Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas

A última missão do Orkut

Anos antes de perder tardes, noites, finais-de-semana no Facebook, eu perdia esses no Orkut. Todo mundo já curtiu badaladas noites de sexta na combinação Orkut, MSN e uma boa música no Windows Media Player.


orkut.png

Mais de 46 milhões de comunidades, 40 milhões configuradas para idioma português. O Orkut foi a primeira rede social de massa. Em um período em que a internet tornava-se cada vez mais popular, principalmente com o contato das massas graças às Lan Houses e aos preços mais cada vez mais acessíveis dos computadores (além de terem se fixados como uma ferramenta necessária na vida das pessoas), o Orkut surgiu em um momento perfeito.

Lembro-me de fazer uma conta no início de 2004, graças ao convite e a insistência de uma amiga (sim, naquela época só era possível ter um perfil no Orkut com convite). Hoje vejo que a mais nobre missão do Orkut veio as claras no momento de seu finado. Pela primeira vez na história da internet, e talvez da humanidade, o Orkut registrou gerações diferentes em diferentes partes do mundo, assim como a identidade histórica dessa interação, de maneira integral e crua.

Agora em setembro os servidores serão desativados, e toda aquela informação não estará mais em nosso fácil acesso. E é por isso que surgem grupos no Facebook, a rede social que curiosamente ‘matou’ o Orkut, querendo ‘backupiar’ a velha rede social. Por quê?! Além da piada pronta de fazer backup do Orkut inteiro, muitos momentos foram passados trocando scrap com os amigos (nesse momento você se arrepende do “Lê, responde, apaga” como scrap inicial), elaborando depoimentos (ou contando sacanagem com o título “NÃO ACEITA NÃO ACEITA NÃO ACEITA”), vendo as fotos alheias e usando as comunidades para pesquisa mais do que o próprio Google.

Além do panorama de uma geração, o Orkut funciona hoje como uma cápsula do tempo. Muitos de nós não entram no Orkut com frequência a no mínimo três anos. E quando você entra e encontra fotos, textos, músicas que você gostava de 5, 6, 8 anos atrás. É algo chocante. Não vou entrar no mérito do porquê do sucesso do Facebook. Talvez, com a passagem do tempo e com o envelhecimento da nossa geração - e com a chegada das novas, que nasceram já na era da internet - a necessidade do dinamismo foi crucial para a mudança de paradigmas da expressão humana. A internet desenvolveu seu próprio espaço dentro de si, e hoje vemos que as mudanças são vistas em tempo real, e por isso, difíceis de serem acompanhadas. É nesse ponto que a internet vira parte integral de nossa vida cotidiana e uma coisa fica mais clara como nunca: é muito difícil analisar o presente. É necessário apenas vivê-lo.

Orkut, muito obrigado por me proporcionar horas de procrastinação. Por ter me permitido conhecer pessoas novas que mantenho contato até hoje, por me lapidar e me fazer entender que discussões cibernéticas não devem ser tão levadas tão a sério assim, ainda que eu tenha me expressado da maneira mais profunda para as pessoas que mais gosto.

Agradeço por ter anunciado a última martelada de seu próprio caixão, porque assim eu pude ver quem eu era na minha adolescência, e admito que me emocionei ao ver fotos, ler besteiras e lembrar de músicas que ouvia. Para mim, a sua última missão foi muito mais nobre do que a sua própria existência: você preservou um passado que, em muitos momentos eu não fiz questão mais de lembrar, e me lembrou que a vida não é bem assim, que é importante, volta e meia, ver os detalhes da trajetória de nossa própria existência, e assim entender de maneira mais confortável que mudanças são importantes. Muito obrigado.


Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Nícolas Milanes