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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Clarice está cansada

Viva a Macabéa nossa de cada dia. Viva a nossa hora da estrela.


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Clarice está cansada. Segurando um cigarro em uma mão e olhando com a cabeça apoiada nos ombros para o jornalista Júlio Lener, ela desabafa sobre o cansaço de si mesma em entrevista para o programa Panorama da TV Cultura. Apesar de questionada, ela não dizia muita coisa. Seus olhos de ressaca fazem jus a sua vasta obra, assim como nas definições machadianas, eles eram como uma onda cava e profunda que ameaça avançar e tudo tragar. Era o ano de 1977, e poucos meses antes de sua morte, ela já afirmava estar em morta. Estava num hiato "em que a vida fica intolerável", diz Clarice, aos 56 anos, com pernas cruzadas e sotaque peculiar.

Hiatos podem ser períodos curtos ou longos. A obra A Hora da Estrela, talvez possa ter sido o hiato mais curto e bruto da vasta obra de Clarice Lispector. Com pouco menos de 90 páginas, o livro não ocupa muito espaço na estante, mas ao ser lido, transborda no leitor. É quase preciso dar uma pausa, tomar uma aspirina e molhar os dedos na língua para passar as páginas que contam a história dolorosa da nordestina Macabéa. Considerada a Macunaíma do Brasil por muitos estudiosos, a personagem retrata a cara do brasileiro daquela época. Sem pai e sem mãe, a jovem de 19 anos vinda de Alagoas não tinha o que chamar de seu na cidade do Rio de Janeiro, a não ser um velho rádio de pilha.

A autora não consegue se esconder atrás do narrador Rodrigo S.M. Dentre todas as definições que ele encontra para justificar a existência de Macabéa, quem sabe a de café frio seja a pior. Mas o leitor também pode ficar em dúvida quando o seu namorado Olímpico a chama de cabelo na sopa. Café frio ou cabelo na sopa, a datilógrafa por gostar tanto de parafusos, parecia ter perdido alguns da cabeça. O pouco que aprendeu sobre a vida foi através de uma tia também falecida. clarice 3.jpg

"Eu morei no Nordeste, eu me criei no Nordeste", a autora conta para o jornalista sobre sua pernambuquice adquirida entre intervalos de silêncio introspectivo. Logo não por coincidência Macabéa é nordestina. Sem revelar nomes, justificando ser ainda um segredo, ela explica que pegou o fio da história no ar. Após perambular pela Feira dos Nordestinos em São Cristovão no Rio de Janeiro e imaginar ser atropelada por um táxi ao sair da casa de uma cartomante, Clarice encorpou o destino da personagem. "A estória de uma moça, tão pobre que só comia cachorro quente. Mas a estória não é isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima", completa a autora.

O romance pode ser sintetizado na fala de Macabéa ao encarar a sua imagem refletida no espelho: "Sou datilógrafa e virgem e gosto de Coca-cola". A vida da personagem era marcada pelo som dos pingos dos minutos na Rádio Relógio. Toda a sua noção de mundo era pautada pelas notícias do rádio. As coisas parecem melhorar para a personagem, quando ela começa a namorar o alagoano Olímpico de Jesus, que sonha em ser deputado e não vê na pobre jovem uma chance de futuro. Assim, ele a abandona para ficar com a sua colega de trabalho Glória, cuja sua aparência "formosa" enchia seus olhos com cifrões.

Macabéa sonhava alto, pensava em ser atriz de cinema. Mas o mais alto que conseguiu chegar foi acima da cabeça de Olímpico, quando ele a ergue nos braços e ela se sente como um avião, em uma das cenas mais bonitas e sinestésicas do longa-metragem dirigido por Suzana Amaral em 1985. Vendo a situação de tristeza em que sua amiga se encontrava, Glória decide indicar para Macabéa uma consulta com uma cartomante. Madame Cartola é certeira em suas previsões, mas dessa vez confundiu os rumos. Previa que a jovem ao sair de sua casa, iria encontrar um rico estrangeiro loiro de olhos azuis, no qual ela se casaria e seria muito feliz.

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Aconteceu assim como dito. Ao sair da casa da cartomante, Macabéa extasiada em estrear o novo pela terra, como sugeriria Hannah Arendt, ao atravessar a rua, é atropelada por uma Mercedes guiada por dois olhos desatentos e de fato, azuis. Daí se dá o chão de estrelas para o ensaio final da pobre vida da datilógrafa. Os sinos anunciavam que os morangos já estão em colheita e que a hora da estrela chegara.

Bebendo da mesma água de Virgínia Woolf, Kafka e Herman Hesse, Clarice fazia da escrita vida e morte. "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever", indagava ela. Macabéa faz parte das coisas que não são por não terem cabimento.


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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