferioridade, isso por causa de sua criação e educação peculiares, ou então por consequência do convívio social que as permitiu incutir tão dúbio pensamento. A própria responsabilidade escolar tem papel nessa formação, como a família.

No mercado de trabalho, há claras objeções às mulheres na maioria dos setores e indústrias, enquanto se qualifica homens para cargos semelhantes por terem atributos favoráveis que, nem sempre justos, lhes conferem privilégios.

Assim, vemos que o machismo é internalizado na sociedade patriarcal desde o berço, e poucos incentivos reais existem para que esse problema seja controlado e amenizado, quanto mais extirpado.

Hoje, o frenesi social em torno do machismo faz com que as pessoas se tornem mais vigilantes para captar esse tipo de fenômeno em circunstâncias comuns. Devido à relevância do tema, as pessoas tornam-se mais atentas e preparadas para identificar quaisquer oportunidades em que o machismo se faz visível. Assim, aumenta-se o número de denúncias contra assédio sexual nas estações de metrô e paradas de ônibus, mais casos de estupro e violência doméstica são noticiados na mídia, evidências de machismo são rapidamente encontradas em programas de TV, reality shows, mesas redondas, em noticiários, entrevistas e na imprensa em geral.

Os holofotes midiáticos apontados para o tema facilitam e contribuem bastante na identificação de manifestações machistas, o que é algo aparentemente positivo, embora nem sempre construtivo, uma vez que se trata antes de uma atitude política. De uma perspectiva problemática, mudanças são esperadas e implicitamente exigidas. Então, na atual conjectura, o empoderamento se torna o comportamento social ideal para homens e mulheres, sejam machistas e feministas ou não.

Feminismo não é o contrário de machismo

Como lembra o filósofo e educador Mario Sérgio Cortella, em programa na rádio CBN:

"Machismo significa a concepção de que mulheres são subordinadas aos homens. O feminismo, por sua vez, não é o contrário de machismo. O feminismo não supõe que homens são subordinados às mulheres, mas que homens e mulheres são iguais."

O feminismo, então, busca igualar oportunidades e direitos entre os sexos. Ou seja, é uma batalha pela recuperação do desguarnecimento moral imposto; um embate desleal.

Há uma concepção histórica preponderante do homem como soberano, doutrinador e hábil para fazer valer esse seu prevalecimento. Essa falsa atribuição de poder se dá em dimensão social, cultural, política e econômica; em praticamente todas as esferas de dinamicidade humanas. A força como atributo de poder do homem machista mascara a sua impotência em saber lidar com as mulheres. Mulheres são seres complexos de entender, elas mesmas sabem disso, mas isso não justifica a falta de respeito machista encontrada em toda parte.

Para uns, machismo é um absurdo inaceitável; para outros, é algo natural. No mais, o que vemos por aí é preconceito, em demasia, a opressão, violência e pormenorização discriminatória, no caso do machismo, entre gêneros. Embora alguns machistas promovam sua causa e busquem justificá-la com argumentos enfáticos e, para eles, producentes, tais indivíduos precipitam-se em atacar sem considerar as razões pelas quais as mulheres se defendem.

Não se nasce mulher, torna-se mulher

Uma questão da prova do Enem em 2015 fez citação da filósofa francesa Simone de Beauvoir. O trecho foi extraído de seu livro O Segundo Sexo, de 1949, que diz:

"Não se nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico e econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino."

Esse texto refere-se à ideia de que as mulheres são submissas naturalmente. De fato, é uma opinião extremamente polêmica, e completamente infeliz.

Algumas mulheres podem até levar em conta aspectos antropológicos e históricos para compreender o machismo, mas abaixar a cabeça em submissão é uma forma de promover a própria desvalorização. Isso não quer dizer que as mulheres necessariamente devam rebelar-se contra os machistas, porque tais indivíduos, embriagados por seu ego, não vão mudar a índole de uma hora para outra. Por mais que o instinto possa obrigar as mulheres a reagir contra homens machistas, se elas o fizerem de forma ultrajante e hostil, não estarão sendo diferentes deles e isso apenas reforçaria o argumento de que feministas odeiam os homens (o que vai contra a causa maior).

O movimento feminista precisa ser interno, para a atitude externa surtir mais efeito. De fato, muitas mulheres não se sentem tão afetadas pelo machismo porque são seguramente felizes e bem resolvidas na vida ao ponto de tornarem-se não imunes ao preconceito exacerbado, mas menos ressentidas. Isso tem limites. Uma mulher que sofreu uma tentativa de estupro ou foi de fato estuprada não sairá impune dessa situação, e aí tornam-se necessárias medidas efetivas contra essa ilegalidade. Alguns defendem a pena de morte para estupradores, outros apoiam a ideia de castração química. A questão é se a correta punição legal é suficiente para que o machismo seja extinto. Parece que não é.

Uma questão de fato

Após o retrospecto sobre a redação do Enem de 2015, muitas pessoas acusaram os organizadores da prova de serem doutrinadores ideológicos, e estes responderam que o objetivo não foi o de levantar uma bandeira, mas sim de suscitar o conhecimento dos alunos sobre o movimento feminista. Entretanto, é preciso ressaltar que, em redação, é muito difícil ficar fora do campo da opinião, mesmo que o texto seja de caráter apenas informativo.

