imensidÃo multicultural

Uns dizem apenas palavras, outros dizem silêncios, e outrem gestos e eu escrevo!

Gisele Regina

Escritora amadora; blogueira apaixonada; estudante de Letras Língua Portuguesa; pensa que é a Clarice Lispector reencarnada; ama música clássica (ah, Beethoven!); poesia; ama o silêncio, bem como as palavras.

SOBRE A AFETIVIDADE DO JOVEM WERTHER

Às vezes, a melhor forma de fugir dos problemas, ou até mesmo de não criar outros, ou de nos livrar de uma possível solidão, é dar toda importância às emoções, aos sentimentos e às paixões existentes no momento. Mas, até que ponto podemos nos aprofundar no que sentimos?



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Muitas vezes, nos colocamos em situações terríveis, nas quais a boca não sabe falar o que o coração sente, e a racionalidade assume o controle. Às vezes, por motivos incompreensíveis, tais como o medo de perder as pessoas que amamos, de ficarmos sozinhos por algum comentário infeliz, e até mesmo de não compreender o porquê daquilo que sentimos, não conseguimos agir. E claro, tem as bagagens anteriores, a cultura familiar e os traumas de infância que, se não superados, se infiltram no presente. Além disso, uma das razões do medo se chama analfabetismo emocional. Visto que a pessoa que disso sofre, não tem noção de como lidar com seus próprios excessos de emoções e sentimentos, chegando a não entender como os usar, já que não é habito, mas racionalizam nas questões afetivas.

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Todavia, a questão é: até que ponto na sua vida, esconder ou expor o que sente é normal? E isso já não é de hoje, já que na história da humanidade há uma diversidade de figuras pensantes que tiveram medo de expor o que sentiam ou mostraram demais, como exemplo, através da escrita expurgavam suas mágoas, ódios, amores, sonhos e assim por diante. E tudo isso porque 'falar' era a parte mais dificil, visto que pela escrita seria mais fácil, e ali ninguém poderia saber para qual destinatário eram dirigidas aquelas palavras.

Um exemplo na literatura: Os sofrimentos do Jovem Werther. Quem conhece Johann Wolfgang Von Goethe sabe que esse livro, do Romantismo do Séc. XVIII, iníciou a prosa moderna na Alemanha. Não só, ficou bem conhecido pela receptividade do público alvo da época - que absorveu o sofrimento não só de Werther, mas a realidade não confirmada de Goethe. Por se tratar de uma autobiografia não se sabe até que ponto Goethe expõe de si, enquanto oculta sentimentos, nome de pessoas e lugares dos quais passa e registra.

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As cartas apaixonadas de Werther eram endereçadas ao amigo Wilhelm, marcadas cada uma pela data escrita, contando de seu amor impossível por Charlotte, que era noiva. E somente o amigo tinha conhecimento dessa paixão torturante, mais ninguém. Confinado a tanto sofrimento que mal enxergava a si próprio, somente via sua amada como alicerce e motivo para viver. Segue uma degustação de parte da carta 30 de agosto, em que ele se dirige a si próprio relatando os próprios sentimentos, mas contando a Wilhelm.

“Infeliz! Não passa de um insensato! Por que procura enganar-te a ti mesmo? De que te servirá essa paixão furiosa e sem limites?... Não posso dirigir minhas preces senão a ela; nenhuma outra figura, a não ser a dela, se apresenta a minha imaginação, e o mundo eu me cerca, só o percebo quando tem com ela alguma relação. Só assim consigo fruir algumas horas de felicidade... até o momento em que é preciso que me retire de junto dela! Ó Wilhelm, se você soubesse até onde me leva o coração? (...) Wilhelm, quantas vêzes, então, nem chego a saber se vivo neste mundo! E, ao menos que ( o que sucede com frequência ) a tristeza me empolgue por completo , e Carlota me conceda o humilde confôrto de desafogar meu coração oprimido, banhando suas mãos nas minhas lágrimas, é preciso que eu me afaste, que saia e vá errar pelos campos, bem longe!”

Levando em consideração a época na qual o livro foi escrito, em uma sociedade aristocrática, Werther (Goethe) não podia ficar com uma mulher comprometida, e tinha mesmo que esconder os sentimentos, já que ela também não correspondia claramente, mas fazia de tudo para ter a companhia de Werther quase todos os dias; ora para ler seus livros, ora para visitar as crianças, a qual ele gostava tanto e alegrava sua existência naquele período. E, também, pela sociedade manter regras "discretas", o que na vida real Goethe havia sofrido por gostar realmente de Charlotte, a prometida de seu amigo. E depois de um tempo ele escreveu o livro que foi sucesso literário.

Até que ponto o amor pode nos levar ao confinamento dentro de nós mesmos e nos fazer esquecer o que há lá fora?


Gisele Regina

Escritora amadora; blogueira apaixonada; estudante de Letras Língua Portuguesa; pensa que é a Clarice Lispector reencarnada; ama música clássica (ah, Beethoven!); poesia; ama o silêncio, bem como as palavras..
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