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dos neandertais aos tais: sobre machifêmea e os amancebos

Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio

Forasteira de si

Caligráfico, o Joanne traça uma silhueta íntima da artista Lady Gaga e da imagem de Stefani Germanotta. As duas abrem caminho de mãos dadas.


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O quinto disco da carreira de Lady Gaga, Joanne, é uma carta aberta a si mesma. Breve, limpo e certeiro o CD em 47 min flui como uma seiva que escorre das afundas da cantora. Diferente da excreta do disco penúltimo trabalho Artpop, declarado pela própria artística que poderia ser um projeto “com falta de maturidade e sensibilidade”, o Joanne foi trabalhado silenciosamente e por outro lado não seria o disco que marcaria uma época, um produto bruto e sim, detalhado, íntimo e atenuado.

O Joanne desvanece a poluição do neon, os ares transcendentais e tom holográfico do Artpop e retoma sutilmente com maturidade e dureza aos caminhos que Lady Gaga percorreu. A primeira canção Diamond Heart já narra nas entrelinhas o que Stefani Joanne Angelina Germanotta inventou da personagem Gaga. Quase como uma volta a aura The Fame, primeiro disco solo da cantora, os versos compostos por ela, Mark Ronson e Josh Homm contam sobre os dilemas de uma estrela que sabe o preço da fama e de ser jovem, louca e americana, como em Just Dance, como em Marry The Night.

Lady Gaga apesar de se reinventar a cada trabalho, sempre esbarra em si. Acontece que o Joanne é ouro garimpado pela forasteira que ela é. Se na capa do penúltimo trabalho ela parecia ser uma estátua de mármore, quase uma Vênus pós-moderna, dando luz a uma nova geração, agora ela parece ser de carne de osso, sem lenço, sem documento e finita. Sem medo de se mostrar, com certeza de que será aplaudida sem pedir, sem precisar como em Applause, single do Artpop.

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Joanne, música de homenagem a sua tia falecida, é a poesia de guardanapo de Stefani. A-YO é ambientada em ares country como os versos da canção John Wayne, traduzida como “Fulano” e a última relembra o heterônimo masculino Jo Calderone, chamado pela mídia também de alter-ego da própria artista, ator em You and I e modelo da japonesa Vogue Hommes. O estilo selvagem de gole rápido e que joga a lata de cerveja no chão relembra outros tons de Lady Gaga, como as capas do single do Born This Way, metálicos.

Dancin’ In Circles é um convite a pista de dança do disco. Não como um G.U.Y, uma pista suave sem tanto elementos Vaporwave. O disco ganha um quê erótico em Come To Mama. A repetitiva Perfect Illusion é o ultimato em relembrar da Stefani no começo da carreira, da menina do EP Red and Blue da Stefani Germanotta Band vendido em março de 2006. Os versos que lembrar a dor de cotovelo do Molejão guiam o intuito da Dive Bar Tur, voltar ao bar e cantar, agora como Gaga, com o que aprendeu. De maiô, franjas e olhos de ressaca. Hey Girl é uma canção adolescente a parceria com Florence Welch se faz forte no potencial das duas artistas. Just Another Day, na versão Deluxe veio para mostrar que nem só do pop viverá Lady Gaga. Os aspectos do Cheek to Cheek, álbum em conjunto entre Lady Gaga e Tony Bennet permanecem como gosto apimentado na ponta da língua.

O CD acabou antes de eu terminar a escrever sobre ele. É que assim que poesia é, rápida e tocante. Joanne é um disco solitário, por que é através da solidão que nós somos. Caligráfico, o Joanne traça uma silhueta íntima da artista Lady Gaga e da imagem de Stefani Germanotta. As duas abrem caminho de mãos dadas.


Ribamar Junior

estudante de Jornalismo que prefere toddy ao tédio.
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