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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Vivências subalternas: Não amo todo dia

uma crônica sobre a liquidez do desejo
a vida aperreia/o lado pesa/não há peneira/que meça/os grãos que separam/a pele da lua/porque todo homem/tem além dos poros/à beira do hímen/na cor dos olhos/um pó que escore entre rimas/dissolvendo a lei do desejo/que pulsa e faz da glande coração /uma permissão/para fazer da clausura/anseio


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A única coisa que eu poderia pensar enquanto fazia a quinta transação bancária diária na posição O Ato de Retorno, era o quanto meu ouvido estava doendo e na quantidade de tempo que esse cara não transava. A carência unida a sabotagem de se saciar momentaneamente por alguns reais era a alma do meu negócio.

Até que ele é boa pinta, inclusive no duplo sentido. Mas, seus olhos tem um ar de tristeza que nem meu melhor boquete poderia fazê-lo sorrir. Talvez seja a esposa e a crise das bodas de papel — ou do que quer que chamem esses termos para contar por quanto tempo se finge a tal felicidade de ter uma vida conjugue — pois não me parece que ele tenha maturidade para resolver a vida como homem e esteja enfrentando a crise recém casada, combinando com essa barba recém fechada que por si é a prova dos nove da sua inexperiência com as curvas femininas.

Pelo jeito com que enfia seu pau em mim, parece que sou a terceira mulher com quem deitou além da esposa. Que nem sonha que ele me masturbou com o dedo que está o anel que ela talvez ainda esteja pagando. Um filho! Quem sabe o orçamento apertou por que o material escolar subiu e ele não quer deixar de dar umas fodinhas por aqui, por isso mete com tanta voracidade. Daria de graça por este pobre homem. Se meu gemido é o pilar do seu ego, eu poderia sacrificar minha dor de ouvido por mais uma transa. Mesmo precisando do dinheiro para pagar o oftalmologista, eu iria na fila do SUS para levantar a moral desse homem que me parece tão abalado.

Talvez hoje no seu dia de trabalho, tenha perdido aquela pauta importante ou na tentativa de um aumento para pagar o meu oftalmologista e colocar a culpa na mulher, a falta de dinheiro no final do mês tenha sido um ato falho. Ou não conseguiu comer a secretária na sala de xerox de graça e teve de gastar com meus mimos artificiais. Não sei. Só sei que a camisinha está atrapalhando a ejaculação desse homem ou estou muito ociosa para fazê-lo gozar no tempo comum. Não é a primeira vez que adentra a mim. Semana passada foi até agradável, o stress está atrapalhando ele de atingir o topo do seu ego com sua máquina de sêmen ou estou ficando inerte no que faço. Antes ele do que eu. Até porque sem mim, ele é apenas o homem da casa.

Não perguntei idade. Julgo uns vinte e cinco. Sem rugas de expressão. Fôlego da juventude. Quiçá uns fios brancos aqui acolá perto das costeletas. Mãos grandes e um rolex. Cueca boxer Calvin Klein. Logo, sabemos quantos peixes nadam na carteira desse jovem homem ou se o seu emprego é herdado de um pai que construiu seu nome. Homens fracos. Vejo pela tristeza em seus olhos. Tão apressado que transava de óculos de grau. Coçava muito o nariz. Parecia cheirar umas carreiras para manter a pose de filho de papai sob pressão. Arriscaria pedir pra cheirar uma em meu pescoço se meu ouvido não pedisse para esse ser o última da fila.

Pedi pra ir com mais força. Ele ficou de ponta de pés e eu inclinei mais o quadril para cima. Calçava uns quarenta e três... E de meias pretas sem seu sapato social que o colocava dentro de uma posição dominante enquanto homem da empresa, era apenas um homem que precisava gozar. E eu inclinada na varanda de costas para ele, assistindo ao virar o pescoço a performance do ápice daquele ser, observava os carros como se cada penetração fosse um trânsito do dia-a-dia ou uma rua vazia iluminada pelas cores do semáforo. Talvez eu estivesse tão perdida quanto a mãe que escutava no silêncio daquela madrugada, o choro do seu filho na janela da maternidade da frente do prédio no qual eu dava. O telefone dele tocou. Tirou o pênis de mim. Deixou um obrigado e duzentos reais.


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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