impropriedade privada

O avesso do inverso em um universo do avesso

Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice.

Dos Frankensteins que nos habitam

Assistindo ao Frankenstein de Mary Shelley novamente, pude observar o quanto do Dr. Victor Frankenstein e de sua criatura há nas relações empreendidas na sociedade em que vivemos. Frequentemente brincamos de Deus e tentamos ir além do que nos é permitido, do que nos é possível. Além da ética e da razão.

NOTA: Esta não é uma crítica ou resenha com embasamento teórico/objetivo. Este artigo é apenas uma análise subjetiva acerca dos fatos que permeiam a trama de Mary Shelley.*


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Não aceitar nossa efêmera condição humana em geral apresenta-se como nosso maior gene Victoriano latente e inegável. Por vezes nos prendemos a desejos obsessivos e inatingíveis, de forma consciente, porém nos empenhamos em sua busca porque precisamos de garantias de que nossa existência não será esquecida. De que nossos feitos serão lembrados e de que de alguma forma seremos eternos.

Todos precisamos de algo que nos impulsione e nos motive a seguir em frente. Mas como saber qual é o limite entre o desejo e a obsessão? Qual o limite entre a coragem e a insensatez?

A perda da mãe foi o fator que impulsionou a busca incontrolável do Dr. Frankenstein pelo controle sobre a vida. O descontentamento é o que nos move na maioria das vezes. Não fosse o descontentamento e determinação de Thomas Edison, não teríamos a lâmpada elétrica. Não fosse o descontentamento e persistência de Albert Sabin não haveria já em 1961 uma vacina contra a poliomielite, mesmo após a comprovação da ineficácia de sua primeira versão em 1955.

O filme nos propõe a narrativa de uma busca pelo fim da morte, mas sem a certeza exata de que o fim da morte seria de fato o início de uma uma nova vida. Sem medir as possíveis conseqüências dos seus atos e rompendo com a ética da sua profissão, Victor traz à vida a criatura que viera a ser tachada de monstro pela sociedade e por ele próprio. Arrependido e assustado pelo que fizera, sua reação não fora outra senão expulsar sua criatura, seu monstro, e por conseguinte, seu "filho".

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Julgado pela sua aparência repulsiva e seu comportamento incomum, foi perseguido e endemonizado. Vagou à procura de asilo, de um esconderijo onde não mais pudesse ser visto, ou condenado. Em um chiqueiro, juntos aos porcos, foi onde se alojou, enquanto Victor, acreditando que sua criação não mais o incomodaria e sua atitude irresponsável ficaria inerte nas brumas do passado, seguiu sua vida naturalmente, de volta à cidade de Genebra onde a peste não pudesse alcançá-lo.

Até aqui podemos ver um perfeito reflexo do tratamento que a nossa sociedade dá àqueles que à ela não se ajustam. Aqueles que não se enquadram nos seus padrões pré-estabelecidos pelas autarquias da mídia, pelos celeiros da moda e pelos preceitos da mentalidade conservadora. Victor abandona sua criação ao descobrir que a mesma não corresponde às suas expectativas. Bem como muitos pais abandonam e rejeitam seus filhos "imperfeitos". Os largam ao mundo para que sejam apedrejados como abominações, enquanto seus algozes apresentam deformidades empíricas ocultadas pelos espelhos egocêntricos implantados em suas mentes pelo conceito falho da normalidade existencial.

A criatura só necessita daquilo de que toda a humanidade necessita: Amor e aceitação. Ainda que entre os porcos, ainda que reconhecido como "Anjo da Floresta", se sente aceito, mesmo que não o vejam. Se sente amado. Até que em seu ímpeto primitivo resolve vir à luz e expõem-se para proteger sua "quase família". O único que não o rejeita é o velho homem cego, que nada pode fazer para impedir que o seu filho o expulse como uma aberração invasora.

A dor da rejeição despertou um dos instintos mais primitivos do homem. O desejo de vingança. Já capaz de compreender aquilo que era, e principalmente, aquilo que não era, partiu em busca do Dr. Victor Frankenstein. Em busca de respostas, de compreensão e sumariamente, de vingança, ele parte rumo à Genebra.

