Fernanda Marcondes

Escrevo para que possamos - em um processo dialógico - tocarmos uns aos outros.

Objetificação da existência humana

Depositamos a culpa da reprovação no processo seletivo na pessoa, e não nessa sociedade que é doente. Uma sociedade que ceifa vidas, que ceifa sonhos, que ceifa saúde e que enfileira seres humanos como meros objetos para serem classificados de forma incoerente.


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Que triste época que vivemos. Somos capazes de reduzir seres humanos a mero termo. Ali, em uma lista de resultado de concurso público, de vestibular, de residência médica, de simulado de cursinho, de resultado de estágio, vaga de emprego e de tantos outros variados processos seletivos. Reduzimos os seres humanos daquela mera lista em um simples objeto. Julgamos e jogamos pedras ao ignorar todos os complexos processos que formam pessoas, as variadas e distintas inteligências, a sorte e o acaso presente, as diferentes oportunidades oferecidas.

Mais do que isso, fortalecemos a falsa visão da meritocracia e do self-made man. Importamos a errônea ideia de que se uma pessoa quiser muito alguma coisa e se ela lutar bastante, alcançará apenas um resultado: vitória. Os excluídos da lista dos aprovados não passam de reles fracassados, incompetentes, preguiçosos ou burros.

Não percebemos o quanto somos injustos e maus ao depositar tanta responsabilidade naqueles que ousam apenas o seu lugar ao sol em uma sociedade enferma. Somos cruéis ao depositarmos a culpa da reprovação nas pessoas, e não na sociedade que em si já é desconfigurada, que não oferece oportunidade a todos, que é manca de igualdade, que discrimina a pluralidade de personalidades e capacidades.

Reafirmamos e retificamos uma sociedade individualista e instrumental. Uma sociedade que objetifica sujeitos ao querê-los enfileirá-los como produtos ao classificá-los em “melhores” ou “piores”. Uma sociedade que acha louvável que tenham pessoas que fiquem decorando e engolindo informações durante 13h, 14h, 15h por dia e que depois de um mês não saibam nem o 1/3 do que “estudaram”.

Essa sociedade objetifica a existência humana, incentiva o estudo inconsciente e a alienação em massa. Promovemos o produtivismo incoerente, que ceifa vidas, que ceifa sonhos, que ceifa saúde. Essa sociedade que nos é posta e que nos foi posta não é justa. Pois é injusto sermos julgados por não alcançarmos algum objetivo, quando a culpa está na concorrência desleal ou na subjetividade dos resultados.

E é por todos esses motivos que não podemos admitir que toda a nossa auto-estima, que toda nossa confiança, segurança ou saúde mental sejam depositados em terrenos tão frágeis. Toda nossa felicidade deve e vai além da aparição na “lista dos admitidos”. Talvez não seja tão fácil curar a enfermidade da nossa sociedade, mas que sejamos capazes – nem que seja aos poucos - de nos olharmos com mais Alteridade. Ou seja, de aceitarmos o Outro, o Distinto, o Plural em um contexto de emancipação e solidariedade.


Fernanda Marcondes

Escrevo para que possamos - em um processo dialógico - tocarmos uns aos outros..
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