inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Antipatia cotidiana: precisamos repensar nossos atos

Você se considera antipático? Com certeza sua resposta é "não". Pode ser que você realmente seja, mas muitas vezes nem percebe. Aprender a melhorar esse defeito é um preceito básico para agir de forma mais humana com as pessoas ao nosso redor.


Dr house.jpg

Imagine a seguinte situação: são sete e vinte da manhã e você está atrasado para a entrevista de emprego que pode ser decisiva na sua vida. Entra no elevador ainda sonolento, ajeita o cabelo com as mãos, limpa os óculos e, impaciente em passar na padaria da esquina e tomar um pingado, fica apertando incessantemente o botão. São trinta andares até o térreo. No vigésimo entra o síndico chato, querendo puxar conversa. Você o detesta, mas hoje é um dia em que, especialmente, você o detesta com todas as suas forças. Ele fala sobre o tempo, o horóscopo, as novas maçanetas do terceiro andar, o ciático. E você lá, querendo dar o fora dali, interagindo através de “uhuns” e “ahans” sem desviar os olhos do smartphone, enquanto o elevador parece ter trezentos andares. Você é antipático.

Hoje poderia ser um dia atípico, afinal, você acordou atrasado para a entrevista em decorrência de uma noite mal dormida, pois teve festa na laje da casa da esquina desde às duas da tarde do dia anterior. Hoje o seu mau-humor seria entendível e sua antipatia momentânea poderia ser facilmente relevada. Mas não. Você é antipático o tempo todo e nem percebe, pelo contrário: se autoentitula introspectivo, tímido, com fortes tendências à sociopatia (como se isso fosse a coisa mais cult do planeta). Balela. Você é antipático e ponto.

Certa vez, numa conversa descontraída com outros dois amigos após algumas cervejas, começamos a questionar a impressão que passávamos um pro outro e para as pessoas ao nosso redor. Um deles foi categórico e rápido na resposta sobre mim: “Acho que a Jenifer demonstra claramente quando não gosta de alguém. Não consegue esconder”. O outro imediatamente concordou e complementou: “Verdade, dá muito na cara”. Na hora eu fiquei me achando a transparência e autenticidade em pessoa, até refletir melhor: eu sou é uma tremenda antipática. Nunca tinha percebido que muitas vezes passo de cara fechada por conhecidos ou encurto um assunto com o menino chato de voz irritante, reproduzindo respostas monossilábicas e economizando sorrisos.

Aficionados-franceses-demostrando-colores_TINIMA20120730_0148_3.jpg A França ocupa o primeiro lugar no ranking dos países mais antipáticos do mundo segundo a Skyscanner, site de pesquisa de preços de passagens e de hospedagens. De acordo com a pesquisa, os franceses são número 1 em atitudes grosseiras em relação aos turistas.

Curiosamente, o público alvo da minha antipatia são os próprios antipáticos - salvo algumas excessões: muitas vezes a chatice crônica das pessoas também desperta minha antipatia. O fruto da minha repulsa eminente são justamente aquelas pessoas que passam por mim e me olham torto, negando um simples “bom dia”. Às vezes nem olham. Ou se forçam a olhar quando precisam encarecidamente de um favor – seja a data da prova final ou um pouco de óleo de cozinha.

Todos nós preferimos uma pessoa a outra, e isso faz parte da seleção natural que definirá o tipo de sociedade a qual faremos parte. Nos identificamos com um e nem tanto com outro. E geralmente menosprezamos os que não fazem parte do nosso bando, pagando antipatia com antipatia, num câmbio nada engrandecedor. Sem perceber, acabamos nos tornando refém das nossas próprias críticas.

Talvez o decorrer do dia do síndico do prédio - o da nossa situação hipotética - se desse de maneira mais leve e feliz se você tivesse interagido com as dores no ciático e elogiado a iniciativa da troca das maçanetas – poderia até mencionar que as do quinto andar também estão meio enferrujadas. Poderia ter engolido a sua soberba e esboçado um ou dois sorrisos, enquanto o smartphone ficaria acomodado no bolso de trás da calça. Ele não quer saber se você está atrasado ou se está com fome e precisa enfrentar fila para beber às pressas dois goles de café com um pedaço de bolo. Ele só quer alguns andares da sua empatia.

Acredito que tornar-se alguém mais agradável é benéfico para nossa saúde mental e para o dia das pessoas envolvidas na nossa aura de simpatia. E não é tão difícil mudar nosso semblante de desprezo: Um sorriso ou um bom dia educado já é o bastante para darmos início ao processo de "desantipatização". E não vamos confundir educação com falsidade: falsidade tem mais a ver com aquele elogio sem sinceridade regado de adjetivos no diminutivo; ser educado é ser respeitoso e cumpridor do papel de ser humano.

Enquanto isso, o que eu quero mesmo é pegar aquele antipático pela mão, ignorar meu orgulho e dizer "dá cá um abraço. Somos farinha do mesmo saco (mas deixar de sê-lo só depende de nós)".


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @obvious //Jenifer Severo