Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas

O Vale da Estranheza

O Vale da Estranheza é uma hipótese criada no campo da robótica e afirma que, quando um robô tem uma aparência quase humana, mas com detalhes que fogem do que é real, naturalmente sentimos uma repulsa e muitas vezes achamos assustador. Mas até onde isso irá acontecer?!


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Lá nos anos de 1970 previa-se uma coisa que hoje já acontece - e que no futuro próximo teremos que lidar cada vez mais. Masahiro Mori, pesquisador no campo da robótica, afirmara a mais de quarenta anos atrás algo muito curioso: quanto mais próximo do ser humano um robô aparentava, mais empatia o ser humano iria sentir. Mori afirma que essa 'quase perfeição', não só no campo da robótica, como no campo da computação gráfica, causa um choque entre ter simpatia com a coisa e sentir que essa simpatia, ou semelhança, é errada por aquilo tentar ser algo que não é e falhar nos detalhes que nos tornam humanos. Ou será que só eu me senti desconfortável assistindo O Expresso Polar?!

Essa repulsa natural, por assim dizer, ficou conhecida como Vale da Estranheza, e ganhou este nome por este ponto do quase-perfeito-mas-ainda-tem-algo-errado ter sido mostrado em um gráfico pelo professor Masahiro Mori. Quando a robótica e a computação gráfica, porém, nos entregar algo igual ao real e nossa percepção não notar as diferenças, essa repulsa não vai mais existir.

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E o mais curioso, talvez, é que personagens como C3PO de Star Wars nos causam mais apreço e identidade do que seres computadorizados para serem iguais a nós. Eu citei O Expresso Polar, mas temos alguns outros exemplos como A Lenda de Bewoulf, ou Final Fantasy, sem contar as incontáveis cutscenes com personagens de videogames (aquelas animações entre uma fase e outra), que as vezes apresentam cabelos, corpos, roupas de maneira absurdamente detalhada, mas que ainda sim nos causam um estranhamento.

Queira ou não queria, nós humanos vamos nos sentir mais confortáveis com os personagens de A Era do Gelo (e até achá-los fofinhos), ou também nos apaixonaremos por Samantha do filme Her, e teremos uma percepção negativa e desconfortável de um Tom Hanks computadorizado. Isso porque o Sid, Woody e tantos outros, assim como a Samantha, estão nas pontas do gráfico, e os personagens de O Expresso Polar estão justamente no Vale.

Para quem ainda não assistiu Her, não vou estragar nada ao dizer que a proposta do filme - um homem que se apaixona por seu novo Sistema Operacional - coloca na mesa um, talvez, novo tipo de amor, entre os amores infinitos que podem existir nesse mundo, e mesmo sem os milhões de dólares gastos em computação gráfica, nos mostra a outra ponta do Vale da Estranheza. De maneira mais crua e mais direta do que filmes como O Homem Bicentenário ou Inteligência Artificial onde o amor entre pessoas e máquinas é uma estranheza que se torna aceitável, Her talvez nos traga algo que está mais próximo do que podemos imaginar.

Se bem que nunca ouvi falar de alguém que se apaixonou pela voz do Google ou de seu GPS.


Nícolas Milanes

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