inforbar

dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

A individualidade do céu de cada um

Refletimos o que queremos ver, mas até que ponto vemos e sabemos dizer o que estamos vendo?


2012_11_13_13_12_530.jpg

O homem em todo processo civilizatório ergueu junto a coluna vertebral óssea o ego em uma arquitetura de alvenaria. Alimentando não só seu sonho babilônico de alcançar o céu ou voar, mas de ser o seu próprio Deus. Construindo hierarquias sociais e dignificando homens comuns. Se hoje caminhamos para gaiolas — nos sentindo livres dentro delas — a nossa interação se torna cada vez mais restrita, pois não sabemos quem mora ao lado e na verdade isso não nos interessa como antes.

Em Babel, Deus confundiu o idiomas dos construtores da torre para que não entendessem uns aos outros, impedindo a construção da cidade. Hoje seria necessário tal medida de um ser superior para parar a mecânica da cidade e mesmo com idioma universalizado, caminhamos para o silêncio de nossos metros cúbicos. O nosso conflito hoje beira a difícil arte de conviver não por não sabermos nos comunicar, mas por cada vez mais nos privar disso. Limitando-nos a janelas teladas com vista para a praça ou a relações físicas de ciberespaço em telas de celular.

O que nos limita enquanto pequenos infinitos de singularidades. A partir do momento em que somos tecidos pela costura de pedaços que emendam nossa alma, se desenham dentro de nós o que nós somos hoje, amanhã e até quando quisermos ser. Não que o objetivo do homem seja necessariamente tecer descobertas, mas que essas se fazem autônomas nas curvas do caminho que não se sabe se há volta. Como se a vida fosse o retrato de um perfeccionista limpando vidros de uma loja de quadros, quadros que são memórias, que são passados, que são coisas que por mais que transpareçam, apenas refletem e não mudam.

cidade.jpg

Nessa individualidade, telha-se o céu de cada um. Céu sob nossas cabeças, enquanto espaço ainda não cúbico que comporte nosso alívio na cidade. Imenso. Que assim como nós, se modela diariamente. Lugar imaginário na sustentação da nossa leveza, onde ainda é permitido sonhar e perceber que mesmo com violência que sofremos e cometemos com nós mesmos, ele ainda está lá. Observando o nada. Como espelho do mar. Como o lugar que paramos para observar nas horas que nos resta e medem nosso tempo. O céu caminha com o relógio na mesma velocidade com que caminhamos com o tempo?

Evoluímos, ou melhor, involuímos. Desfixam-se as significações. Construímos sob o nosso teto, o peso que coloca na nossa dor o título de maior. Há vários você. A agonia objetiva o que não sabemos por vaidade ou vício. A existência dói na costela de Adão. Somos híbridos e fora a subjetividade do espelho de cada um no reflexo do céu, a cidade se torna desordenada por não acomodar mais o desejo de crescer do homem e não ser justa com os cidadãos. Assentindo o homem a ansiedade dos dias e os multi acontecimentos, dentro de uma violência que passa por seus olhos como a notícia passa na banca de jornal. Assegurando-o da sua liberdade só dentro de casa, o transformando em um selvagem dessa selva de pedra que o mesmo construiu. Refletimos o que queremos ver, mas até que ponto vemos e sabemos dizer o que estamos vendo?


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Ribamar Junior