inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Vida adulta: o que não nos contaram

A ideia que se tem é que os adultos são seres superiores, de inteligência inatingível e respostas pra tudo; que são bem-resolvidos, dirigem, frequentam restaurantes descolados, são experts em cuidar da casa e das finanças, têm controle emocional e o principal: são bem sucedidos na maioria das coisas que se propoem a fazer. Pelo menos era isso o que eu pensava aos quinze anos – e isso é uma falácia que só a descobrimos como tal quando nos tornamos adultos e nos pegamos perdidos, duvidando de muitas coisas e insatisfeitos com a profissão que escolhemos aos dezoito.


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Quando estamos no auge da construção das nossas certezas adolescentes - mais ou menos lá pelos quinze anos - nossa maior vontade é chegar o quanto antes aos dezoito. Há um mundo desconhecido e mágico a ser desbravado após atingir a maioridade, cuidadosamente arquitetado no nosso ingênuo e fértil imaginário. Muitos planejam colocar meia dúzia de peças de roupa dentro de uma mala e cair no mundo; outros querem simplesmente cair fora da casa dos pais – esse regime ditatorial que tanto nos aflige nessa fase -, outros querem é cair na sarjeta de tanto beber, porque agora – glória! - é legalmente permitido.

Perante a sociedade, aos dezoito, somos considerados cidadãos adultos. Temos a obrigatoriedade de votar; assumimos a responsabilidade por atos ilícitos que, por ventura, viermos a praticar; estamos aptos a dirigir, a entrar em casas noturnas e carregamos a responsabilidade de escolher a profissão que possivelmente vai ser nosso ganha-pão pelo resto da vida. Quando de fato nos reconhecemos como adultos, lá pela casa dos vinte, percebemos que a coisa nem é tão legal e surpreendente assim. O mais surpreendente, na verdade, é acompanhar certos paradigmas da adolescência cairem por terra. Um deles é de que os adultos são seres sábios e independentes.

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De fato, a sabedoria acumulada ao longo da vida é resultado das nossas vivências, e tende ser lapidada e aprimorada ao passo que vamos envelhecendo. Porém, digo sem vergonha nenhuma (aliás, a perda da vergonha é outra consequência da maturidade): eu sei quase nada da vida. E isso nao é um ônus adquirido somente por mim em decorrência da minha possivel falta de intelectualidade e sapiência. Tenho amigos de vinte, trinta, quarenta e cinquenta anos, e muitos deles também julgam saber nada – ou quase nada – da vida. Não, eles não são completos ignorantes. São em grande maioria engenheiros, jornalistas, escritores, advogados e militantes politicos - pessoas esclarecidas e com acesso à informação. Muitos deles em certa altura da vida começaram a questionar sobre o propósito da existência humana e o universo, passando por questões Freudianas, religião e discernimento de certo/errado. Alguns ainda não entraram em um consenso sobre suas crenças, outros ainda não sabem como se virar sozinhos longe do abrigo da casa dos pais e muitos não sabem dirigir e pouco entendem de transações bancárias que envolvam termos mais complicados.

b7fe640b613ddc4c586ed5640a027aed.jpg "Nós tínhamos um acordo. Deixe os outros envelhecerem, não eu!"

A ideia que se tem é que os adultos são seres superiores, de inteligência inatingível e respostas para tudo; que são bem-resolvidos, dirigem, frequentam restaurantes descolados, são experts em cuidar da casa e das finanças, têm controle emocional e o principal: são bem sucedidos na maioria das coisas que se propõem a fazer. Pelo menos era isso o que eu pensava aos quinze anos – e isso é uma falácia que só a descobrimos como tal quando nos tornamos adultos e nos pegamos perdidos, duvidando de muitas coisas e insatisfeitos com a profissão que escolhemos aos dezoito.

No entanto, crescer tem as suas vantagens: você não tem mais medo de ser quem você realmente é. O adolescente tem uma necessidade que já lhe é inerente de pertencer a um grupo social bem aceito pela maioria para se autoafirmar, provar seu poder, originalidade e inteligência - inquestionáveis aos olhos dos demais do bando. A gente descolore o cabelo, ouve as bandas mais descoladas, vai aos shows mais badalados, têm preferência pelas roupas de marcas famosas – essas pagas pelos nossos pais, os mesmos que muitas vezes nos deixam a duas quadras da festinha badalada porque é infantil e nada descolado ser visto na companhia deles. Depois dos vinte a coisa muda um pouco de figura. Hoje em dia, morro de medo de fazer qualquer intervenção química no cabelo, porque se algo der errado, vai dar muito trabalho para “restaurar as configurações originais”- e o que mais me sobra é preguiça. As únicas marcas que minhas roupas têm são as de água sanitária – uma das coisas que não sei: lavar roupa direito. Ouço de tudo um pouco, de música árabe à MPB, passando por axé e músicas trash anos 90 – com certeza muito mais pelo meu saudosismo crônico do que pela qualidade musical – e não me importo nem um pouco em dizer para o mundo que eu gosto de Ana Carolina e Maria Gadu, mas aos quinze anos isso soaria piegas, lésbico, esquisito. Ícones da música popular brasileira raramente estampam camisetas modernas ou acessórios – e na adolescência é muito importante materializar nossas preferências: as pessoas precisam ter certeza que somos os seres mais legais do planeta. E talvez eu me importasse, porque aos quinze anos eu queria mostrar para o mundo que eu estava dentro dos padrões convencionais da sociedade adolescente, essa instituição que tanto queremos impressionar na nossa juventude. Hoje não mais. Esse tipo de coisa torna-se ínfima perto de tantas outras preocupações que chegam com a maioridade - como as contas, por exemplo, ou em alguns casos, os cabelos brancos.

de477f688f1400cc4dd99b3f7531495d.jpg "Eu ganho pontos extras se eu fingir que me importo?"

O amadurecimento nos traz mais aceitação de nós mesmos, mesmo que ainda não saibamos muito sobre o mundo que nos rodeia e escorregamos ao tentar discorrer sobre algum assunto o qual não temos muita intimidade. Talvez a maior descoberta da vida adulta seja essa: não viemos ao mundo para servir de enfeite ou se encaixar em padrões culturais ou intelectuais. Apesar de muito duvidar dos nossos próprios conceitos e assumir que sabemos pouco ou quase nada desse universo louco da maturidade, sabemos o que nos dá preguiça e o que é desnecessário. E essa é a sabedoria mais sublime, sagrada e indispensável: saber o momento certo de não estar nem aí pra nada – mesmo quando esperam muito de você - e poder enlouquecer de vez em quando, para não enlouquecer de vez. Na verdade, nada mais realmente importa: você agora é gente grande.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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