Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas

Sobre esse papo do Governo ser reflexo do Povo

Uma provocação barata. Dessas bem charlatonas, e gratuitas na sua essência. Eu, que adoro discordar, tento mover uma estátua centenária só para ver no que dá. Política é sempre complicado.


Foi da boca de um professor de história que ouvi pela primeira vez a frase que, em épocas como a de agora, é senso comum: "O Governo é reflexo de seu povo". Corrupto, sujo, problemático e extremamente desinteressante. Essa frase é quase tão antiga quanto a própria democracia, e não precisa de muita análise para percebermos o quão reconfortante ela é. Demorei um bom tempo para ficar desconfortável com isso. Sério que ela é tão reconfortante assim?! O que estamos tentando fazer aqui? Nos confortar mesmo? Nos separar da massa, ou seja, da escória? Ou é só uma forma fácil de nos livramos da culpa que o jornalismo brasileiro esfrega todos os dias em nossa cara?

Vou mais além. Essa frase me permite afirmar que todos os alemães no período das Grandes Guerras eram nazistas. Que todos os norte-americanos hoje são a favor do neo-colonialismo disfarçado de globalização e sentem orgulho de opressão econômica. E os chineses, todos estão melhorando de vida com o crescimento absurdo de seu país. E os brasileiros, são todos corruptos, sujos, problemáticos e asquerosamente desinteressantes. Gostaria de levantar a mão e questionar o detalhe simbólico dessa perigosa linha de pensamento: desde que ouvi essa frase, tenho me esforçado bastante. E ela, pra mim, está virando uma incômoda falácia.

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E não, o fato de eu ter ouvido ela de uma pessoa que admiro até hoje, e principalmente por ela ser apoiada por muita gente importante que a replica para passar o presente da culpa, não a torna verdadeira. Muito pelo contrário. Como toda linha de pensamento consolidada, a primeira coisa que deveríamos fazer é contestá-la. Não só pela ação devastadora do tempo de mudar as coisas, mas também pro eu querer mudanças para o meu próprio futuro, e daqueles que passarem por este velho novo mundo depois de mim.

Postar o que eu estou pensando na minha linha do tempo não demonstra de fato o que eu estou pensando. Replicar qualquer coisa que li e achei absurda tampouco me representa. Escrever um texto elaborado também não ajuda muito, já que quase ninguém lê - e não vou ser hipócrita, eu também não consigo ler tudo de tudo por falta de tempo e de interesse.

Será que a retórica é realmente verdadeira?! Será que estou me esforçando, dia após dia, para ter esse retorno orgulhoso de não ter escrúpulos em (quase) tudo que acontece por aqui?! Gostaria muito de acreditar que as pessoas estão entendo melhor a complexidade que envolve assuntos resumidos em manchetes tendenciosas de jornais.

Eu respeito as opiniões dos mais velhos. E as ouço com o máximo de atenção que o momento me permitir. Muitas vezes não as contesto, transformando um sermão (in)útil em uma discussão mais sem fundo ainda. A primeira coisa que vou fazer, porém, é contestar e tentar entender se o papo cabe nos dias de hoje. E faço isso por um motivo que os mais velhos deveriam entender também. Meu pai, quando tinha a minha idade, dalí um pouco iria ter o segundo filho, enquanto eu ainda não sei definir o que é amor ou quê quero fazer pelo resto da minha vida. É demais pedir um pouco de reflexão por parte do todo, sobre essas tais verdades?!

O Governo quase nunca me representou como povo. Ele nunca foi reflexo da pessoa que sou hoje, e da maioria das pessoas a minha volta. Claro que eu não convivo com tanta gente assim, e posso ser acusado certamente de não ser o povo. Eu sou classe média, sempre fui. E aí está uma novidade interessante: mesmo assim, o Governo nunca foi reflexo do que sou e do caminho que meus pais me mostraram. Mas, olha, ele finge muito bem, reconfortando a minha classe na estância local e revoltando-a na macroescala. Pudera, eu nunca vi exatamente o que acontece na macroescala. E tudo que li sobre ela foi que estou sendo desfavorecido, mais e mais desfavorecido. Eu não vou mentir, por mais que eu me esforce em entender, e tenha cursado uma Ciência Social, eu nunca vou entender por completo as necessidades dos outros. Bem menos o Estado vai entender, com seus salários rechonchudos e sua lei do mínimo esforço para agradar onde tem que agradar, e bater para agradar um pouco mais. Bandido bom é bandido morto, não?!

Vivemos num mar de caos, e não precisamos ser niilistas para por fim perceber a complexidade ao nosso redor. Em passos lentos alcançamos o que perdemos, e principalmente o que ainda não tivemos como nação. Aos poucos, tenho fé, as discussões ficarão mais sérias na medida que as feridas doerem mais, e uma simples e inquestionável retórica não será o suficiente pra argumentar a aparente ausência de mudanças, bem menos será uma desculpa para passar a bola de nossos próprios atos com o todo.


Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas.
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