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Eduardo Silva Ruano

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Umberto Eco e Sua Crítica à Santa Inquisição em O Nome da Rosa

No filme O Nome da Rosa, adaptação do diretor Jean-Jacques Annaud da obra do escritor italiano Umberto Eco, um monge intelectual investiga uma série de assassinatos misteriosos em uma abadia medieval na época da Idade Média.


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O Nome da Rosa (1986) é um filme dirigido por Jean-Jacques Annaud, inspirado no livro homônimo do escritor e linguista italiano Umberto Eco.

Na história, um frade franciscano chamado William de Baskerville (Sean Connery) e seu jovem pupilo Adson von Melk (Christian Slater) são convocados a uma abadia medieval para solucionar um grande mistério envolvendo as mortes de sete monges ocorridas em sete dias, sob circunstâncias muito suspeitas. Na verdade, todos os personagens do filme são potenciais suspeitos, visto que nenhum deles é imune às inúmeras acusações. Entretanto, da concepção de algumas informações vamos limitando as opções para apontar um veredicto.

No início do filme, o frade William chega à abadia e, de antemão, questiona a conduta dos monges que ali vivem, seus hábitos, métodos e rotinas, enquanto faz observações e análises de locais sigilosos que contém pistas dos assassinatos que vão acontecendo. Ele logo constata que as mortes são semelhantes entre si (as vítimas apresentam dedos enegrecidos e línguas roxas), o que sugere uma mensagem específica e um motivo em comum para a execução de tais eventos.

O Nome da Rosa é comumente rotulado como "história de detetive", mas o emaranhado da trama e a sutil intersecção de personagens sombrios faz o filme ser bem mais interessante e sensacional do que apenas uma simples história de investigação. O olhar de Umberto Eco é perscrutador, onírico e cômico, e o diretor Jean-Jacques Annaud é fiel a esse estilo.

O ritmo da narrativa não chega a ser frenético, mas a constância faz com que a atenção dificilmente seja desviada. No decorrer da história, as tramas geram certa angústia em quem assiste, mas isso se deve ao caráter frívolo do filme e ao tema nada circunspecto. No mais, o que temos são duas horas de um envolvente (e intrigante) entretenimento.

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A trilha sonora é espectral e bastante adequada ao contexto atmosférico do filme, porém, as fotografias são meros vislumbres que se perdem na escuridão e, nesse quesito, deixam muito a desejar. Já o figurino, é excelentíssimo: as roupas, uniformes, trejeitos e cortes de cabelo são exatamente aqueles que se imagina para monges, clérigos e padres. O cenário de atuação, pela ótica, é simplesmente sinistro, já que o filme foi filmado em um verdadeiro mosteiro da Idade das Trevas.

Por trás do véu de O Nome da Rosa há um mau presságio sensível, como se estivéssemos lendo um livro de Agatha Christie ou Stephen King.

Permeado por crimes, mistérios, traições e rapinagens, o filme conduz o espectador em uma luta entre o bem e o mal, em que razão e emoção rivalizam nessa narrativa filosófica e espiritual, cheia de referências a autores famosos como Santo Agostinho, Averrois, Aristóteles e São Tomás de Aquino, por exemplo. Trata-se de um excelente filme de teor literário para os amantes de história e religião.

Misticismo vs Razão (Igreja e Estado)

É importante lembrar que, na época da Baixa Idade Média (século X até XIV), quando o filme é ambientado, a Igreja era a instituição predominante e todo conhecimento fora dos padrões de ensino religiosos era completamente inaceitável e condenável.

Quem questionasse ou fosse contra os dogmas religiosos era passível de ser expurgado e, dependendo da ocasião, severamente punido pela Santa Inquisição, uma instituição anexa à Igreja que detinha o poder monopolístico para fazer valer a própria justiça contra os acusados hereges.

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O riso, por exemplo, era um comportamento considerado herético, pois a Igreja defendia que a comédia, típica de autores como Aristóteles, Dante, Petrarca e Virgílio, entre outros, proporcionava ao homem a falta de temor a Deus, o que enfraquecia as bases do poder da Igreja e a influência dos cristãos. O riso é exclusivo do ser humano e, como a religião medieval buscava explicar os fenômenos através do misticismo e da transcendência, um grande dilema tragicômico é criado nesse prospecto.

O Renascimento, movimento sociocultural que florescia na Europa no começo do século XVI, entrava em atrito com a Igreja. Na época, pessoas com inclinação moral renascentista, como o frade William, detinham valores antropocêntricos e racionais que se opunham ao Teocentrismo e ao dogmatismo medieval vigentes. Quando William se serve da razão para tentar solucionar os crimes na abadia, imediatamente uma conspiração se faz contra ele para eliminar sua iniciativa e propósito.

Por mais que o caos e a desordem reinassem naquele monastério, os monges não queriam que alguns mistérios da Igreja fossem revelados, visto que eram usados por eles para arquitetar suas próprias tramas em vias de poder.

Todo o conhecimento que a Igreja dotava provinha da fé e do espiritismo, não do questionamento e da lógica. A dúvida é inimiga da fé. Então, qualquer tentativa de corroborar a sabedoria religiosa era vista com maus olhos, pois deveria permanecer a ideia de manter a sociedade iludida. A Igreja controlava o Estado, e toda forma de obtenção de conhecimento devia ser eliminada.

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Bem, durante O Nome da Rosa, notamos que as mortes inexplicáveis na abadia causam uma grande instabilidade emocional em todos, inclusive em William e Adson. Este último ainda se envolveu intimamente com uma pobre escrava, com a qual transava dentro de um estábulo e pela madrugada, quando o silêncio permitia que sussurrassem à vontade. Adson acaba se apaixonando pela moça e, com esse caso, temos uma diferenciação entre amor e luxúria: o primeiro visa a felicidade; o segundo, apenas o pecado, de acordo com São Tomás de Aquino. Além disso, o fato de Adson ser abastado e a moça pobre mostra uma dicotomia da pobreza claramente manifestada durante o filme.

Não só mulheres, mas também homens eram explorados pela falta de conhecimento sobre as verdades divinas e terrenas. Nesse sentido, a condição de pobreza gerava uma necessidade de sobrevivência e servidão que nublava a visão e não deixava a pessoa enxergar a moral, sendo assim, tal indivíduo era mais facilmente manipulado e corrupto para os propósitos maniqueístas da Igreja. Daí, pode se imaginar o alarde quando o caso extraconjugal de Adson e a pobre garota é descoberto pelos monges da abadia e por agentes da Inquisição. Vale a pena desvendar esse e os vários outros enigmas contidos no filme.

O Nome da Rosa é um relato de cunho policial que critica severamente a intolerância que marcou não somente o momento histórico da Idade Média, mas também o tempo atual, quando guerras eclodem e conflitos são justificados por absurdos que motivam crimes e barbáries, abordados nessa clássica obra de Umberto Eco.


Eduardo Silva Ruano

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