Nícolas Milanes

Geógrafo, mas aspirante e inspirado de muitas outras coisas

Guerrilhas, Barricadas e Facebook

As redes sociais estão em caos, e em um grande marco da democracia brasileira, insistimos em transformar assuntos sérios em discussões de time de futebol.


Convenhamos: não tem como negar que muita coisa aconteceu no ano passado. Pessoas importantes morreram. Tivemos a "Copa das Copas", e pelo jeito, a "Eleição das Eleições". Nunca estivemos tão informados, e ao mesmo tempo tão mal informados sobre muitos assuntos que complementam diretamente o nosso dia-a-dia. Talvez você até esqueça, daqui uns anos, que o ator Robin Willians morreu em 2014, mas eu duvido que vá esquecer o verdadeiro inferno que as redes sociais e a internet foram como um todo, e para onde elas estão indo. E, acredite se quiser, se parece que este ano a enxurrada de informações e de babaquices (por falta de termo melhor) foi a pior de todos os tempos, é porque de fato foi. E isso não foi porque as pessoas ficaram de fato mais babacas, e sim porque tem muito mais gente por aí postando.

Vamos a um dado simples, mas um pouco assustador. Em 2010, na primeira eleição da Presidenta Dilma (em caso de dúvida, consulte o professor Paschoale ou minha ex-namorada), nós brasileiros éramos 10 milhões no Facebook. No ano passado passamos dos 60 milhões. Ao compararmos com a população total do país - 200 e poucos milhões - esse número não chega na metade, mas se somarmos o número de votos válidos do último domingo de eleições, ou seja, os votos que foram para os candidatos Aécio Neves e Dilma Roussef, o número chega próximo dos 80 milhões de votos. Mais um pouco de conta rápida e arredondada, a gente descobre que 75% dos eleitores que não anularam ou justificaram seus votos estão potencialmente em uma mesma rede social. É por isso que, (bem) superficialmente falando, a internet esteve e está um caos. Tinha mais gente.

E eu não estou aqui para reclamar disso.

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Entre os mais e menos engajados, temos amigos de todos os tipos nas redes sociais. Vemos comentários de todos os tipos em reportagens de vários assuntos, em portais de maior ou menor relevância. Um novo processo midiático, quase libertador, ainda que confuso e desencontrado em muitos momentos, subiu vários degraus desde as eleições presidenciais em 2010, e entrou em um elevador desde o fatídico Julho de 2013.

Julho de 2013 é um marco importante para as discussões dentro de casa. As pessoas brigavam. A mídia nos deixou confuso em alguns momentos, mas no fatídico 20/03, ao menos no interior, eu vi famílias de todos os tipos na rua. Será que a concepção original e o árduo período colonial está finalmente nos deixando para trás e todos pensam em um bem comum?! E agora, com os movimentos deste ano - que agora fará um buzinaço em abril - estamos ainda lutando por uma causa comum ou estamos criando uma espécie de bem e mal?! As brigas de 2014, durante as eleições, foram piores no bom ou no mal sentido?! Aliás, falou-se mais sobre política ou sobre futebol?!

Ora, eu tenho certeza que durante os próximos meses você terá verdadeiros embates políticos, como aconteceu no último ano. Experimente prestar atenção nos argumentos das conversas sobre este tipo. Tenha certeza que você vai encontrar algumas manchetes em forma de frases prontas para desarmar argumentos, por mais consistentes que eles sejam. E essas manchetes com certeza te chamarão a atenção, mas talvez por falta de tempo, você não tenha lido o artigo completo o qual ela leva. Muito provavelmente o seu companheiro argumentativo também não leu, mas não tem problema, a gente usa mesmo assim. Ao menos que seja do Sensacionalista, aí a gente usa só pra dar risada mesmo.

Quer ver um exemplo?! Experimente ler sobre o mesmo assunto em diferentes portais da internet. Muitas vezes o conflito está só em como o tema ou a informação está sendo abordada, e não necessariamente na veracidade dela. Afinal, se é verdade, é verdade e ponto. Se não é, não é e ponto também, sem problema algum.

