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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Quem precisa do machismo?

O machismo está nas entrelinhas. Em uma região onde o espaço e o sujeito são marcados pelo estereótipo de "macheza", violência e valentia, sendo esses motivos de orgulho, o homem nordestino é uma construção discursiva regionalista pautada na virilidade. Logo, a virilidade e violência são reproduções na necessidade lógica de afirmação.


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Há alguns dias, navegando em uma rede social entre o ofício e o ócio, deparei-me com uma publicação de um amigo homem — como redundava minha vó — que dizia: "Eu preciso do machismo, pois...". Hesitei em ler o resto, mas ao invés de saber das justificativas para ser machista, automaticamente pensei, quem precisa do machismo? Não foi necessário refletir muito.

Os homens, desde meninos, são educados para o machismo. É muito comum se usar o termo "vire homem!", como conceito disciplinar quando o moleque comete algum deslize de meninice. Já as mulheres, desde meninas, são educadas para acolher a condição de opressão. "Comporte-se como menina!", diz a mãe mandando a menina sentar como mocinha. A partir da construção social do que é ser masculino, vão se tramando entre arquétipos, as relações sociais.

Até a leitura final desse artigo, uma pessoa do sexo feminino sofrerá algum tipo de violência, seja física, sexual, simbólica, doméstica ou institucional. Isso porque a cada cinco minutos uma mulher é agredida no Brasil, segundo o Mapa da Violência 2012 – Homicídio de Mulheres. A persistência da violência contra a mulher, lembrada no último final de semana pelo tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), demonstra-se importante para a reflexão das altas taxas de feminicídio no país.

Sem dúvida a Lei Maria da Penha (nº 11.340) foi uma grande conquista para o empoderamento feminino, mas se questiona até que ponto ela é efetivada e versada. Apenas 397, dos 5.565 municípios brasileiros, têm delegacias especializadas no atendimento à mulher. A estatística de 2009, faz parte da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e mostra o quanto são necessários os avanços para o fortalecimento da Lei.

Em tempos ameaçadores para as políticas de gênero no país, recentemente, a 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), determinou que as medidas da Lei sejam aplicadas também para as mulheres transexuais, o que permite um alinho nas limitações da legislatura. O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. As mulheres trans são Marias que morrem todos os dias.

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O machismo está nas entrelinhas. Em uma região onde o espaço e o sujeito são marcados pelo estereótipo de ''macheza'', violência e valentia, sendo esses motivos de orgulho, o homem nordestino para o pesquisador Durval Muniz, é uma construção discursiva regionalista pautada na virilidade. Logo, no molde de corpificação do gênero masculino, a virilidade e violência são reproduções na necessidade lógica de afirmação. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, "'ele não pode agir de outro modo', sob pena de renegar-se". A virilidade é construída pelos homens e para homens contra a feminilização, o que por si vem a designar uma relação inferiorizada com gênero feminino. O homem ainda por medo de não ter macheza, em uma lógica de afirmação, sustenta através da cultura do machismo, a violência contra a mulher.

Essa semana, a lendária Mulher do Fim do Mundo, Elza Soares, lançou uma canção que une o samba e o problema da violência doméstica. "Você vai se arrepender de levantar a mão para mim”, diz o refrão de “Maria da Vila Matilde”, que cita o disque 180. De janeiro a junho de 2015, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – realizou 364.627 atendimentos. Segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR), do total de 32.248 relatos de violência contra a mulher, 16.499 foram de violência física (51,16%), 9.9971 de violência psicológica (30,92%) e 2.300 de violência moral (7,13%).

Os homens não precisam do machismo. Mas, para se manterem em uma zona de conforto procuram justificativas para os seus atos machistas. A posição de dominância ainda não é motivo de infâmia e sim nobreza. Desconstruir-se é mais que uma opção, é uma obrigação, dentro de um sistema (patriarcal) que o mesmo construiu e mantém uma estrutura vertical de opressão. Que a luta seja todos os dias e o grito de todas Marias se façam coro de empoderamento.


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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