ilexparaguariensis

Análises singelas sobre temas complexos. Como numa roda de chimarrão. Pasa el mate?

Pedro Arthur Capelari de Lucena

Quintana, 108 anos. Obrigado.

Se estivesse vivo, Mário Quintana completaria 108 anos. Das divagações sobre a sua chegada aos céus. Aos céus de Quintana, obviamente.


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Sei lá. Gosto de ter um quintana no meio da sala. É meu modo de "exibimento". E gosto de comemorar datas de nascimento e não de morte dos que se foram deste plano. A morte carrega tristeza (mesmo que passageira), enquanto o nascimento traz no anseio de todo novo rebento o desejo de um mundo melhor. É a maior e mais bela manifestação que deus (allah, jeová , adonai ou o raio que o parta) existe.

Os tempos são e sempre foram difíceis para se acreditar em deus. Como pode deus coexistir com mísseis, armas e espadas?

Por isso existe o nascimento. É a forma de deus dizer "estou aqui, continua acreditando que a terra há de ser um lugar melhor."

E ahh, como deus estava inspirado naquele 30 de julho de 1906.

O mundo ficou mais alegre e esperançoso a partir daquela data.

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No céu, muitos anos depois ele foi recebido com festa. Elis, mais afinada que nunca (a cachaça dos céus fazia bem danado) acompanhava Lupicínio em um samba, daqueles que até hoje se ouvem nas esquinas esquisitas do Porto Alegre.

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Não houveram cítaras nem liras na data (quem inventou que os anjos tocavam estes instrumentos?), mas gaitas, pandeiros e violões rasgados.

As anjas (que acompanhavam em coro o samba) estavam de vestidos curtos, algumas com os seios à mostra.

Quintana maravilhou-se ao ver sua Cecilia dentre elas, mas logo chateou-se a perceber que era a única vestindo longas túnicas (culpa da avó, aquela portuguesa beata).

Virginia também estava lá. Sem nada, rindo-se e fazendo paixões instantâneas nos anjos e nas anjas.

E... os anjos? Todos vestidos, tocando batuques e acompanhando o samba. Nos céus de quintana os anjos andam bem vestidos.

Como era data festiva, usavam terno.

Para os que não sabem, os céus de Quintana parecem muito com o Rio de Janeiro. E no Rio dos céus, assim como no da terra, sempre faz calor.

Coitado dos anjos, com seus sovacos bem suados e sapatos apertados.

Assistindo a cantoria estavam Marcel, Honoré (reclamando sem parar da música, das anjas, dos anjos, e da existência angelical) e Voltaire (quem diria, Voltaire nos céus, pensou sorrindo Mario Quintana).

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Depois do espetáculo, Quintana foi tratar da vida, como os anjos tratam da nossa.

Mas Quintana nunca gostou do labor. Faz só meio turno, reveza com Drummond.

E como não é bobo, escolheu logo a quem cuidar, sua Bruna.

Quintana não a espera nos céus. Quer que a bela viva por muitos anos.

E nisto há nada de bom moço (ora os anjos também são humanos e tem seus pecadinhos morais).

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É que Quintana, assim como foi com as palavras, é um pouco voyeur da existência.


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