imagem cotidiana

Imagens que vemos (ou não) em meio ao caos (ou à calma)

Beatrice Bonami Rosa

Beatrice Bonami Rosa é artista plástica com uma paixão bem resolvida pelo desenho, fotografia e comunicação.

A beleza das fotografias dos manifestos

Veículos de notícias e informação nos inundam com fotografias sobre os manifestos, acompanhadas por manchetes verossímeis e duvidosas. É preciso, assim, olhar e observar as imagens que nos atingem, pois elas contam nosso presente e um dia contarão nossa história. Contudo, como enxergar a beleza de momentos tão violentos e latentes dentro da nossa sociedade? Abaixo, alguns aspectos da fotografia em confluência com a atual tensão nacional.


“A fotografia é contingência pura e só pode ser isso (é sempre alguma coisa representada) – ao contrário do texto que, pela ação repentina de uma única palavra, pode fazer uma frase passar da descrição à reflexão - ela fornece de imediato, detalhes que constituem o próprio material do saber etnológico.” (ROLAND BARTHES, 1984, p. 49)

Juntos - Ato Unificado-19.jpg Por Guilherme Prado

Emissoras de rádio e TV, sites de notícias, blogs autônomos, redes sociais e outros veículos, têm focado as manifestações ao redor do Brasil desde Junho do ano passado. Mesmo aqueles que não são a favor, não se importam ou são indiferentes aos movimentos, têm contato com imagens deveras impactantes derivadas de “clicks” de vários fotógrafos, sejam amadores ou profissionais.

No entanto, as notícias correm em uma direção negativa dos manifestos. Claro que existem sempre várias versões dos fatos ora atribuídos por responsabilidade da polícia, ora por responsabilidade dos manifestantes. Mas uma coisa não há como negar: as imagens dos movimentos, das pessoas mobilizadas e do povo unido por uma causa são estéticas e, muitas vezes, maravilhosas.

02.jpg Por Guilherme Prado

Há quem associe a beleza de uma fotografia ao seu teor ético e correto, de acordo com valores socialmente estabelecidos. No entanto, é comprovado por fotógrafos e analistas teóricos que, as fotografias em ambiente de “guerra” são cruas, verdadeiras, diretas e por isso, muito bem feitas e belas. Seu teor ético ou correto, corresponde ao seu testemunho e ao seu compromisso em retratar a verdade.

Juntos - Ato Unificado-20.jpg Por Guilherme Prado

O Brasil está em estado de atenção e os registros evidenciam isso. Segundo Boris Kossoy (Realidades e ficções na trama fotográfica, 2002) há duas maneiras de bem entender uma fotografia: entendendo o contexto em que ela se insere (político, econômico e social), e entendendo como ela foi composta. É por isso que não podemos fingir que não vemos tais imagens, pois elas fazem parte da história de cada brasileiro e retratam nosso cotidiano. Também não se pode afirmar que elas não carregam uma parcela artística em sua elaboração, pois o fotógrafo mesmo na urgência em capturar um momento, ele o faz de acordo com a beleza de seu olhar.

5 ato tarifas - 17.06-25.jpg Por Guilherme Prado

O fotógrafo Guilherme Prado fez capturas impressionantes dos atos, com posições e reações de pessoas. O curioso é que cada rosto que compõe a multidão representa, em suas fotos, a alma e o futuro dos manifestos que mal começaram e estão longe de acabar no Brasil.

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A fotografia quando é "clicada" diz mais sobre o capturador do que o capturado. Ou seja, a visão do fotógrafo é o que se vê como resultado e a nossa interpretação da imagem ocorre sobre o primeiro olhar do artista. Ao questionar Guilherme sobre as manifestações ele alega que:

“Depois de longos anos de calmaria política, o Brasil entrou na rota dos protestos mundiais. Primavera Árabe, indignados da Espanha, greves gerais na Grécia, crise na Itália, Praça Taksin na Turquia, Occupy Wall Street em Nova York, entre tantas outras mobilizações que contestaram as fragilidades do Estado e o poder da classe dominante, serviram de inspiração e combustível para os jovens brasileiros tomarem as ruas."

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"Desde o Fora Collor, cerca de 20 anos atrás, o povo brasileiro não demonstrava tanta força e expressava na rua seu descontentamento com os políticos, a corrupção e a péssima qualidade de vida e dos serviços públicos. O aumento do transporte sintetizou a insatisfação, mas nas ruas se via que as reivindicações eram inúmeras. Faixas e gritos pediam por mais educação, saúde, moradia, cultura e transporte digno. As mobilizações já estão marcadas na sociedade brasileira e uma nova forma de se fazer política se torna cada vez mais necessária. Entre tantas dúvidas do rumo que tomaremos, uma certeza temos: não eram apenas 20 centavos. É hora de seguir lutando, hora de seguir na rua.”

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Um olhar sobre as fotografias retrata a urgência dessa nova forma de se pensar a política. A persistência da indignação do povo brasileiro atesta que a onda das manifestações nunca foram só por 0,20 centavos. A multidão nos faz engolir que abrir os olhos não é mais uma opção. As imagens nos dizem isso; o manifesto pede isso; e o povo vê isso, seja ao vivo, ou por uma fotografia.

5 ato tarifas - 17.06-14.jpg Fotografias por Guilherme Prado. Texto por Beatrice Bonami Rosa.


Beatrice Bonami Rosa

Beatrice Bonami Rosa é artista plástica com uma paixão bem resolvida pelo desenho, fotografia e comunicação. .
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