imensidÃo multicultural

Uns dizem apenas palavras, outros dizem silêncios, e outrem gestos e eu escrevo!

Gisele Regina

Escritora amadora; blogueira apaixonada; estudante de Letras Língua Portuguesa; pensa que é a Clarice Lispector reencarnada; ama música clássica (ah, Beethoven!); poesia; ama o silêncio, bem como as palavras.

DA PAIXÃO SEGUNDO GH À MIOPIA ATUAL

E você vive como um zumbi na sociedade contemporânea, aceitando o que não pode enxergar de verdade, e ainda, acredita só naquilo que é imposto. Ou seja, a sociedade é mais técnica do que natural em seu movimento automático com relação ao mundo.


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Depois de sair da zona de conforto, GH entra no quarto da empregada e se depara com um mundo antes não visto – GH usava os óculos da realidade agora – e até então os óculos serviram muito bem, à medida que avançava se via num enlaço com o novo, já que antes havia um impedimento maior com a vida. E para chegar à vida tem que chegar ao inexistente. E o que não existia à Senhora elegante da cobertura? O quarto da empregada: o mundo que ela não via porque a hipocrisia não deixava.

E o que vivemos hoje? Escondidos como GH, em suas coberturas de culpas e medos fragmentados, devido ao fato de ter a falta de coragem, porque ninguém suporta tanta realidade. E quantas vidas estão enfiadas nos guarda-roupas de suas ilusões? As pessoas estão e não estão ao mesmo tempo. Há a potencialização do falso, da falta de credibilidade naquilo que se acredita porque é necessária a aceitação de outrem; isso é hipocrisia. Viver e sentir o que não é verdade. Quantos sorrisos se amarelam com o tempo por falta de uso? Quantas almas deixam de amar em liberdade por medo de perder aquilo que nunca lhe pertenceu? Até quando temos que pisar em ovos para ter uma conversa adequada à maturidade tão desejada e cobrada pelos outros? Onde estão os óculos da realidade que cada um tem escondido em suas gavetas? Tudo será um inferno, e continuará sendo um inferno se a máscara não parar de se meter na frente da cara nua, ao invés da própria personalidade que se tem. Mesmo vivendo em portas abertas, ainda há muita gente dentro do castelo mágico da Disney, esperando que a realidade não caia, e que o apocalipse nunca aconteça.

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O livro de Clarice tem um quê de importância, um eterno retorno. Ela termina cada capítulo com uma frase e começa outro com a mesma frase, pois o sentido que ela constrói no capítulo que finda, tem outro sentido no que começa. Então ela ensaia a vida, o poder, as verdades. Além disso, há o relato de GH com seu nada de vida sem retorno algum, sem expectativa, no mundo da ilusão, da materialidade, ou seja, GH é um desejo. Por isso, sem ter um começo e um fim ela começa pelo meio do caminho, uma vida de embriaguez existencial, em que não acredita no que era. E por se tratar da experiência, a dúvida se cerca dos olhos e as pálpebras ficam rígidas, pesadas; é o cansaço de tentar ser o que de fato não se acredita querer ser.

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A frase demonstra que a realidade dói. Pois não somos autônomos para transformar, a dramaturgia é de fachada. E mais, a experiência é hermética. Não só dói como é difícil viver integralmente de um jeito só, visto que somos todos diferentes englobados num mesmo canto; no diz respeito à Terra. Imagina se o mundo funcionasse de acordo com uma cabeça só? Seríamos de resto infelizes, sem viver o que queremos. Assim sendo, cada um colabora de um jeito com o quebra-cabeça.

E mais: é que nos contentamos em reprimir o que nem ao menos conhecemos; sem um questionamento de qualidade para estabelecer um conjunto apropriado de respostas em relação às emoções não conhecidas. E quem sabe o que é a emoção? Se sente? É de comer? Compreende-se? Pode ser, mas ela é simplesmente o conjunto de sensações físicas com os sentimentos; nada mais que a junção do corpo físico e a alma.

Lispector tenta ir além da compreensão humana. “Se eu quiser, mesmo agora, depois de tudo passado, ainda posso me impedir de ter visto. E então nunca saberei da verdade pela qual estou tentando passar de novo - ainda depende de mim!”

Vai um trecho do livro:

É muito difícil de sentir. Até então eu estivera tão engrossada pela sentimentação que, ao experimentar o gosto da identidade real, esta parecia tão sem gosto como o gosto que tem na boca uma gota de chuva. É horrivelmente insípido, meu amor. Meu amor é assim como o mais insípido néctar - é como o ar que em si mesmo não tem cheiro. Até então meus sentidos viciados estavam mudos para o gosto das coisas. Mas a minha mais arcaica e demoníaca das sedes me havia levado subterraneamente a desmoronar todas as construções. A sede pecaminosa me guiava - e agora eu sei que sentir o gosto desse quase nada é a alegria secreta dos deuses. É um nada que é o Deus - e que não tem gosto.

O que temos hoje é a desconstrução do que foi um dia, pois o homem, com a necessidade de recriar e utilizar a natureza para suas invenções modificou o modo de viver; tem que suspeitar para descobrir algo, e assim foi feito. Mas o que temos hoje não é uma verdade, e sim várias interpretações do que vivemos, e das interpretações que nos contam ou lemos. Ou melhor, as interpretações de humanos imperfeitos. O que sabemos afinal, senão fragmentos que nos dispomos a aprender e entender?

É um problema que não cessa de retornar: a invisibilidade do ser. Gh não pertencia à vida, somente quando se pergunta: aonde eu estava com a cabeça?


Gisele Regina

Escritora amadora; blogueira apaixonada; estudante de Letras Língua Portuguesa; pensa que é a Clarice Lispector reencarnada; ama música clássica (ah, Beethoven!); poesia; ama o silêncio, bem como as palavras..
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