inquietação crônica

O transbordar de uma mente inquieta

Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita.

O amor é generoso - nós é que não somos

No fundo, todos queremos ser felizes. Hoje você teve o coração despedaçado, mas amanhã pode despedaçar o de alguém. Só realmente nos importamos quando nos pegamos frustrados com as nossas expectativas e raramente nos colocamos no lugar do outro, afinal, o que importa é a nossa própria felicidade. Ninguém decide ficar por pena - e nem deveria -, ainda mais quando a cabeça já voa por outros horizontes. O mundo não é justo e no fim das contas todo mundo é egoísta quando se trata de amor - inclusive você.


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“Esta é uma história de uma garota que conhece um garoto. Você deve saber logo de início: ela não é uma história de amor”

Não foi amor à primeira vista porque, sinceramente, creio tanto nisso quanto creio em papai noel e dietas relâmpago. Foi, na verdade, uma brincadeira boba, uma troca de olhares, uma aventurazinha de quem há tempos não sentia borboletas no estômago e aquela peculiar ansiedade. O amor foi construído aos poucos, depois de muitas idas e vindas e análise de afinidades. Ele gostava de MPB e eu também, e isso só podia ser um sinal. Passávamos as madrugadas cantando Frejat e Caetano, e só nos dávamos conta que tínhamos perdido a noção do tempo quando o sol já estava batendo na janela e estávamos roucos e com olheiras profundas.

Sempre fui fã de carteirinha do compromisso sério, daquelas que adoram ter alguém pra fazer massagem nos pés demoradamente, enquanto ouve entusiasmada os planos loucos do outro para o futuro – três filhos, casamento na praia, férias na Europa e montar uma banda tipo Beirut, com a qual nos apresentaríamos nas ruas charmosas de qualquer cidadezinha da França. O futuro, no caso, englobava também o aniversário de família do próximo fim-de-semana – vamos nos embriagar de vinho e chegar rindo de tudo, mentindo que nos conhecemos num luau na praia quando na verdade ele foi o cara que quebrou minha taça favorita numa festinha medíocre só pra ter a desculpa de pedir desculpas e se aproximar, despretensioso. Ele sempre me achou muito descolada e um luau é algo muito descolado - com certeza nos conhecemos lá – e nunca nenhum primo de terceiro grau pensaria diferente. Bendita taça quebrada.

Estava indo tudo tão bem, mas um dia ele acordou e decidiu que não me amava mais. Não me amava porque nunca me amou. Não me amava porque havia conhecido outra pessoa, que talvez fosse mais pé no chão e não fosse tão louca a ponto de ligar em plena madrugada de terça pra dizer "ei, comprei um pote enorme de sorvete e to indo ai com duas colheres gigantes. Abre a porta". Talvez ele quisesse um meio-termo que eu não podia oferecer, porque dentro de mim tudo é intensidade – e eu amo o que eu amo como se fosse a única coisa que eu tenho na vida inteira. Possivelmente ele encontrou alguém que o acalma e que vive um dia de cada vez, sem planos de um futuro incerto ou cobranças desnecessárias. Ou apenas enjoou do meu olhar perdido após acordar cedo num domingo.

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Doeu. Doeu tanto que achei que ia demorar uma vida inteira para colar todos os pedaços do meu coração que, assim como a minha taça de vinho, ele quebrou despretensiosamente. Pela primeira vez na vida odiei a Summer com todas as minhas forças, depois de assistir àquela barbárie cinematográfica intulada "500 dias com ela" pela terceira vez - mas agora com o cotovelo dolorido e odiando ter o mesmo corte de cabelo que ela. Eu amava a protagonista, até o dia em que me vi no lugar do miserável Tom. Ao fim do filme, me olhei no espelho, chorosa, e pensei: "você é uma grande idiota". Uma epifania milagrosa invadiu meu ser e me tirou daquela compaixão egoísta: "vai ser feliz, porque amanhã a Summer pode ser você". E cá pra nós: não há nada de errado nisso.

A gente ama quem a gente ama por inúmeros motivos; desde a covinha na bochecha à voz ridícula que o outro faz quando fala com o cachorro – e podemos deixar de amar conforme a vida nos apresenta outras cores e sabores mais agradáveis aos nossos sentidos. Vestir o rótulo de vítima pode ser confortável no início, mas depois não há quem aguente. Remoer uma história que só tem graça pra você é uma falta de amor-próprio sem tamanho. Quando a vida esfrega na nossa cara que o outro está feliz e saltitante mesmo sem você, é hora de cair na real. Deveríamos obrigatoriamente nos doar a quem se doa na mesma medida – e deixar ir embora quem não quer mais deitar no nosso peito e contar as peripécias do dia.

No fundo, todos queremos ser felizes. Hoje você teve o coração despedaçado, mas amanhã pode despedaçar o de alguém. Só realmente nos importamos quando nos pegamos frustrados com as nossas expectativas e raramente nos colocamos no lugar do outro, afinal, o que importa é a nossa própria felicidade. Ninguém decide ficar por pena - e nem deveria -, ainda mais quando a cabeça já voa por outros horizontes.

Hoje você está sofrendo, mas uma hora vai passar – e só vai passar se você entender que é hora de as cortinas se fecharem porque o espetáculo já durou tempo necessário para dar sentido à história. Se você não pode dar todo esse amor que está querendo explodir do seu peito, vá embora e transforme tudo isso em amor-próprio. E quando você estiver curada, feliz e se amando, pode ser que surja uma pessoa bacana e de olhos lindos, mas que não desperta aquele amor fugaz em você. Aí, quando se der conta que está bancando a Summer, vai entender, de uma vez por todas, que o mundo não é justo e que no fim das contas todo mundo é egoísta quando se trata de amor – inclusive você.


Jenifer Severo

Movida pelas minhas inquietações, que quando viram montanha-russa, transbordam em forma de escrita..
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