impropriedade privada

O avesso do inverso em um universo do avesso

Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice.

Dziga Vertov, O Homem com uma Câmera: Retratos da Rússia Socialista

Dziga Vertov revolucionou a história do cinema mundial. Iniciou seus trabalhos já nos primeiros anos do regime socialista instaurado na Rússia da década de 1910. Experimental, inventivo e transgressor, Um Homem com Uma Câmera traz à luz concepções estéticas inovadoras que permeiam os meandros de uma sociedade em constante reconstrução.


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Denis Arkadievitch Kaufman ou Dziga Vertov, como ficou conhecido, nasceu em Bialystok, Polônia, em 2 de janeiro de 1896. Um dos mais brilhantes cineastas de seu tempo, Vertov foi o responsável pela criação de diversas teorias cinematográficas. Destaca-se por aquela que ficou conhecida como cinema-olho ou cinema-verdade (Kino Pravda).

Vertov diferencia-se de seus contemporâneos como Kuleshov, Pudovkin, Dovjenko e de seu principal desafeto, Serguei Eisenstein — com quem divergia diretamente sobre suas percepções estéticas — pois se predispôs a experimentações até então ignoradas. Primogênito de um casal de intelectuais judeus, sua educação foi orientada para o estudo da literatura e das artes. Aos 10 anos de idade, o jovem Kaufman já escrevia os seus primeiros poemas.

Entre 1912 e 1915, Denis Kaufman estudou música no conservatório de Bialystok. Durante a I Guerra Mundial se mudou com os pais e irmãos para Moscou, onde aprofundou seus conhecimentos relacionados às artes e passou a estabelecer contato com círculos de jovens intelectuais. Foi durante esse período que adotou definitivamente o nome Dziga Vertov (Dziga é um termo de origem ucraniana, que segundo ele próprio, representa uma onomatopeia para 'girar a manivela de uma câmera'. Vertov deriva do verbo russo vertet, que significa 'girar', 'rodar'), referindo-se a si mesmo como um motor constante, de movimento contínuo.

Dziga Vertov o homem com uma camera kino pravda

De 1916 a 1917 Vertov estudou medicina em São Petesburgo. Estudou psicologia no Instituto de Psiconeurologia de Petrogrado e iniciou suas experiências com o domínio do som, que culminaram na criação do Laboratório do Ouvido, para proceder ao registro e à montagem de fonogramas. Suas experiências sonoras o levaram a se aproximar do movimento futurista, que se posicionava como uma "recusa dos valores tradicionais da cultura generalizada, introduzindo nas artes, no teatro, na poesia, e na ficção novos valores estéticos que contestavam os modelos acadêmicos".

Em 1918, Dziga Vertov se uniu ao Comitê de Cinema do Comissariado do povo (Kino-Komitet), tornando-se editor do primeiro cinejornal produzido pelo governo soviético, o Kinonedelia (cinessemanal). Foi no Kino-Komitet que Vertov conheceu sua futura esposa e principal colaboradora, Elizaveta Svilova. Em 13 de agosto do mesmo ano, Vertov se aliou ao Comboio de Propaganda de Lênin — também conhecido como Revolução de Outubro — buscando concretizar a concepção marxista da história e da arte através da agitação e da propaganda entre as massas de trabalhadores.

Dziga Vertov The Man With The Camera URSS

Nos anos seguintes, Vertov percorreu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) registrando as agitações do cenário político-social da região. Em 1922 juntou-se a seu irmão, Mikhail Kaufman e sua esposa, Elizaveta Svilova e formaram o Conselho dos Três (Soviet Troikh), dando origem ao movimento Kinoks. Juntos redigiram o manifesto Kinoks: uma revolução, publicado no ano seguinte no jornal vanguardista LEF.

Em homenagem ao jornal diário fundado por Lênin, Pravda, Dziga Vertov iniciou, também em 1922, a produção do cinejornal Kinopravda, no qual introduziu suas primeiras experimentações do seu conceito de montagem kinokista.

