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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Seu machismo se veste de mulher?

para continuar brincando no carnaval


É comum no sertão nordestino, em várias cidades e com mais ênfase no interior do Ceará, durante os festejos carnavalescos do mês de fevereiro, homens abrirem os armários de suas mães, irmãs ou qualquer exemplo do que seja feminino ao seu redor; pegarem qualquer peça de roupa, se travestirem e sair nas ruas extraindo o que foi recalcado ainda na sua fase edipiana ou ao nascer. Ou até como diria alguns cabras macho, sair desmunhecando nas ruas, querendo ser o que o ano todo esconde. Ao pé da letra e da ignorância é a visualidade que a festa proporciona. Mas o que é passível de interrogações e curiosidades é que na terra de sol onde o estereótipo de macheza e violência dignifica o caráter do homem, há homens que tiram um dia do seu ano em determinada época para transcrever e teatrar o que entendem sobre o que é ser mulher; com seus largos pés em tamancos, boca pintada do batom velho e atrás de minissaias que por anos foram mau vistas pela moral e bons costumes.

193055_1590772173676_4877814_o.jpg Foto: Allan Bastos

Há homens que mesmo com os lábios rachados, não hidratam os lábios se só tiver batom de cor e os guardam o ano inteiro pra pintar a boca só no Desfile das Virgens. Inclusive homens que morrem de medo de seus amigos do boteco saber que passou um pouco de base facial para esconder alguma imperfeição no rosto e debocha do amigo que passa e diz, mas no dia da folia... Coloca até cílios postiços pois é o que manda a tradição. Uma tradição, que surgiu nos anos 70 com um grupo de rapazes que decidiram inovar, quebrando paradigmas de gênero ao conotar o homem dito cabra macho de uma região onde pelo menos quatro de seus estados estão na lista dentre os dez perigosos para ser homossexual e para ser mulher. Onde as cabeças ainda mecanizadas ao patriarcalismo abraça a ignorância de dizer que cabra macho que é cabra macho faz assim e não assado. Logo, consequentemente a mulher sofre ainda mais com o machismo nordestino e carnavalesco. O curioso é que na personalidade dessas mulheres que dormem o ano inteiro na alma dos homens e acordam pra folia de carnaval, elas são atrevidas, desinibidas e libertárias causando nos costumes das cidades pequenas. Agora, se as mulheres desses homens tivesse a índole de uma Virgem do tal Desfile das Virgens, ela seria vista da mesma forma que são retratadas?

172438_1590781373906_2911924_o.jpg Foto: Allan Bastos

O que acontece é que em todo confete despejado em cima das perucas há uma porção de hipocrisia que se suja de machismo vestido de mulher. A grande brincadeira move homens sim a se despertarem para as dificuldades superficiais de ser mulher e até abertura de horizontes para a questão de gênero, mas na maioria das vezes logo que o bloco acaba, se ver uma travesti na esquina ao lado faz chacota. Algo parecido foi fato histórico e desconhecido, ocorreu nos anos 50, em Catskills, Nova Iorque nos Estados Unidos, com a secreta Casa Susanna, em um período de papel de gênero tradicionais e limitados, travestis heterossexuais se refugiavam para agir como mulheres, deixando a virilidade de lado para tomar cocktails, tirar fotos e viver uma rotina invertida. Os poucos registros foram encontrados em um mercado de pulgas, por Robert Swope um comerciante de antiguidades.

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O Bloco das Virgens, apesar da sua contradição de despertar a alegria de ser mulher e feminina como valor uma vez ao ano por homens que se nunca saberão o que é isso socialmente, rompe com a visão machista remota ao mesmo tempo que a alimenta na passividade de transformar o bloco em apenas espuma e cachaça. E olhe que se não beber de verdade não é macho suficiente. Assim, se faz aquela ancestral questão de se remontar os valores masculinos com a necessidade de modernidade e progresso. Vale-se ressaltar também que o Carnaval é uma época do ano em que a violência para com a mulher é disfarçada em folia e a libertinagem se torna oportunidade para romper a ética e praticar abuso sexual. Seja naquele beijo dado à força, que é considerado ato libidinoso e sem consentimento, até acabar em estupro. A desculpa de que ela bebeu demais ou pediu pra ser estuprada é inadmissível e não pode ser confundida com liberdade sexual, pois para que aja a mesma é necessário consentimento. Então, antes de sair de casa, mulheres, leve seu não e até o nunca. Já os homens devem deixar em casas coisas do tipo “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Pois mulher também bebe, se diverte e merece respeito. Caso contrário, comporte sua virgem, ao invés de justificar o ato em qualquer atitude. 10991406_10203399818310543_8606997923504808937_n.jpg


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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