inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Fé, status e as convenções sociais

Há quem mal saiba fazer o sinal da cruz mas que anseie desesperadamente casar na igreja, com todos os apetrechos que lhe é de direito. Há quem sonhe em batizar seu filho mais para manter uma convenção social do que qualquer outra coisa. E há quem escreva reflexivamente sobre tudo isso. Chega mais, vou te contar algumas experiências a respeito.


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Antes de completar um ano, fui gentilmente agraciada com um dos sacramentos da igreja católica: o batismo. Aparentemente aquela água fria que jogaram na minha cabeça e me fizeram berrar feito uma criança faminta, continha poderes mágicos: eu que antes era apenas um bebê qualquer finalmente fui reconhecida como filha de Deus e passei a ter o direito de entrar no reino dos céus. Intrigantemente, as famílias parecem qualificar o batismo como um acontecimento social digno de aparecer na parte colorida do jornal. Pensam na roupinha da criança, em arrumar a casa para esperar os parentes que vêm do interior, na maminha temperada, na sobremesa, na maquiagem a prova d’água para aguentar o calorão dentro do templo sagrado, nas fotos do Facebook. Certa vez perguntei a um adulto – um ser sensato e sábio, que transcende o conhecimento superficial e geralmente é o herói de qualquer pirralho - por que as crianças eram batizadas, assim, tão novinhas, sem serem consultadas. A resposta veio, carregada de uma grandeza e sabedoria ímpares: “porque é assim que tem que ser”. É assim que tem que ser. É? Que triste essa imposição, eu pensava. E se a criança se descobrisse budista alguns anos mais tarde? Ou satanista? Ou Wicca? Trabalho perdido dos pais evangelizadores. Minha irmã mais velha teve o direito de escolha que eu não tive: foi batizada aos sete anos porque quis, com os padrinhos que ela quis, do jeito que ela quis. Convenhamos que uma criança a essa altura da vida não tem muitas aspirações, mas por um momento foi livre para decidir sobre seu caminho religioso.

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Minhas irmãs casaram-se no mesmo dia, para alegria da minha família tradicional. Após os dois casais decidirem mais ou menos a data, todos sentaram-se à mesa para dividir as contas, atribuindo valores hipotéticos para cada detalhe da cerimonia: buffet, decoração, maquiagem, vestido, salão de festas, etc. Os meses que seguiram foram de verdadeiro estresse financeiro e emocional. Organizar uma festa para trezentas pessoas com duas noivas envolvidas, não é nada fácil. Até então estava tudo certo, as duas casariam na igreja da cidade, com o padre bonachão amigo da família, sob os olhares de despeito dos parentes e vizinhos que no fim da festa dariam tapinhas nas costas dos meus pais e diriam, a contragosto, que ambos fizeram um bom trabalho. Casar é sinônimo de realização pessoal, de sucesso, de ascensão social. A sociedade geralmente vê com bons olhos a família cuja filha casou na igreja, de branco, e virgem, de preferência. Certo dia, uma das minhas irmãs e seu futuro noivo foram falar com o padre sobre um pequeno problema de percurso: o noivo em questão já fora casado na igreja. O religioso, então, informou que por esse motivo, não poderiam casar-se na casa de Deus. Lágrimas. Casaram-se no salão da festa, sob a benção de um juiz de paz, ostentando uma noite de luxo conseguida através de muito suor de todos os envolvidos. Todos estavam bebendo as melhores e mais caras bebidas, a mesa estava impecável, as noivas pareciam verdadeiras princesas e era isso o que importava.

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Aos doze eu entrei para a catequese, e estava muito animada. Minha mãe comprou uma bíblia linda, eu amava os meus catequistas e ia à missa todo domingo, porque realmente gostava – apesar de não entender até hoje essa história de santíssima trindade: é pai, filho, e espirito santo, tudo junto? E tem uma pomba no meio disso tudo? Às vésperas da primeira eucaristia, um dos catequistas discursava, inflamado, sobre o corpo de cristo. Inocentemente, indaguei: “mas a hóstia é apenas um símbolo, né? Uma representação do corpo de Jesus Cristo?”. Incomodado, porém paciente, o rapaz categoricamente respondeu: “não, Jenifer. É o próprio corpo de cristo que se transforma no momento da comunhão com os irmãos”. Pronto. Não entendi mais nada. Mas no domingo que sucedeu a última aula de catequese estava eu, de branco, feliz da vida recebendo o corpo de cristo e tirando fotos com o padre da paróquia. Minha mãe poderia dormir em paz, afinal eu estava num caminho abençoado, lia a bíblia, agradecia ao Senhor até pelo Danoninho que eu estava prestes a comer e rezava todas noites pedindo perdão por coisas que eu nem sabia se precisavam ser perdoadas: “Puxei o cabelo da minha amiguinha”. “Colei na prova”. “Perdi o dinheiro da rifa da escola”. Somos doutrinados de modo a sentir-nos agradecidos e a temer à Deus, fazer as coisas certas, dar esmola ao mendigo, jejuar, pedir perdão por mentir ou por desacreditar no Senhor caso um ente querido morra de forma repentina. Eu tinha tudo para dar certo, com exceção da história do jejum.

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Hoje repudio alguns ensinamentos cristãos, permeio entre o ateísmo e o agnosticismo– ainda não sei se creio em algo que reja nossas vidas ou se tanto faz - não vou à missa, não rezo e utilizo a bíblia como ferramenta de conhecimento histórico, filosófico e absorvo as metáforas que acredito fazerem sentido. Ainda não sei o que é a santíssima trindade e aquela hóstia de farinha e água ainda não me parece o corpo de Cristo. Minhas irmãs não estão mais com os noivos da época e sou um caso perdido, pois acho que pularei a parte do casamento e seguirei direto para o utópico “felizes para sempre” – que não precisa de vestido branco, bolo caro ou anéis de ouro para fazer-se real. Enquanto isso, uma conhecida que acabou de ter filho, lota todas as redes sociais com as fotos do batizado – mais uma criança que lamentavelmente não pôde escolher. Curiosamente, a última vez que a fulana pisou numa igreja foi em seu próprio batizado, há mais de vinte anos atrás. Ao que tudo indica, a fé – ou a simulação desta – é sinônimo de status. Deus me livre.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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