imagem cotidiana

Imagens que vemos (ou não) em meio ao caos (ou à calma)

Beatrice Bonami Rosa

Beatrice Bonami Rosa é artista plástica com uma paixão bem resolvida pelo desenho, fotografia e comunicação.

Olhos que olham são comuns. Que veem são raros.

Uma perspectiva comportamental do olhar em relação ao cotidiano.

O comportamento detectado por Greenberg, analisado por Shirky e justificado em Sócrates.

Falando sobre imagem, é importante separar o que olhamos do que vemos; distinguir o que necessariamente prestamos atenção e nos acrescenta algo, do que de fato entra por um olho e sai pelo outro. Vamos ver como isso funciona? Lembrando que esse texto não é em uma perspectiva cognitiva, três autores são resgatados para tentarmos esclarecer.


greenberg.jpg Clement Greenberg

clay.jpg Clay Shirky

socrates.jpg Sócrates

Clement Greenberg (1909 - 1994) faz um paralelo entre as obras de arte do início do século XX (1904 - 1912) em seu texto Avant-Garde and Kitsch (Vanguarda e Kitsch publicado no Partisan Review em 1939). Em seu argumento sobre a vanguarda artística, Greenberg discorre que a verdadeira vanguarda é fruto de um pensamento crítico e resultado de processos extremos tanto do Capitalismo quanto do Comunismo. Por outro lado o Kitsch (tendência artística rotulada como “brega”) era resultado da industrialização e urbanização da classe operária, a qual, segundo o crítico, é definida como uma “classe faminta por cultura, porém, sem recursos e educação para usufruir da cultura de vanguarda”.

Segundo ele, o Kitsch era equivalente a arte acadêmica que uma vez centrada em dogmas estéticos tentava transformar a arte passível de aprendizagem e em algo de fácil expressão (a exemplo, as obras renascentistas tidas pelos acadêmicos como modelos a serem seguidos até o início do século XX). O kitsch era de fácil apreensão e não extraia nada além do dinheiro dos seus clientes, nem tempo (palavras do crítico). É uma formulação estética destinada para os que não tinham recursos de compreender a cultura de vanguarda.

De fato, é curioso que em meio ao fervor da Arte Moderna (ou dos movimentos vanguardistas como Fauvismo, Cubismo, Futurismo) pessoas não se sintam atraídas pelas novas tendências. Esse quadro se aplica especialmente a trabalhadores e operários que se identificam e preferem obras realistas (como do Renascimento) ou mais tradicionais do que as vigentes obras de Picasso ou Modigliani que tanto atingiam uma esfera social mais abastada.

A questão central é, porque pessoas da burguesia apreciavam a arte moderna e as novas tendências enquanto a classe trabalhadora não a admirava tanto? Segundo o crítico de arte, isso se deve ao fato de que as classes assalariada e operária não entendiam as novas formulações estéticas. Nada mais coerente, pois não se espera que depois de uma extensiva jornada de trabalho (que nessa época alcançava de 10 a 14 horas de trabalho diário) os operários chegassem em casa e lessem um bom livro em uma linguagem culta e arcaica sobre os movimentos de vanguarda da primeira década do Século XX.

Exemplos de nus artísticos em um recorte de aproximadamente 500 anos

graças.jpg Rafael Sanzio. As três graças. Óleo sobre tela. 1504. Museé Condé, Chantilly - França.

Imagem1.jpg Jean Auguste Dominique Ingres. O banho turco. Óleo sobre tela. 1862. Museé du Louvre, Paris - França.

Imagem2.jpg Amadeo Modigliani. Nu vermelho. Óleo sobre tela. 1917.

Portanto, a resposta dada por Greenberg a esse questionamento é que essas pessoas não tinham tempo ou disposição, pois o que lhes restava de energia era destinado às atividades familiares e corriqueiras em um pequeno período da noite.

Em um salto de 75 anos é possível contemplar a segunda década do século XXI. Há muito, direitos trabalhistas foram estabelecidos de forma que, a rigor, não ultrapassam 8 horas de trabalho diário. Indivíduos têm acesso aos meios de comunicação, bem como aos seus dispositivos e interfaces (que estão acessíveis, inclusive, financeiramente). Em um paralelo, o problema que Greenberg havia detectado estaria resolvido. Pessoas têm mais tempo e mais acesso (a começar pela escolaridade) e, portanto, mais disposição.

No entanto, segundo Clay Shirky em seu livro Cultura da Participação (2010, Editora Zahar, Rio de Janeiro - RJ), as pessoas, depois de suas jornadas de trabalho e obrigações não se sentam para ler um livro, ou assistir um bom programa para entender a política ou as novas tendências literárias e artísticas.

