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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Somos mesmo sapiens?

''pois tudo que é humano nada me é estranho''


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Nem em todo organismo uterino cósmico ou em qualquer caminho de leite que se chame de galáxia, não há uma íris mais egoísta que enxerga os seus semelhantes se não a dos ditos animais racionais. Não que esses sejam o ponto central de qualquer exclamação da incógnita do que seja vida ou não, mas de certa forma, não sei se a irracionalidade que a eles foi dada é pura invenção ou casualidade.

Uma espécie como qualquer outra que se ergue na base da existência: nasce, cresce, reproduz e morre. O que a diferencia de todas as outras é a última, o saber que irá morrer. Talvez seja o x da questão da especial irracionalidade, o saber do sentimento de morte os impulsiona automaticamente para um carpe diem acelerado que é ofuscado pelos relógios: invenção do próprio homem para calcular seu tempo. Comparo o Big Bang como expansão do universo às contrações musculares da cloaca de uma ave para se colocar fezes, urina e ovos para fora. No caso, a evolução humana se equipara as fezes ou ovos. Por entre diluições, resfriamentos e expansões, nasce uma necessidade além desse ambiente de fecundação: o definir o que é o ser humano.

Para Nietzsche , o homem ainda precisa se encontrar como Humano, Demasiado Humano para a partir do seu espírito livre se conhecer verdadeiramente. São minhocas de si próprios. Fantásticas máquinas que marcham na individualidade do ser procriando na esperança de dias que afaguem sua própria invenção de felicidade. Cobaias do que chamam do ego e do que chamam de Deus. Além do bem e do mal o homem cria o Diabo para medir suas falhas e medos.

Por vezes, posso estar equivocado por também ser humano. Mas o que prova o que digo são as concepções construídas pela própria humanidade e algumas mantidas até hoje. Alguns ainda têm dente ciso e mastigam o passado com os terceiros molares como se ainda carne crua e nozes fossem nossa verdade atual. As verdades são inúteis e inacessíveis. E para Foucault os homens não podem fazer muito mais coisas do que valorar, não menos que respirar, e se enfrentam por seus valores. Sim, não há enfrentamento por território, fêmea ou fome e sim por valores. Ainda que haja por os três citados é um caso ainda inferior. Foucault não pretendeu que o homem não se entregasse a uma moral formada da cabeça aos pés.

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O homem está condicionado ao nascer a estrear o novo pela terra, nas palavras de Hannah Arendt . Precisa agir para ser livre e essa liberdade depende da liberdade do outro. Logo, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros; só posso tomar a minha liberdade como um fim, segundo Sartre . Enquanto buscamos nos livrar dos resquícios de sentimentos singulares que compõe nossas células e ao mesmo tempo sentimos pena de nós mesmos por não conseguirmos começamos a caminhar por uma estrada que nossos pés ainda não conhecem.

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O amor se torna nossa única ambição não inventada ou criada em meio a arquitetaria do homem. Ainda assim, não sabemos amar. Não se pode privar um sentimento que não é causal. É um sentimento que não é restrito. A restrição nos leva a uma zona de conforto que ao primeiro instante nos dá a impressão do eterno e nos faz esquecemos que ainda somos somente humanos. Em meio há um sentimento inconstante que pode ser sentido por tantas pessoas e será sentido, nós não entendemos que o direito de escolher a quem amar e ser amado já nos torna Demasiado Humano.

Até bloqueando a sabotagem humana de se entrar em conflito com sentimentos de índole singular e egoísta, o que de fato nos torna ridículo por a racionalidade ser inútil nesse momento. Logo, com esse anseio que acontece em média de 4 segundos e nos torna animais, devemos aprender que amor não é defender caça e sim soltar o que tem asas para saber que o outro nunca pertencerá a você e se voltar a vista dos olhos é porque ele soube se encontrar enquanto errante, ser livre e amar.

O ser humano é tão racional que coloca o peso de existir nos outros semelhantes. O ser humano ainda não é alguma coisa. É um projeto de liberdade. No momento, é apenas mais uma espécie e talvez sempre seja enquanto se definir. Ainda haverá o dia em que não precisarão de nomes para enfim sê-los.


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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