Ademais, Cortella lembra que:

"O feminismo é uma questão estatística, de evidência, e impassível de discordância."

O texto de Simone de Beauvoir é opinativo, passa por crivo de raciocínio, juízo e valores individuais, e pode ser discutido no que diz respeito a discordar da filósofa ou concordar com ela. Porém, machismo não é questão de opinião, e sim de fato.

Muito se falou sobre a possibilidade de o Enem ter sido tendencioso ao apontar intenções subliminares pelo tema proposto. As constantes fraudes e os recorrentes escândalos no histórico do Enem não permitem que a instituição doutrine alguém, por mais que o veículo seja influente ao expor um tema que oferece margem apenas para um tipo de posicionamento: o contrário à violência.

Embora a reputação do Enem seja deficitária em muitos aspectos, seu plano de expor o machismo foi bem executado, considerando a realidade de que milhões de mulheres no mundo inteiro são violentadas, oprimidas, perseguidas e submissas a homens que se enxergam como dominantes supremos de sua espécie.

Seria ingênuo acreditar que uma prova em si diminui o machismo. Muitas pessoas saíram da prova satisfeitas com o que escreveram e até convencidas de que mudariam suas atitudes em prol de situações cotidianas, mas a maioria apenas se orgulhou do bom desempenho na prova para voltarem à mesma realidade. Pode ser que os efeitos do Enem causem silêncio e reflexão em alguns machistas, mas seu comportamento só será realmente "consertado" se e quando eles passarem pelas mesmas experiências brutais de submissão, perseguição e opressão que as mulheres lamentavelmente são mais submetidas. Caso contrário, o grito calará.

Apesar da necessidade de mudança, muitas pessoas continuam invalidando o movimento feminista, e vão ainda mais longe ao também aceitarem que as mulheres devem sim ser submetidas à humilhação. Nesses casos em que a tolice prevalece e os direitos humanos são explicitamente violados, a lei deveria entrar, como acontece em várias nações, mas todos sabemos que a legislação brasileira é uma piada.

A aplicação de leis "anti-machismo", como a Maria da Penha, é quase que totalmente improdutiva e ineficaz. Homens ou mulheres, todo mundo já experimentou violência e opressão na vida, e todos sabem que as limitações da lei alimentam o medo intrínseco contra esse tipo de barbárie, ao invés de segurar a devida proteção. Como disse o filósofo da USP, Pablo Ortellado:

"A onda de feminismo nas décadas anteriores deixou muitos efeitos institucionais, como a lei Maria da Penha, mas as mudanças de comportamento para além da inclusão da mulher não foram muito grandes."

As mudanças foram quase inexistentes. No mercado de trabalho, por exemplo. Antigamente, as mulheres brigavam para ingressar no mercado de trabalho, e hoje elas lutam por salários iguais. E amanhã?

No Brasil, as mulheres ganham 30% a menos, em média, do que os homens, segundo pesquisa recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Trata-se de um dos maiores níveis de disparidade salarial do mundo.

E não é só nos negócios que as mulheres são minoria: na política, na ciência, na literatura, no esporte e em vários outros segmentos também. Inevitavelmente, isso cria estereótipos feministas implacáveis, mas sem fundamento.

Discriminações machistas invisíveis à lei são facilmente percebidas em casos simples: cantadas na rua, condenações por aborto, assédio à maternidade, demissões por conta da gravidez, agressões físicas, violações de estupro, ameaças de morte, enfim.

O machismo não é apenas bullying cometido por covardes e preconceituosos em busca de autoafirmação, mas também um paradigma social persistente e perpetuado por novos discursos e métodos. Apesar dessa constatação penosa, é possível que tal panorama não se agrave. O modelo patriarcal está enfraquecendo, mesmo que aos poucos. Como escreveu Juan Arias em matéria recente para o jornal El País:

"Hoje, o homem é mais aplaudido e vira notícia quando começa a despojar-se de sua cultura de violência."

O machismo não vai morrer, mas deve ser encurralado. Marchas públicas e campanhas na internet, por exemplo, não vão mudar o caráter formativo de homens machistas, mas poderão ao menos sensibilizá-los. A causa feminista é justa, mas seus efeitos são muito relativos.

Numa entrevista para o programa Entre o Céu e a Terra, da TV Brasil, a filósofa Márcia Tiburi fez comentários oportunos sobre a relação histórica entre homem e mulher, a conjectura cultural em torno do feminismo e a influência do sistema patriarcal:

"A marca fundamental da cultura que a gente conhece é o patriarcado, a produção por parte dos homens daquilo que se chama mulher. É óbvio que homens e mulheres não têm direitos iguais, mas essa não é uma diferença natural, e sim cultural. Claro, é muito fácil falar que o feminismo é ultrapassado. As pessoas adoram falar isso porque adoram odiar o feminismo, por ser revolucionário. Todos os conservadores odeiam pessoas que gostam de transformações sociais. Hoje, no entanto, vivemos uma certa libertação em relação a esses padrões."


Eduardo Silva Ruano

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