Caos em campanha eleitoral.

Toda essa apelação e reboliço de período eleitoral não é de agora. Até hoje um dos meios mais comuns - e infernais - de propaganda eleitoral é a marchinha. Uma maneira fácil de grudar na cabeça da população um número, sem argumentar, sem dar direito de escolha às sãs mentes por aí. Sabe quando isso começou?! Nas eleições presidenciais de 1914

Até hoje, principalmente nas eleições da esfera municipal de poder, carros de som nos atormentam, assim como a panfletagem e as lindas mulheres balançando bandeira de partidos nas esquinas. É uma maneira agressiva de enviar goela abaixo uma imagem para alguém, e que, ainda que sejam táticas velhas de guerra, elas são de fato o menor dos investimentos para os partidos políticos.

No último ano os principais partidos políticos nacionais gastaram milhões preparando-se em como agir na internet. Treinamentos foram dados de como rebater informações soltas, como criar memes de situações inusitadas e furos de reportagem, de como escrever, criar simbologias (tipo Coração Valente, sabe quem é?!) e usar estrategicamente hashtags. Sim, a internet esteve e ainda está um caos. Ela realmente estava parecendo aquela muvuca de um domingo antes das eleições, no centro da cidade, que só faltam nos dar santinhos no lugar do guardanapo do pastel. Só que a diferença mais incrível que temos aqui é que o eleitor é essencialmente o protagonista. As páginas criadas e as pessoas famosas são importantíssimas para a difusão inicial de todas estas estratégias que foram usadas, mas o usuário das redes sociais foi de fato a pessoa mais influente. Foi ele que levou diversas informações, pontos de vista, discussões ou meras piadas para os amigos, conhecidos e familiares das redes sociais. E as vezes sem querer ele lançou uma ideia que atingiu milhares de pessoas. Ele criou argumentos para si e foi referência para outros, mesmo que numa escala muito pequena.

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Mas tá tudo muito rápido e muito confuso.

O real motivo de coisas aparecerem e desaparecem rápido no Facebook é porque, se você for prestar bastante atenção, a sua Linha do Tempo é basicamente páginas e páginas da revista Caras localizada no seu círculo social. Se você, como eu, morar em uma cidade pequena, a coisa é pior ainda. Você sabe tudo que tá rolando por aí, os tipos de pessoas de certos tipos de festas e bares, os casamentos e nascimentos, e até as mortes. Esse sistema de consumo de informação é muito fácil e, sim, as vezes é legal gastar horas para saber o que está rolando na vida dos outros. Eu particularmente tenho orgulho de muito amigo meu que já está distante, mas que é bom sim saber que está tudo aparentemente caminhando bem.

Aos poucos, a gente vai descobrindo uns segredinhos. A hora certa de mudar a foto de perfil, o que esperar quando mudamos o status de relacionamento, a repercussão que nossos posts vão gerar nos nossos círculos de amizade e, o mais legal de tudo: quais círculos de amigos que realmente se darão conta do que estamos falando. Quem nunca postou uma merda na internet e tomou na cabeça uma indireta, ou pior, uma piada dessas bem diretas no trabalho?! Aliás, quanta gente não tá perdendo oportunidade de emprego por causa de uma exposição dessas?!

Pode realmente não parecer, mas estamos sendo julgados em tempo real. Estamos errando e acertando absolutamente o tempo todo, a ponto de, na prática as divergências serem realmente pontos de vista, e não simplesmente uma questão fundamentada no subjetivo errar e acertar. E sim, tá tudo meio rápido demais, meio confuso demais, sempre com um ar atropelado. E a primeira vontade que dá é a de xingar muito no Twitter, se isso não fosse, nesse momento, apenas uma contribuição a justamente o que está nos incomodando. Curioso como somos parte do todo, né?!

É engraçado pensar que o processo democrático mais doloroso que este país vive esteja sendo atrás de telas.

E, na boa?! Que isso seja motivo de orgulho.

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Fonte: Info


Nícolas Milanes

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