ilexparaguariensis

Análises singelas sobre temas complexos. Como numa roda de chimarrão. Pasa el mate?

Pedro Arthur Capelari de Lucena

E o #naovaitercopa?

Breves reflexões sobre a história do Brasil e seu paralelo com a copa do mundo, a Constituição Federal, os protestos de junho e a greve dos garis cariocas.


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Há exatamente um ano a nação brasileira deu suas primeiras passadas. Aquilo que até então era uma terra de semidemocracia, de passos tombantes e frágeis, teve força, e por conta própria, caminhou sozinha.

Totalmente aceitável, diga-se de passagem! Típico dos adolescentes. Por sermos jovens, fomos displicentes e erramos muito.

Entretanto que anos difíceis foram nossos primeiros.

Sofremos de todas as formas nos braços daqueles que dum lado nos acolhiam e no outro nos enchiam de palmadas.

Desde nossos tenros anos outros, de distantes terras, vieram e nos sangraram. Tiraram o verde das matas, a pureza dos povos indígenas e o brilhante dos metais.

No entanto resistimos! Cambaleantes... Seguimos.

E lógico... Como éramos crianças arteiras fizemos, obviamente, grandes bobagens.

A pior delas foi quando fomos estúpidos o bastante para irmos até o pobre continente africano retirar deles, dos nossos queridos irmãos, o que é de mais sagrado: a liberdade.

Herdamos o “pecado original” do terror que cometemos aos negros africanos.

Quando as coisas pareciam se organizar para, enfim, tornarem-se amenas, vieram as ditaduras. Horríveis e sanguinárias tiranias.

No confuso paralelo, encontraram razões para que ordem e progresso estivessem à frente de vida.

Contudo sobrevivemos. E desta vez fomos além.

Criamos coragem e saímos às ruas. De forma infantil falamos rudimentares palavras. E saímos logo berrando.

Soltamos das mãos daqueles que nos diziam serem nossos protetores, e queixamos em bons tons. Suplicamos pela vida, por liberdade de expressão, respeito e dignidade.

E neste período nasci. Tenho exatamente 25 anos.

Sou filho de um país de Constituição Democrática.

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As coisas, entretanto não seriam tão simplórias. Obviamente não chegaríamos à solução somente com o texto. Palavras não mudam valores.

Novamente violentamos direitos. Mas, mais uma vez fomos fortes o bastante para soltarmos novos reclamos, e tirarmos do poder aqueles que nos judiavam.

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Desde este último urro, passaram-se longos anos.

Sussurros sempre foram ouvidos, mas gritos intensos, tais como aqueles de 84 e 94 nunca mais haviam sido pronunciados.

Até chegarmos em 23 de junho de 2013.

Eu, que nasci em um Brasil de Constituição Cidadã nunca tinha sentido o tão impressionante pulso da democracia.

Outra vez desapegamos das mãos e ferozmente gritamos.

E os berros... Ahhh! Eles foram horríveis.

Também pudera...

Há 25 anos tinham-nos dito que teríamos a partir daquele momento (por meio de uma carta assinada por todos que nos representavam) uma melhor qualidade na educação, saúde e segurança. Estava, e está lá, naquela mensagem que deve ser seguida por todos, sejam eles agentes políticos ou não.

Mas... onde estão esses direitos que só podem ser adquiridos por meio do capital financeiro? Algo anda muito errado.

Por parte da nação ter nascido nesse país de garantias (mesmo que falaciosas), não soubemos, talvez, nos expressarmos das melhores formas possíveis.

Quebramos contêineres, vidraças e colocamos fogo nas coisas. Fomos intransigentes com aqueles que disseram nos respeitariam . Ainda assim... foi lindo. Luminoso demais. Foi estrondoso.

O mundo parou para ver um Brasil na sua face mais brasileira. A fisionomia de um país que anseia por melhorias econômicas e se enoja perante a corrupção e as desigualdades sociais.

Um ano passou. Chegamos aos dias de hoje.

Nesse interlúdio temporal tivemos algo majestoso. A revolta dos garis cariocas.

Aquele povo humilde, marginalizado perante a um putrefato estado social que ridiculamente afasta os com menores recursos econômicos teve coragem e força para clamar por direitos.

Paralisaram seu mal remunerado trabalho nos dias da maior festa mundial, na cidade mais turística do mundo. A linda Rio de Janeiro amanheceu para pular carnaval, suja.

E a população, em um ato de companheirismo com o próximo, apoiou a greve. Viu naquele ser humano seu igual.

O resultado da paralisação foi um irrisório aumento salarial da categoria e um choque de realidade aos das classes com maior poder aquisitivo. Descobriram finalmente que aqueles do uniforme laranja, têm, como todos os seres humanos, sonhos, e direito a tê-los.

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Voltamos aos dias atuais...

Que momento belo o Brasil vive.

Contrário a todas as previsões (inclusive a minha) a Copa do Mundo está sendo um estrondoso sucesso.

Mesmo com todas as carências o estrangeiro ao chegar a terras tupiniquins é recepcionado com um sorriso. E logo se encanta.

Esquece das obras inacabadas, dos aeroportos congestionados e do trânsito caótico. Tudo vira, felizmente, um lindo carnaval.

E os protestos? E o #nãovaitercopa?

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Que bom ter se tornado ato de minorias. Não entro no mérito quanto à necessidade de existirem durante o período, mas me inclino a entender (sem qualquer embasamento) que não seria a melhor opção.

Que fique para agosto as discussões sobre os elefantes brancos construídos, os ridículos gastos superfaturados, as nojentas desapropriações ilegais, os abusos legislativos e tudo mais de nefasto que esta copa trouxe consigo.

Mas... que o protesto seja realmente em outubro, nas urnas.

Democraticamente escolha seu candidato. Não pelas promessas esvaziadas e impossíveis, mas pelas reais. Veja seu histórico. Vá atrás dos índices de corrupção, e vote consciente. Procure conhecê-los.

E... tenha a coragem de sempre quando puder, ir as ruas. Mesmo que nos digam o contrário, temos sim, este direito.

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Precisamos crer nisso. Não podemos nos tornar niilistas e muito menos acreditar em um Estado anômico.

Sou dos otimistas! Daqueles que confiam em um país absolutamente democrático.

Um Brasil de respeito às diferenças, sejam elas políticas, sexuais ou religiosas.

Um país que não xinga nosso Chefe de Estado com palavras de baixo calão, no dia em que todo o mundo está com os olhos virados a ele.

Um país que não faça ataques midiáticos falaciosos caluniando políticos, trazendo sua vida privada a público.

Que não paute sua campanha política única e exclusivamente em ataques a determinado candidato a presidência, devido ao uso ou não de certa substancia ilegal.

Um país de bons salários aos professores e aos policiais. Que se orgulha do médico que faz um tetraplégico caminhar. Uma terra de um povo que não brigue sem motivo nas redes sociais, e que tenha o discernimento de saber discutir assuntos polêmicos de forma saudável e educada.

Uma nação campeã do mundo do futebol, e dos índices econômicos, de educação e segurança.

Temos tudo nas mãos. Somos incríveis, majestosos, e possuímos brilhos nos olhos.

Basta colocarmos em prática valores de liberdade, respeito e dignidade.

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Amém!


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