ideias de guerrilha

Um arsenal de ideias contra a resistência do ócio

Eduardo Silva Ruano

Redator na Obvious, Whiplash e La Parola. Sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras

Banksy: História e Suposta Identidade

Banksy é, talvez, o artista de rua mais famoso e controverso do mundo. Todos o conhecem, mas quase ninguém sabe quem ele é.


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Vândalo para uns, gênio para outros, mas sempre polêmico, Banksy inspira admiração e provoca indignação em igual medida.

Banksy começou na arte do graffiti admirando as pinturas do artista Blek Le Rat, seu maior influenciador, e do qual ele reciclava velhas ideias para dar cabo às suas.

Seu trabalho inclui pinturas urbanas feitas com tinta spray: desenhos que transmitem mensagens críticas, muitas vezes satíricas. Banksy também usa objetos e utensílios encontrados nas ruas para criar suas obras de arte que, quando caem na internet, imediatamente se tornam virais.

Em essência, sua street art combina elementos básicos de crítica social, humor negro, política e filosofia. Banksy acredita que "os maiores crimes do mundo não são cometidos por pessoas quebrando as regras, mas por pessoas seguindo as regras".

Desde que Banksy fez seu nome através de um estilo de arte de guerrilha nas paredes de Bristol, em Londres, no início da década de 90, centenas de suas obras foram tornadas públicas e comercializadas ao redor do mundo. O artista possui incontáveis fãs e colecionadores famosos, incluindo Brad Pitt, Angelina Jolie, Christina Aguilera, Kate Moss, Bono e Anthony Kiedis, para citar alguns.

Ele também é conhecido por aparecer em manchetes de jornais estrangeiros devido aos seus personagens artísticos polêmicos, como, por exemplo, uma boneca inflável vestida de prisioneira de Guantánamo que surgiu em um parque da Disney; uma versão da Mona Lisa sorridente que sucedeu a original no museu do Louvre, em Paris; e o retrato de uma mulher usando uma máscara de gás estampado no Museu Metropolitano de Arte, em Nova York.

No entanto, sua declaração mais provocante, e aquela que gera mais publicidade, é o fato de que a verdadeira identidade de Banksy sempre foi um segredo zelosamente guardado, conhecido apenas por um punhado de amigos próximos e familiares.

De fato, uma rede de mitos envolve Banksy. Alguns dizem que seu nome verdadeiro é Robin Banks. Outros falam que ele costumava trabalhar como açougueiro. Há rumores de que seus pais não sabem exatamente o que ele faz, apenas compreendem que seu filho é um artista bem-sucedido. Depois, há a sugestão de que Banksy não existe, e que é, na verdade, um coletivo de artistas.

Tamanhas e variadas são as indagações sobre Banksy, que as várias pistas deixadas sobre ele confundem, e não clarificam, a veracidade dos fatos que lhe seriam genuinamente atribuídos.

Banksy é tão imprevisível que nunca se sabe como predizer a essência e localização de sua próxima obra. Para muitos fãs, essa aura de mistério valoriza os trabalhos do artista, tornando-os ainda mais interessantes.

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Em meados de 2003, Banksy concedeu uma entrevista para uma fonte desconhecida. Ele afirmou:

"Há toda uma nova audiência lá fora, e nunca foi fácil vender arte. Você não tem que ir para uma faculdade, sentar-se em uma cadeira, gerar um portfólio atrativo ou transar com alguém poderoso: tudo que você precisa é de algumas ideias e uma conexão de banda larga. Essa é a primeira vez em que o mundo da arte essencialmente burguês pertence ao povo. Precisamos fazer isso valer a pena."

A vontade de disseminar a arte de rua para as classes sociais mais baixas sempre foi um dos objetivos de Banksy durante sua carreira. Sua obra é, de todas as formas, inclusiva. Em entrevista dada em 2001 para o Herald Scotland, o artista falou:

"Há um lado do meu trabalho que deseja esmagar todo o sistema, deixando um rastro de cadáveres azuis e sem vida de juízes e policiais, arrastando a cidade de joelhos enquanto grita o meu nome. E então, há o outro lado do meu trabalho, ainda mais escuro."

