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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Tropix: A Sangria de Céu

Céu, como uma nave, vai


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Céu parece que colheu o quarto disco da sua carreira, o cortante Tropix, nas flores do jardim elétrico dos Mutantes. Vagarosamente, como sugere o nome do seu primeiro segundo álbum aclamado pela crítica internacional, a paulistana Maria do Céu desde 2002 vem traçando seu caminho à passos firmes. Fora de cena desde 2012, depois do Caravana Sereia Bloom, a cantora a cada trabalho desbrava os limites de suas canções como uma vazão, uma sangria, que é ser e se mostrar, como cantavam os Novos Baianos.

A capa do trabalho ambienta uma ciber-balada nostálgica, os cabelos volumosos desenham uma beleza que nos lembra Gal e nos enche de seiva. O tom preto e branco, um pouco acinzentado, acende o rosto afilado e chama a sombra da madrugada, dos rastros e dos neons tropicais. De frente, a cantora encara as lentes com a certeza e a leveza de que acertou. Quase como um quadro vivo, a fotografia se diferencia do seu penúltimo disco, no qual a visão debaixo denota o azul, o grande e o bonito céu e a timidez de quem nos olha pelo Retrovisor, mas nos arrasta para frente como caravela e cauda de sereia.

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O que a cantora que não rejeita o rótulo de MPB, mas o considera limitado, não esqueceu de fazer foi de deixar os ouvintes com Falta de Ar. Como um mergulho nas Camadas da poeta da dor e da paz, o Tropix é um disco para o amanhã, para ouvir tomando um chá com cometas e mel. A música Minhas Bics e Arrastar-te-ei abre uma ciranda e traz um pouco de calor para as horas frias e Étilicas de cura do amanhecer, dos anseios e desejos da noite em que não sabemos quem está em nossas rédeas. Amor Pixelado é corajosa, e talvez, a mais bonita canção dos trópicos pixelados, disputa lugar com Perfume Invisível. Ir em busca de si é como garimpar ouro, e ainda mais, em busca do que o outro ama em nós, é como pôr o dedo em ferida.

Céu se despe do peso do corpo, da costela de Adão. Bebe o mar, guarda estrelas e se risca com a luminosidade dos astros. Com Tulipa Ruiz ela acalanta os corações, mesmo que o canto ecoado Pot-Pourri, feito faca, corte nossa carne. O Tropix é maré que começa baixa e termina alta, cobrindo o emaranhado que somos. Sem medo, do jardim elétrico ela sobe nos pés de manga do infinito e chupa o caroço. Céu como uma Nave, vai.


Ribamar Junior

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