impropriedade privada

O avesso do inverso em um universo do avesso

Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice.

A Inequívoca Derrocada

A morte é um passaporte para múltiplas viagens e uma das mais interessantes acontece no necrotério. Ali, ao redor do caixão daquele ente querido é onde muitas vezes nos deparamos com familiares que há anos não víamos, nem falávamos e alguns, nem conhecíamos. Seja pela falta de tempo, pela distância ou por puro desafeto, eis ali o incólume e intransponível evento do qual nem o mais rico, nem o mais forte ou mais inteligente homem jamais escapou, a morte.


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Os olhos que jamais voltariam a se abrir jaziam austeros e silenciosos em meio a tantos outros olhos que, mesmo abertos, há muito já não se cruzavam. O velório é um local de profundo silêncio, interrompido apenas pelo lamento dos que ficam, pela inconformidade dos que não aceitam, pelo desespero dos que amam. Curioso que essa seja uma das raras ocasiões em que muitas famílias se reúnam. O ambiente fúnebre, então, se confunde com uma grotesca e mórbida confraternização de final de ano.

Nos últimos meses, em um curto espaço de tempo perdi dois tios. Provavelmente as duas referências masculinas mais próximas que tive durante a vida, uma vez que meu pai não participou da minha criação. Grandes perdas, imensas rupturas.

A morte é um passaporte para múltiplas viagens e uma das mais interessantes acontece no necrotério. Ali, ao redor do caixão daquele ente querido é onde muitas vezes nos deparamos com familiares que a anos não víamos, nem falávamos e alguns, nem conhecíamos. Seja pela falta de tempo, pela distância ou por puro desafeto, eis ali o incólume e intransponível evento do qual nem o mais rico, nem o mais forte ou mais inteligente homem jamais escapou, a morte. Eis ali o fatídico momento contra o qual lutamos desde que nascemos e para o qual jamais estaremos preparados.

É triste perceber o quão mesquinhos e egoístas, nós, os vivos, podemos ser. Dizemos que é difícil perdoar, que é impossível esquecer, mas quando nos deparamos com a dura realidade sobre aquilo que, de fato é a vida, choramos, lamentamos e pedimos perdão. Os mortos não ouvem, não veem, não sentem e não respondem. Talvez por isso seja mais fácil lhes pedir ou conceder o perdão, porque os mortos já não podem ferir nosso tão estimado ego. Muitos de nós são incapazes de aceitar o risco de, ao menos tentar fazer o que é certo enquanto ainda há tempo. Enquanto ainda faz sentido.

O mesmo se aplica àqueles que se vão. Apesar do conforto proporcionado a quem crê na vida eterna, em salvação, em paraíso ou reencarnação, a vida que vivemos aqui é única, uma chance ímpar para fazermos o melhor que pudermos. Sei que parece papo de livro de auto-ajuda, mas não é. Muito pelo contrário, aliás. Odeio livros de auto-ajuda, até mesmo porque a “auto-ajuda” na maioria das vezes é tão somente para o próprio autor. Quero apenas propor algumas reflexões.

Apenas questiono essa nossa necessidade irrepreensível por uma ruptura trágica no marasmo de nossas certezas absolutas para que, só então, possamos levar em consideração que nada seríamos sem aqueles que nos amam e apoiam. Muitas pessoas vêm e vão no decorrer de nossas vidas, mas a nossa família permanece. Família não se escolhe, família se tem e pronto. Acredito que muitas vezes o melhor que podemos fazer por aqueles a quem amamos é mantermos certa distância. Uma distância segura. E não, não estou me contradizendo, apenas lamento que seja assim. Porque muitas vezes é, e não podemos fazer nada a respeito.

O trágico nisso tudo é que geralmente somos capazes de perdoar aquele composto de matéria orgânica imóvel, inanimado, deitado em uma caixa de madeira, mas não somo capazes de perdoá-lo ainda em vida. Sempre que penso sobre a morte me lembro do mórbido, lúdico e realista diálogo que ouvi em um daqueles filmes que passavam no Cinema em Casa do SBT, nos anos 90.

Não estou bem certo quanto ao título do filme, se não me falha a memória se chamava “A Cidade do Halloween”. Um filme bobo do Disney Channel. Naquela cena uma menina vai ao velório do avô com um amigo e quando questionada sobre o fato ela responde que a morte é apenas mais uma parte do ciclo da natureza, pois agora que seu avô estava morto e enterrado, serviria de adubo para as plantas e de alimento para os vermes da terra, que comeriam a sua carne, cresceriam e também morreriam, dando sequência ao ciclo interminável da vida. Fiquei surpreso quando vi essa cena pelo fato dessa colocação tão consciente ser proferida por uma personagem com cerca de 10 anos, mais ou menos a mesma idade que eu tinha à época. Encarar a morte com naturalidade geralmente assusta. Quem encara a morte de forma prática geralmente é tratado como uma pessoa fria ou insensível. O preconceito nosso de cada dia.

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O pai da psicanálise, Sigmund Freud teceu importantes formulações sobre a morte ao longo de sua carreira. No ensaio intitulado “A Nossa Atitude Diante da Morte”, escrito em 1915, afirmou que a nossa atitude insincera perante à morte torna a vida insípida e vazia. Segundo Freud, o comportamento negacionista tem grande influência em nossas vidas, pois nos leva a buscar na ficção por “homens que sabem morrer e, mais ainda, que conseguem também matar os outros”, como forma de compensação pelas escolhas e decisões não tomadas em vida. Em entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926, Freud disse que a morte é a companheira do amor e que juntos eles regem o mundo. “No começo, a psicanálise supôs que o amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a morte é igualmente importante”, afirmou.

Na mesma entrevista, Freud disse que “o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção”. Segundo ele, todo ser vivo, por mais apaixonado pela vida que seja, carrega o intrínseco e inefável desejo pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”. A chamada “pulsão de morte”, que poderia levar o homem em linha reta rumo ao suicídio. Entretanto, ressaltou que “em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte”. Freud afirmou ainda que seria mais provável que pudéssemos vencer a morte, não fosse por seu aliado dentro de nós e, com um sorriso no rosto, concluiu que neste sentido pode ser justificado dizer que toda a morte é um suicídio disfarçado.

Ao fim e ao cabo, concluo este texto retomando o questionamento do qual ele nasceu: Por que muitas vezes esperamos pela morte para fazermos coisas que só teriam sentido quando feitas em vida? E para além, deixo um trecho de uma canção que serviu de trilha para as insones noites de produção deste desabafo, o som de uma banda gaúcha chamada “Os The Dharma Lóvers”, interpretando a “Canção para a minha morte”.

Dona morte/ Não tenha pressa!/ Estou treinando pra poder sair/ Sem tropeços no final da festa/ Dona morte/ Não tenho medo!/ Se compreendo que a sua natureza,/ É tão igual a essa que carrego em segredo...


Jean Peixoto

Um sujeito simples com diversos predicados. Estudante de Comunicação Social. Apaixonado por literatura, cinema e música. Fotografa tudo o que consegue. Escreve por vocação e desenha por teimosia. Já tentou ser músico, mas não se acostumou com os tomates. Espera, um dia, conhecer o Beetle Juice..
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