inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Fernanda Gentil, estereótipos e a nossa constante insatisfação com o corpo

Fernanda Gentil, jornalista e futura mãe, teve sua aparência criticada pelo R7 após ser fotografada de biquini numa praia carioca, trazendo à tona uma velha questão: afinal, por quê ter um corpo considerado "normal" é ter um corpo menos digno?


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Na última terça-feira, 20 de janeiro, o portal de notícias do R7 expôs algumas fotos da jornalista esportiva Fernanda Gentil enquanto curtia o sol em uma praia carioca. Lamentavelmente, o foco da matéria foi apontar e criticar, de forma ácida, o corpo da moça. O colunista fez questão de frisar que ela tornou-se a "repórter queridinha da copa por ser loira e 'teoricamente' ter um corpão'". Após a enxurrada de críticas, o jornalista pontuou: "vale lembrar que o corpo de Fernanda é como o de qualquer mulher normal!". Dito isso, me perguntei: Por que o demérito em ser uma "mulher normal"?

"Celulites", "curvas a mais", "bumbum reto". Fernanda Gentil foi alvo da mídia ditadora de tendências e padrões inalcançáveis - para nós, mulheres normais cujas ocupações são estudar, trabalhar e aproveitar a vida e não malhar ininterruptamente com o objetivo de manter a bunda petrificada para deleite de quem quer que seja.

enhanced-3055-1421848513-1.jpg Uma das fotos veiculadas pelo R7 criticando ferozmente a forma física da jornalista Fernanda Gentil.

A patrulha do esteticamente belo nos oprime ao mesmo tempo que nos proporciona um prazer nada saudável: quantas de nós não ficam curiosas ao perambular por um site qualquer e se deparar com alguma notícia chamando a atenção para a celulite da fulana, a flacidez da beltrana, os quilos a mais da cicrana? Não sejamos hipócritas. Perceber que aquela assistente de palco tachada de "gostosa" também tem os malditos furinhos no objeto de "preferência nacional" nos conforta e nos aproxima desses seres intocáveis. Somos todas normais, portanto.

Os estereótipos de beleza feminina existem desde os primórdios, e foram se modificando ao longo dos séculos: seios pequenos na idade média, quadris largos nos anos 50, barriga negativa em 2015. Espartilhos comprimiam as cinturas femininas desde o século quatorze e as chinesas deformavam os pés para mantê-los pequenos - e arranjar marido - desde o século X d.C. Mudaram os padrões, mas não o alvo.

espartilho1.jpg Peça do vestuário símbolo de feminilidade, o espartilho perdurou até o fim do século dezenove e tinha como objetivo deixar a mulher com a cintura fina.

Cultura. O Brasil cultua os seios siliconados e a barriga dura a qualquer custo. Faz a mulher competir com modelos da Victoria's Secrets e mulheres-fruta. E a mídia fica com uma gorda (desculpem o trocadilho) parcela de culpa nas minhas, nas suas, nas nossas frustrações. Agradar o nosso homem e os demais homens da praia, fazer inveja às amigas e às inimigas, ter a licença para transar de luz acesa: são infindáveis os nossos objetivos. Afinal, nascemos para agradar, para embelezar o mundo, para satisfazer os olhares alheios. Se falhamos nessa nobre missão, nossa autoestima se esvai, e nos tornamos cada vez mais obcecadas e deprimidas.

Após as duras críticas à reportagem do R7, o portal enviou um pedido de desculpas à Fernanda Gentil, além de retirar a matéria do ar. Fernanda está grávida, o que agravou ainda mais a situação de desrespeito. E se ela não estivesse? O R7 teria tentado se redimir da mesma forma?

Pesquisas revelam que 7 em cada 10 mulheres estão insatisfeitas com o corpo. Andressa Urach, modelo, foi internada recentemente por complicações com as aplicações de hidrogel - utilizado por quem deseja levantar o bumbum ou aumentar as coxas. O caso foi grave e colocou em pauta o tema desta discussão: até onde devemos ir em busca do corpo perfeito? Devemos mesmo ir?

andressa-urach-hidrogel-hm.jpg Andressa Urach antes e depois das complicações com o hidrogel.

Vinte e cinco passos para o corpo perfeito. Oito passos para ter a barriga dura. Perca dez quilos em um mês. Somos bombardeadas diariamente com toda a sorte de matérias, passo-a-passos, tutoriais e técnicas que insistem em esfregar na nossa cara que não somos bonitas, que nossa coxa não é dura o suficiente, que listras horizontais evidenciam o abdômen e devem ser evitadas.

É importante viver com saúde, se exercitar, passar do manequim 46 para o 42 caso julguemos importante. É imprescindível olharmos no espelho e gostarmos da nossa imagem refletida nele. É urgente perceber que a mudança na nossa estética se faz necessária quando nós queremos que seja, quando nós acharmos importante - e não porque algo ou alguém nos impôs isso.

Fernanda é jornalista e repórter. Sua função é transmitir a notícia para o grande público - e não ser a musa do verão.

Nós somos mulheres e seres humanos. Nossa função é viver da forma como bem entendemos e tentar - numa árdua e constante tarefa - ser feliz do jeito que somos, dando de ombros para os patrulheiros da beleza sempre que necessário.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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