A morte de Lênin, em 24 de janeiro de 1924, foi crucial para consolidação da obra de Vertov. Lênin era a intersecção entre o partido soviético e a classe operária, tornando-se então, o principal tema dos filmes de Dziga. Ele acreditava no cinema como uma nova arte e que esta tinha grande importância para a União Soviética.

"A partir de hoje, libertamos a câmera e a faremos trabalhar na direção contrária — Longe da cópia"

Ainda em 1924 os adeptos do experimentalismo kinokiano já passavam de dez. Surgiu então, um de seus mais emblemáticos projetos, o filme Cine-Olho: A Vida de Improviso (Kino Glaz - Jizn Vrasplokn) que pretendia explorar as potencialidades de utilização da câmera.

"... Eu sou o cine-olho. Eu crio um homem mais perfeito que Adão. Eu crio milhares de pessoas diferentes a partir de esboços e de esquemas previamente concebidos. O cine-olho é entendido como 'aquilo que o olho não vê'..."

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Um Homem Com Uma Câmera | (Tchelovek s kinoapparatom)

Em 1929 Vertov lançou aquele que foi o mais revolucionário e experimental de seus filmes: Um Homem Com Uma Câmera (Tchelovek s kinoapparatom). Silencioso e rico em imagens da União Soviética sob os mais diversos ângulos, a obra de Vertov pretendia desvelar os segredos do cinema, da técnica e da linguagem cinematográfica.

Esse filme representou o rompimento definitivo entre o cinema de Vertov com a literatura e o teatro. O foco estava na experiência, na "cinessensação do mundo", exemplificando na prática as teorias desenvolvidas pelos Kinoks.

A produção do filme marcou também outro rompimento definitivo, o da parceria entre Vertov e seu irmão, Mikhail Kaufman, pondo fim ao movimento Kinoks.

"...Livre da regra dos 16/17 quadros por segundo, livre dos limites do tempo e do espaço, eu reúno quaisquer pontos do universo, sem importar o lugar de onde os gravei. Meu caminho me leva à criação de uma nova percepção de mundo. Eu decifro de uma nova forma, um mundo desconhecido por vocês..."

Um Homem com uma Câmera ou o Homem e Sua Câmera apresenta uma seleção de cenas aleatórias de diversas localidades, pessoas e situações da URSS da década de 1920. Um registro essencialmente documental, com cortes abruptos e efeitos visuais que reconstroem a realidade a partir da visão de Vertov. De encontro às cenas cotidianas registradas, surgem cenas do processo de gravação.

O autor se torna parte da obra e o processo se torna parte da própria criação. Desconstruindo toda a linguagem representativa utilizada no cinema até então, Vertov grava o filme que influenciou todo o cinema documentário da década de 20 e 30, o cinema-varité, e muitos filmes políticos do Terceiro Mundo. Sua influência é perceptível inclusive nas obras do renomado diretor da Nouvelle Vague francesa Jean-Luc Goddard, que, ao fundar sua cooperativa de cinema militante, batizou-a de Groupe Dziga Vertov.

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No último período de sua vida, Vertov foi marginalizado pelo cinema soviético de sua época, assim como seus patrocinadores. No entanto, nunca deixou de trabalhar. Seu último trabalho foi o longa-metragem de 1937, Serguei Ordjomkidze (Sergo Ordzhonikidze) — nome do comandante soviético na Ucrânia durante a II Guerra Mundial.

Dziga Vertov morreu em Moscou, no dia 12 de fevereiro de 1954, quando, aos 58 anos de idade, não foi mais capaz de resistir ao câncer que o afligia.

"...A história da minha doença é a história dos inconvenientes, das humilhações e dos choques nervosos causados pela minha recusa em abandonar o cinema poético e documental..."

Confira na íntegra o filme: Um Homem e Sua Câmera

Bibliografia: (Pernisa Júnior, Carlos), Vertov: O Homem e Sua Câmera, Rio de Janeiro: Mauad X, 2009.


Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice..
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