Fernanda Marcondes

Escrevo para que possamos - em um processo dialógico - tocarmos uns aos outros.

O porquê das crises existenciais

Há momentos em que o nosso estilo de vida já não nos satisfaz mais. A vida perde o sentido. Vivenciamos, assim, os momentos de crise existencial. Mas se até mesmo as ciências e a humanidade passam por momentos paradigmáticos, por que nós também não devemos passar?


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Há momentos em que o nosso estilo de vida já não nos satisfaz mais. As coisas perdem a graça. Não há mais sentido em realizar certas atividades que antes eram prazerosas. Aquele relacionamento já não é mais engrandecedor, perdeu o sentido. O que era importante para a nossa identidade, já não é mais. Nem ao menos sabemos mais quem somos. Sentimos a necessidade de nos liberar de bagagens pesadas e inutilizáveis. A vida se torna vazia. Refazemos a velha pergunta filosófica de quem somos e para que tudo isso. Esses são os momentos de crise existencial. São momentos passageiros (como qualquer outro na vida), porém marcantes eternamente para o nosso ser. São angustiantes, porém importantes para o desenvolvimento até mesmo da nossa felicidade.

É normal vivenciar as crises existenciais. E vivenciaremos muitos momentos assim. São momentos paradigmáticos em nossa vida. E não só os seres humanos, mas as ciências e todo o desenvolvimento histórico-econômico-social da humanidade passam por construções e desconstruções de paradigmas.

Quando as ciências vivenciam paradigmas que não conseguem fornecer mais orientações, diretrizes ou norte para o trabalho científica, vive-se um momento de “crise existencial das ciências”. Os problemas deixam de ser resolvidos pelo paradigma vigente e vão surgindo outros com maior complexidade. A essa altura emergem no horizonte científico outros paradigmas para substituir o atual. Esse processo de surgimento e consolidação de novos paradigmas é o que o filósofo americano, Thomas Kuhn, denomina de “Revolução Científica”.

No campo do Direito, por exemplo, afirmam que o paradigma da Dogmática Jurídica é insuficiente para responder as novas demandas sociais desses tempos modernos. Nasce daí a necessidade de construir um outro paradigma que seja satisfatório para a satisfação dos novos sujeitos de direitos. A esse novo paradigma deu-se o nome de Pluralismo Jurídico.

Do mesmo modo, por exemplo, podemos entender que o Iluminismo, a Revolução Francesa, vulgo Revolução Burguesa, e as Revoluções Industriais foram momentos paradigmáticos para a história ocidental. A luta pela quebra de privilégio do clero e da nobreza, além do combate ao teocentrismo, marcaram a nova sociedade ocidental que estava por emergir. Nesse novo paradigma, a ciência – e não mais a religião - era a luz para a resolução de inúmeros problemas. Além disso, nesse novo contexto as relações de trabalho e econômicas seriam marcadas por outros pilares, os quais eram fincados na sociedade capitalista e por outro modo de produção.

Não só esses momentos foram paradigmáticos, mas também a crise de 1929; a primeira e a segunda guerra mundial; as ditaduras latino-americanas entre tantos outros que eu não saberia nem listar. Não foram momentos fáceis, isso é verdade. Em alguns deles como no campo de concentração nazista e nas prisões ditatoriais latino-americanas, vivenciamos momentos de terror, ódio, desesperança, desumanidade. Vivenciou-se a banalização do mal, categoria tão bem desenvolvida pela filósofa judia Hannah Arendt. Mas apesar de tudo, todos esses momentos foram paradigmáticos para a reflexão, reinvenção e para a construção da realidade brasileira atual, por exemplo.

Há momentos em que as ciências e a própria sociedade entram em colapso. Ficam em crise. E por que não nós também? Tudo isso talvez faça parte do pêndulo cíclico que ronda a vida. Inicia-se e fecha-se ciclos. Só que para um novo ciclo começar, algo o tem que fazer fechar. Eis, o motivo da necessidade da reinvenção de nós, das ciências e da humanidade: a imprescindibilidade de superação das crises para o início de uma nova fase. Espera-se que ao fim de fechamentos de ciclos, marcados muitas vezes pela crise, desespero e desesperança... que renasçam e nasçam novas flores!


Fernanda Marcondes

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