Segundo a revista Smithsonian, no ano de 2005, Banksy se tornou uma verdadeira estrela internacional. Em agosto, ele foi até Israel, onde pintou uma série de imagens em paredes de concreto da Cisjordânia, que era parte da barreira construída para tentar impedir os ataques de terroristas suicidas potenciais. Imagens de uma menina segurando balões e sendo transportada para o céu; duas crianças em uma praia, ambas portando um balde de tinta e um pincel; e um menino com uma escada encostada na parede foram meditações feitas por Banksy em resposta à guerra que amedrontava aquela região.

Em 2010, a revista americana Time selecionou Banksy como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, ao lado do presidente Barack Obama, do empresário Steve Jobs e da cantora Lady Gaga.

Banksy também é diretor de produções audiovisuais. Seu documentário Exit Through The Gift Shop (‘Saída Pela Loja de Presentes’) foi indicado ao Oscar em 2011. O jornal The New York Times descreveu o documentário como sendo "o melhor trabalho de Banksy, esse documentário que se parece um filme monumental".

O fenômeno Banksy se apercebe em todos os lugares onde a cultura e arte urbana são levadas a sério. Das ruas para o mundo, dos subúrbios para os grandes centros, o artista foi transportado do cenário underground para o mainstream. De acordo com Will Ellsworth-Jones, autor da biografia não autorizada de Banksy:

"Ele é o fora da lei que foi arrastado, relutante, mas reiteradamente, cada vez mais em direção ao sistema da arte."

Mas qual é o nome e a identidade de Banksy? Alguns fãs não se importam em saber, como é o caso do artista plástico brasileiro José Schneedorf, que diz:

"De Banksy, importa menos a pessoalidade; sua descrição é sua localização; ele é sua localidade."

Para os fãs mais curiosos, no entanto, essa opinião é insatisfatória. Torna-se necessário, então, um impulso em direção ao descobrimento da persona de Banksy.

A suposta identidade de Banksy

Veículos da mídia internacional disputam diferentes versões sobre qual é a verdadeira identidade de Banksy. Provavelmente, a versão mais coesa é a produzida pelo jornal Daily Mail.

Durante um ano inteiro, um grupo de jornalistas do Daily Mail realizou uma exaustiva investigação a fim de descobrir informações verídicas acerca da identidade de Banksy. Eles procuraram dezenas de amigos, incluindo colegas íntimos, parceiros de apartamento e membros de sua família, e fizeram uma série de perguntas relacionadas ao artista.

As descobertas foram abrangentes. Sabe-se que Banksy foi um estudante de colégio público que cresceu nos subúrbios da classe média londrina, especificamente no distrito de Bristol.

A fotografia abaixo, tirada na Jamaica, representa o principal vestígio de Banksy: um homem simples e ordinário com camiseta azul e calça jeans, sorriso disfarçado no rosto e uma lata de spray em seus pés.

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Quando a imagem foi publicada, parecia ser a primeira brecha no anonimato sob o qual o artista se protegeu desde que seu trabalho começou a atrair a atenção do mundo da arte.

Obviamente, Banksy negou que a imagem fosse dele, assim como fizeram quase todas as pessoas procuradas na investigação feita pelo jornal Daily Mail.

Porém, as buscas prosseguiram. Armados com essa fotografia, os jornalistas viajaram até Bristol, a cidade natural de Banksy, onde estabeleceram contato com um homem que afirmou ter conhecido o artista em carne e osso. É claro, muitas pessoas alegam ter visto Banksy, mas esse homem, em especial, forneceu algumas informações detalhadas que sugeriam um vasto conhecimento da vida de Banksy.

