inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

Lei de Murphy e o Brasil de 2030


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Ano de 2030

Há três anos nos despedimos do segundo regime militar no Brasil. A coisa estava tão crítica em meados de 2014 e 2015 que os velhos sargentos obrigaram-se a levantar os traseiros de suas poltronas, vestir a farda impregnada de naftalina e “dar um jeito no país”, a pedido dos muitos seguidores de Olavo de Carvalho. Vimos dondocas baterem panelas de suas janelas em Copacabana, meia dúzia de pessoas na Paulista pedindo o impeachment da então presidente na época, Dilma Rousseff, encabeçando a marcha da familia. A bancada da bala e a bancada religiosa dominaram o congresso nacional – resolveram fazer um extra, porque o dízimo dos fiéis já não bancava os luxos das esposas e amantes.

O então presidente da câmara, o homofóbico e intolerante Eduardo Cunha, aliado aos demais parlamentares religiosos e membros da sociedade civil defensores da moral e dos bons costumes - juntamente com militares aposentados - fundaram o PFTB – Partido da Família Tradicional Brasileira. Expulsaram homossexuais dos templos religiosos, diminuíram a já ínfima participação dos transexuais no mercado de trabalho e puniram com mãos de ferro as aborteiras. O racismo deixou de ser crime, e a homofobia nunca chegou a ser criminalizada.

A participação das mulheres na política, na mídia, nos esportes e nas universidades diminuiu drasticamente e o número de abortos clandestinos seguidos de morte aumentou significativamente. Além disso, quem era um saudoso convicto da vida familiar nos anos 50 foi agraciado: as mulheres voltaram a esquentar a barriga no fogão e a esfriar no tanque, personificando com maestria a musa Amélia dos maridos alcoólatras - assédios constantes e salários desproporcionais retiraram boa parte das mulheres do mercado de trabalho. A caça às feministas tornou-se uma espécie de caça às bruxas.

O ex-deputado que disse que a colega parlamentar não merecia ser estuprada, acabou estuprando. E não foi sua colega, mas um travesti na Rua Augusta, em São Paulo. Saiu impune, pois alegou que estava fazendo a vontade do Criador. Foi aplaudido pelos colegas pastores.

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Os orfanatos e as vielas imundas ficaram superlotadas de crianças abandonadas pela pobreza e acolhidas pela criminalidade. Bandido bom é bandido morto, e assim foi declarada a morte do futuro dos jovens menores de idade que infringiram a lei. A redução da maioridade penal tornou-se pauta novamente e foi aprovada em tempo record. Os que não morreram nas mãos dos defensores do jargão “direitos humanos para humanos direitos” presos a postes morreram baleados nas favelas pela polícia amiga do povo e amante de selfies com a elite branca indignada. Nunca foram registrados números tão alarmantes de morte de jovens e adolescentes como no período da segunda ditadura. A família tradicional buscava por órfãos do sistema que possuíssem olhos claros e pele alva; já os casais homoafetivos queriam apenas a chance de poder adotar, independente de idade e características físicas - direito esse que nunca lhes foi concedido. "Deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo!!" era um dos lemas do PFTB.

Protestos foram proibidos e as universidades federais sucateadas. Amigos jornalistas e alguns militantes desapareceram, e apenas mês passado foi reinstaurada a Comissão da Verdade e novamente nos intoxicamos com o cheiro de sangue e impunidade vindos dos porões da ditadura. Estamos aguardando a resolução de mais de dois mil casos de desaparecimento durante o período da segunda ditadura militar. O que mais ouvimos nas ruas é: "quem ficava em casa assistindo a novela continua em casa assistindo a novela", justificando os crimes cometidos contra os rebeldes do sistema.

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O Brasil, durante esses anos ficou atrasadíssimo em relação aos demais países da américa latina. A Argentina desponta hoje como grande potência econômica, mas os olhos do mundo estão voltados mesmo é para o Uruguai, que colhe os louros da legalização da maconha, descriminalização do aborto e participação ativa do povo nas decisões políticas em todas as esferas. Nosso país perdeu prestígio e aquele feeling para as relações diplomáticas.

A Rede Globo tornou-se o quinto maior conglomerado de mídia do mundo. Ontem o Jornal Nacional televisionou uma matéria sobre a significativa melhora do Sistema Único de Saúde após o término da ditadura. Na matéria, o repórter entrevista uma senhora idosa com câncer terminal: “Realmente os hospitais públicos melhoraram em infraestrutura, mas eu não me importo muito. Tenho cerca de três meses de vida. Estou muito ansiosa para morrer. Há vinte anos comprei um terreno no céu durante um culto da Igreja Universal. Paguei à vista! Não espero muito luxo, mas se eu puder construir uma casa abençoada como a do ex-presidente Marco Feliciano nos Estados Unidos, a morte já vai ter valido a pena. Deus está comigo. Foram anos difíceis esses últimos” – Concluiu.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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