Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas

Wilfred, o fim está próximo

Com a chegada da quarta (e última) temporada, no canal FXX nos Estados Unidos, Wilfred parece estar mais preocupado em ter um final digno do que índices de audiência.


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Wilfred foi uma das surpresas mais agradáveis dos últimos anos em termos de seriado. Com a não tão esperada presença de Elijah Wood (Ryan Newman), o eterno Frodo, que interpreta um problemático rapaz que, após uma frustrada tentativa de suicídio, sua "ressaca" de remédios acaba sendo ver o cachorro de sua vizinha - pelo qual ele é apaixonado - como uma homem vestido de cachorro. E este cão é Wilfred, e é coração e voz de suas dúvidas.

Mas calma - Wilfred ainda é Wilfred. Aquilo que Ryan vê como o cachorro da vizinha é uma espécie de entidade que "auxilia" Ryan em uma jornada inicialmente clichê de autoconhecimento e de como lidar com os problemas. Wilfred acaba se transformando em um grande amigo, confidente de Ryan. Mas o cachorro tem o seu jeito subversivo de ajudar.

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Jason Gann, o criador e diretor de Wilfred, é também quem encarna o personagem no seriado, e define sua criação como um deus trickster, que seria algo como a figura do Malandro ou do Exú, nas religiões afro-brasileiras, ou, para ser mais visual, um personagem como o Pica-Pau. É uma figura baderneira, causadora de problemas, mas que ainda tem alguma boa intenção enquanto tenta fazer suas próprias vontades.

Jason é australiano e o seriado foi inicialmente produzido e exibido por lá. Na semana passada estreou a quarta e anunciada última temporada da versão norte-americana de Wilfred, como é possível ver na promo abaixo.

É interessante o próprio seriado brincar com seu fim. Desde o início, Wilfred não fez grande sucesso, e ainda assim manteve seu próprio estilo. As grandes conclusões de Ryan sobre sua própria vida, e sua decisões influenciadas diretamente pelo egoísmo e imoralidade de Wilfred são regadas a maconha e cerveja no porão da casa de Ryan, onde vive também Bear, um urso de pelúcia com quem Wilfred mantém uma (explícita, em algumas cenas) relação.

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A imoralidade e egoísmo de Wilfred, porém, não é algo completamente condenável. Wilfred expressa a vontade que está no âmago de nossas escolhas e decisões, começando "apenas" com o suicídio como tema. Durante as três temporadas exibidas até então - e não podemos esperar nada diferente da quarta - os episódios normalmente começam com alguma frase famosa sobre o tema abordado. Esta preparação é imprescindível para o expectador entender que Wilfred, muitas vezes, apenas tenta ensinar Ryan uma coisa boa de uma maneira aparentemente ruim - ainda que eu muitas vezes cheguei a conclusão de que aquela era a única maneira.

Wilfred não é apenas uma comédia sobre uma loucura. É a loucura criada para que, tranquilamente, se possa colocar o dedo na ferida sem que se precise ter medos de agredir o público. E, acredite, alguns episódios deixam o espectador pensativo por dias.

É uma pena que o fim esteja próximo.

Ou não.

E o ponto foi mostrado com maestria.

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