Fernanda Marcondes

Escrevo para que possamos - em um processo dialógico - tocarmos uns aos outros.

Copo meio cheio ou copo meio vazio?

Ser pessimista ou otimista não tem a ver com ser realista ou não. Refere-se aos valores embutidos aos fatos, ainda que estes sejam em si negativos. Copo meio cheio ou copo meio vazio? É só uma questão de escolha!


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Em meu último texto denominado “A Ditadura do Pensamento Positivo” disse o quando os sentimentos mal resolvidos podem causar problemas psíquicos quando reprimidos. O alerta é de Freud na obra “Cinco Lições da Psicanálise”. Quanto a “ditadura do pensamento positivo” quis me referir a certos best-sellers como o “The Secret” que afirmam que qualquer tipo de pensamento, sentimento ou fala negativas é algo catastrófico para a vida das pessoas. Ora, catastrófico mesmo são os seres humanos tentarem esvair o seu vazio, suas dores e obscuridades negando a existência deles, sem procurar resolver os seus problemas em uma perspectiva de superação.

O texto teve uma repercussão que eu não imaginava, e como o público é grande, o inevitável aconteceu: interpretações diferentes do que eu coloquei. Normal, afinal cada pessoa tem as suas subjetividades e outros inúmeros aspectos culturais e sociais que as formaram e as formam, influenciando na interpretação de textos e dos próprios fatos de suas vidas.

Afirmo, assim, que em momento algum quis fazer um “Ode”, ou seja, um culto ao pessimismo no texto. Ao contrário, sou uma otimista convicta! Gostaria mesmo de entender como os pessimistas conseguem viver. Ser pessimista ou otimista não tem a ver com ser realista ou não. Refere-se aos valores embutidos nos fatos, ainda que estes sejam negativos. Exemplificarei:

Em minha cidade natal, São José dos Campos, tem um parque chamado Vicentina Aranha. Esse parque oferece atividades artísticas e culturais, tem uma área verde maravilhosa e um espaço físico propício para a realização de corridas e caminhadas. Antigamente esse lugar não era um parque, e sim um sanatório. Recebia pessoas de inúmeras cidades para o tratamento de tuberculose, devido ao clima ameno da cidade. Nesse ínterim, muitos não resistiram a doença e morreram. Ao contar essa estória para algumas pessoas muitos dizem “credo, que horror, eu jamais iria nesse parque, deve ter uma energia negativa horrorosa”.

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E aí que reside a questão do “copo meio cheio ou copo meio vazio”. Posso olhar para a estória desse parque e acreditar que ele é amaldiçoado, porque muitas pessoas morreram lá, mesmo sabendo que mais de 90% dos enfermos se curaram. Ou posso olhar para a estória desse parque e dizer que quase todas as pessoas sobreviveram e que muitas delas devem a própria vida e a construção de sua família graças a existência desse sanatório, ou seja, posso acreditar que esse lugar significa vida, esperança, renovação e não morte. Ainda mais que atualmente esse lugar tornou-se um parque que oferece muita vida, graças a todas as atividades de lazer proporcionadas.

É claro que isso é apenas um pequeno exemplo. Nos fatos reais da nossa vida ser otimista ou pessimista não se refere apenas como enxergamos um certo parque, mas sim todos os fatos que nos acontecem. Uma pessoa pode ter uma frustração enorme com alguém querido e perder a fé na humanidade e nas suas relações pessoais; praguejar sobre as injustiças de sua vida e da existência de um suposto Deus; fechar o seu coração para outras oportunidades de relacionamento. Outra pessoa pode olhar o mesmo fato e agradecê-lo: pode encontrar nele uma oportunidade para encontrar pessoas melhores; valorizar as relações que já tem com outras pessoas e que antes não valorizava; amadurecer com aquele fato e perceber que as pessoas que mais amamos são as que mais nos decepcionam por depositarmos tantas expectativas nelas.

Paulo Freire, um dos maiores intelectuais brasileiro de todos os tempos, elaborou inúmeros livros sobre a educação. Ele nos retratou um triste quadro: temos uma “educação bancária”. Ou seja, uma educação em que o professor apenas deposita conhecimento no aluno. Este, portanto, não constrói o conhecimento, apenas armazena e reproduz inconscientemente. Formamos então a Escola da Tristeza em que o estudante não é instigado e nem incentivado a ter um olhar crítico sobre a realidade. Essa educação bancária reflete-se tempos depois no campo do trabalho. Nessa seara temos inúmeros sujeitos que gastam a maior parte do seu tempo de vida, realizando atividades sem ver sentido nenhum naquilo. Karl Marx, Adorno e outros grandes intelectuais olharam essa questão e o associaram ao nosso sistema capitalista.

A realidade é triste: somos seres alienados. Trabalho vem da palavra latina “tripalium”, um instrumento romano de três paus utilizado para tortura. E é esse valor que a maioria das pessoas colocam no trabalho atualmente: dor! E novamente entra em questão “o copo meio cheio ou copo meio vazio”. Posso olhar a realidade, por mais triste que ela pareça e me desesperançar e me desesperar; ou posso olhar essa mesma realidade e viver uma utopia, acreditando e lutando na transformação da sociedade em uma outra realidade, na qual os seres humanos sejam emancipados e felizes.

Enfim... copo meio cheio ou copo meio vazio? É você quem escolhe!


Fernanda Marcondes

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