A título de exemplo o autor faz um paralelo entre o contexto atual globalizado e a Inglaterra do século XVIII. Segundo ele, em 1720 a Inglaterra estava embebida em Gim (sim, a bebida alcoólica) e a população se mantinha bêbada para não ter que encarar a realidade como a falta de saneamento básico, a insalubridade e os ratos que inundavam as ruas de Londres.

Tais problemas foram superados e a sombria Londres é hoje considerada uma cidade “glamurosa”. A questão é, problemas não desaparecem, eles são substituídos. Portanto se em Greenberg o problema era a jornada de trabalho extensiva e em Londres a insalubridade, hoje podemos listar milhares de novos problemas com a contemporaneidade.

Porém, ao invés de pessoas se embeberem em gim, ou ainda, se apegar em promessas Kitchs, elas simplesmente sentam-se em frente à televisão e assistem programas que “despejam” informações enquanto o “telespectador” se comporta como uma esponja que absorve esse conteúdo sem se esforçar em questionar ou refletir sobre o que está sendo passado. Elas absorvem o kitsch, que Greenberg detectara em 1939. Diante desse paralelo é possível perceber que o problema não era a falta de tempo, a pouca escolaridade ou a insalubridade (por mais que esses fatores agravassem a situação).

Imagem3.jpg Fotografia que relata a insalubridade dos trabalhadores em Londres no século XIX

O real problema detectado por Greenberg e por Shirky encontra sua causa em Sócrates (470 a/c – 399 a/c; e sim, a justificativa pro atual problema data de mais de 2000 anos atrás). O filósofo argumenta que comparada ao que hoje chamamos de ciência ou de religião, a filosofia se destaca por não haver nela a necessidade desse tipo de consenso e por requerer uma participação individual muito mais profunda.

Grosso modo, a filosofia surge desse esforço de um indivíduo em particular para dar coerência às suas crenças. Porém, como diz o próprio Sócrates, é um esforço e depende de uma disposição do indivíduo em se questionar e buscar novas informações para responder suas questões. É, portanto, muito mais cômodo sentar-se em frente à televisão e receber a informação “fragmentada” ou “mastigada” e absorvê-la, do que recebê-la e refletir sobre um novo conteúdo.

escola de atenas_rafael sanzio.jpg Rafael Sanzio. Escola de Atenas. Afresco, 1506-1510. Palácio Apostólico, Vaticano.

De fato, Sócrates deixava as pessoas inseguras com seus questionamentos, pois as fazia pensar sobre a sociedade, a religião, a cultura. Ele era comparado a uma enguia, um peixe-elétrico, pois quem se encostava nele levava um choque uma vez que demonstrava que as crenças mais comuns, tidas como coerentes e admitidas por todos, eram contraditórias umas com as outras e frequentemente auto-contraditórias, quer dizer, intrinsecamente absurdas. Ele mostrava, por trás de uma ordem prática, uma desordem teórica.

Atualmente, esse choque, ou mesmo esse espanto, é fruto tanto de uma motivação externa quanto interna. Se frente a uma notícia cotidiana, a pessoa não se questiona e simplesmente a aceita, esse choque não ocorre. Porém o contrário ocorre quando uma pessoa que reflete sobre seu contexto se depara com a mesma notícia. Assim é preciso de uma informação, porém, nada é feito se a pessoa não tem o hábito de se questionar, e se acomoda em relação ao seu contexto. Vive-se então em uma realidade e que uma vez presente em 1939 ou em 1720 se reflete em gênero, número e grau no século XXI.

No caso da primeira metade do século XX a atração pelo kitsch era justificada pela jornada de trabalho extensa, falta de escolaridade, a escassez de informações e conteúdos e a dificuldade financeira em investir nesses dispositivos. Na primeira metade do século XVIII a embriaguez por gim e mesmo os delírios por fumos alucinógenos, eram justificados pelas casas divididas com os ratos e pelas crianças morrendo de Tifo. Na atual segunda década do século XXI, essa atração pela televisão é justificada basicamente pela escolha do indivíduo em comportar-se assim (caso não seja um caso crítico de extrema dificuldade). Portanto, a atual conjuntura pode ser justificada por Sócrates, em sua definição do esforço da compreensão individual.

Se não há questionamentos, não há reflexão e, por conseguinte, não há criticidade sobre o próprio contexto.

Reverter esse quadro é de ordem do comportamento. O canal que as pessoas assistem são elas quem escolhem, bem como os filmes e jornais que elas veêm e os sites e páginas que acessam. Por via das dúvidas fica o indicado pelo J. Sanders, para que façamos diferença em nosso contexto.

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Beatrice Bonami Rosa

Beatrice Bonami Rosa é artista plástica com uma paixão bem resolvida pelo desenho, fotografia e comunicação. .
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