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Tomado pelo desejo de retaliação e sua sede por respostas, seu primeiro encontro no bosque é com o irmão mais novo de Victor, William, ao qual assassina enquanto arquiteta um plano para incriminar Justine, que sofria por um amor não correspondido por Dr. Frankenstein. Justine é perseguida e condenada à morte.

Novamente um retrato da sociedade que julga, apedreja e enforca sem julgamento. Apenas o pré-julgamento, precipitado e leviano. Tão diferente dos nossos dias atuais, não?

A criatura, que por escolha de Mary Shelley, nessa obra não recebe o nome de Frankenstein como em outros filmes, se apresenta ao seu criador que acreditava que o mesmo estivesse morto. Victor entende que é hora de prestar contas. Em seu diálogo, a reivindicação por uma companheira, que não o rejeitasse para que então pudesse se isolar da humanidade por definitivo é apresentada ao Doutor, que impulsivamente aceita o acordo.

Victor entende o mal que causou àquele ser que o questionara sobre a existência de sua alma, e decide atender ao seu pedido, já que o condenara a uma vida miserável. No entanto, mediante à pressão de Elizabeth para que o seu casamento não fosse adiado, acaba sucumbindo aos apelos de sua noiva e realiza o matrimônio, deixa seu projeto de lado, quebrando então, sua promessa à criatura.

Cega de fúria, a besta destrói, como havia prometido, a noite de núpcias de Victor e arranca o coração de Elizabeth. Desesperado Victor toma o corpo de sua amada, já sem vida, o leva para o laboratório onde dá início ao processo que originara o ser abominável. Como contribuição, a criatura viola o túmulo de Justine para que seu corpo seja utilizado na nova transmutação.

Uma nova ação desesperada movida por razões individualistas é o que Dr. Frankenstein promove. Recriando sua amada para saciar novamente o seu medo de perder pela segunda vez o que lhe restava da sua memória materna, uma vez que seu relacionamento com Elizabeth, era em termos, incestuoso.

Após desperta, uma disputa pela receptividade da nova criatura, metade Justine, metade Elizabeth, culmina entre criador e criatura. Em um ato de repúdio à aberração em que fora transformada, Elizabeth ateia fogo ao próprio corpo e incinera a casa.

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Victor dedica sua vida à busca por vingança, e passa a perseguir sua criatura primogênita. Eis que então o filme retorna à cena inicial — a qual não fiz questão de narrar — mas no navio preso ao Iceberg, o Dr. Frankenstein acaba por morrer de exaustão.

Quando o gelo começa a partir-se e a pira fúnebre ainda não acesa se desprende do navio, a mais bela declaração do filme, quando a criatura diz que ali, ele abandona a sua humanidade e em unidade com seu, agora assim reconhecido por ele, pai, submerge no nevoeiro em uma única jangada de gelo em chamas.

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A cena final envolve perdão e redenção pelos erros cometidos ao longo daquelas duas existências tão diferentes e tão abaladas pelo mesmo sentimento, pelo mesmo desejo incontrolável de controlar a vida. O sentimento pelo qual o Dr. Frankenstein fora tomado, que acabou por destruir sua família e tudo o que ele amava. O perdão e as lágrimas da criatura demonstraram o quanto ele era humano, e como tudo poderia ter sido diferente com um pouco mais de compreensão e aceitação, principalmente por parte de seu genitor.

Assim como a criatura se sentia em relação a Victor, por vezes nos sentimos em relação a Deus (se é que existe algum) ou em relação aos nossos pais, que nos dão a vida. Somos testados, muitas vezes sofremos duras quedas e ainda assim temos a obrigação de sermos fortes em tempo integral. Somos incontestavelmente diferentes. Nossas diferenças nos tornam únicos e por muitas vezes nos diversificam dos adaptados aos padrões sociais vigentes. Nos estigmatizam e podem despertar aquilo que de pior há na espécie humana. O ódio. É preciso ser forte para não sucumbir e generoso para aprender a perdoar. Creio que esta seja a principal reflexão que a obra nos propõe.


Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice..
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