inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Quando chega ao fim - uma crônica sobre o término saudável

A separação dói. Dói ainda que não haja mais resquícios de amor ou cumplicidade. Deixar para trás uma vida construída a dois para seguir vivendo só, reformulando os sonhos, replanejando as metas e reinventando-se, não é das tarefas mais fáceis.


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A separação dói. Dói ainda que não haja mais resquícios de amor ou cumplicidade. Deixar para trás uma vida construída a dois para seguir vivendo só, reformulando os sonhos, replanejando as metas e reinventando-se, não é das tarefas mais fáceis.

Sendo assim, que haja separação quando ainda houver vestígios do que existia, mas em outra intensidade, com outras nuances. Um quadro bonito numa moldura digna. Que não esperemos que as cores desbotem e tornem-se apenas um borrão do que foi um dia - um quadro apático, que nem de longe lembra a aquarela viva de outrora, quando havia amor e planos.

Que saibamos quando não podemos mais caminhar juntos, mas que enxerguemos no fim um novo começo. Afinal o sentimento apenas se transformou, a relação passou por um tipo de mutação. E agora experiencia um carinho suave e mudo, talvez indiferente, uma coexistência branda, quase vegetativa.

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Saudável é o fim que anuncia um amor que passou por uma metamorfose inevitável. Uma separação que se deu enquanto havia respeito e um certo resquício de casal, mas já sem paixão nos olhos. Saudável é o fim que nos permite desfrutar de uma amizade sem saudosismo crônico ou arrependimento pelo que poderia ter sido e infelizmente (ou felizmente) não foi.

Esmiuçar os fracassos e distribuir as culpas é perda de tempo. Haverá o pranto, talvez a lembrança do que significou um dia, mas haverá também o comum acordo, uma espécie de contrato imaginário em que ambas as partes concordam que o que tiveram foi sublime e único demais para continuar. E por ser tão sublime e único merecia um ponto final. Porque continuar seria diminuir o sentimento que sustentou a união, seria assistir submissos à transição lenta e progressiva de algo que um dia deu certo para um ciclo de culpabilização, de cobranças, de raiva, de falta de admiração. E é sabido que quando perde-se o respeito e a admiração, perde-se a essência e o propósito.

Que o fim venha se arrastando, quando ambos estiverem combalidos, mas não insuportáveis aos olhos um do outro. E que as mãos se soltem, cansadas, agradecidas, acalentadas. Que o fim chegue silencioso, se instale e tome forma numa troca de olhares terna, reafirmando a cumplicidade latente: ambos saberão que esse é o fim. E aceitarão. E dirão adeus.

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E assim, poder dizer que deu certo. Deu tão certo que acabou, da forma certa e no momento certo. Apesar de piegas, poder dizer que foi eterno enquanto durou. E que a vida não finda ali, no arrastar das malas, no fechar das portas, nos dedos livres de alianças. Que o ponto final deu lugar a uma vírgula que não serve para evidenciar a ruptura, mas para auxiliar numa passagem branda, num antes e depois que difere apenas na ausência física do outro, mas que não anula os aprendizados e as vivências que ambos experimentaram enquanto amantes.

E que possamos nos permitir seguir a vida com outros planos e sentimentos, tendo o término como pano de fundo para outros quadros, com outras cores e perspectivas - enquanto seguimos pintando, de alma leve e consciência tranquila.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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