Segundo esse relato, o homem na fotografia, considerando-se que seja o próprio Banksy, se chama Robin Gunningham. Seu pai, Peter Gordon Gunningham, hoje com 66 anos, é um gerenciador de contratos aposentado da área de Whitehall, em Bristol. Sua mãe, Pamela Ann Dawkin-Jones, de 67 anos, atuou como secretária para o diretor de uma empresa no subúrbio de Clifton e, atualmente, trabalha em um lar de idosos. O casal se casou em 1970. Dois anos depois, nasceu Sarah, a irmã mais velha de Banksy. E ele, Robin Gunningham, veio ao mundo em 1973.

Quando Banksy tinha nove anos, a família mudou-se para uma casa maior em Bristol, e lá o garoto passou toda sua infância. Em seus anos de formação, ele interessou-se por graffiti e arte de rua. Todos os dias, ele passeava pelas ruas do bairro e, no meio do caminho, interpretava a comunicação que observava em pinturas, desenhos e rabiscos nas paredes e fachadas de prédios.

Em 1984, aos 11 anos, Banksy estudava em um colégio público regional chamado Bristol Cathedral School. É estranho imaginar Banksy, um aluno rebelde e anti-autoritário, vagando pelo pátio de uma escola religiosa. Mas assim foi.

Scott Nurse, um colega de turma de Banksy, afirmou que o artista já era, desde aquela época, bastante criativo:

"Ele foi uma das três pessoas no meu ano que foram extremamente talentosas. Fez muitas ilustrações."

Desde garoto, Robin Gunningham, o Banksy, esteve envolvido no mundo da arte de rua. Mas essa aptidão era vista pela família com certa preocupação. Em seus surtos de criatividade, Banksy se ausentava e desaparecia por dias, sem enviar notícias ou solicitações. Agia como um nômade. O garoto saia dos trilhos, e depois voltava. Houve alguns rachas na família por causa dele.

Em 2006, Banksy deu uma entrevista por e-mail para a Swindle, uma revista de cultura pop. Na ocasião, ele disse:

"Eu vim de uma cidade relativamente pequena no sul da Inglaterra. Quando eu tinha uns 10 anos de idade, um garoto que se proclamava ‘3D’ trabalhava duro em pinturas na rua. Eu acho que ele esteve em Nova York, e foi o primeiro a trazer a pintura com spray para Bristol. Eu cresci vendo esse tipo de arte nas ruas, antes de ser publicado na internet ou em revistas."

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Banksy deixou a escola com 16 anos. Era 1989, mesmo ano em que ocorreu a Operação Anderson, na qual a polícia local prendeu 72 artistas ingleses sob a acusação de danos criminais. Entre os presos, estava Tom Bingle, parceiro de Banksy que fora julgado, mas absolvido. O próprio Banksy não foi preso e, até hoje, não há registros de que tenha sido apreendido pelas autoridades legais. Mas o próprio Banksy já disse que precisou fugir de várias investidas de policiais. Em uma de suas fugas, inclusive, ele teve que se esconder debaixo de um caminhão de lixo.

Bem, até o momento, as investigações feitas pelos jornalistas do Daily Mail provam que os detalhes da história de vida de Robin Gunningham se encaixam perfeitamente com os fatos conhecidos sobre Banksy.

No ano 2000, Banksy se mudou para Londres uma vez mais, e foi morar em um apartamento com Jamie Eastman, que trabalhava em uma gravadora, para a qual Banksy desenhou uma série de capas de disco.

As investigações do jornal Daily Mail paralisaram no ponto em que os pais do artista foram entrevistados, e negaram ser quem de fato seriam. Chega a ser inacreditável o fato de Banksy ter conseguido esconder a identidade até mesmo dos próprios pais.

O que se pode afirmar, no máximo, é que, até a presente data, nenhuma declaração da identidade de Banksy foi definitiva. Portanto, as suposições se aproximam, mas não esbarram na verdade.

Apesar da incerteza desconcertante que ainda prevalece sobre a real identidade de Banksy, alguns fatos atribuídos à sua vida, como os apresentados nesse texto, oferecem uma perspectiva lúcida, coerente e, pelo menos, próxima da realidade desse que é um dos artistas de rua mais reverenciados das últimas gerações.


Eduardo Silva Ruano

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