insatisfação reversa no verso

Visões de um mundo em ângulos casuais.

Bruna Ribeiro

Irremediável amante da história, consegue dispor a política como mais uma das prazerosas e bem elaboradas artes, que sempre será de aspiração para a música e o cinema.

Cinema alemão, “Unsere Mütter, unsere Väter” e uma nova perspectiva.

A minissérie "Unsere Mütter, Unserev Väter" (2013), feita para ser televisionada na emissora alemã ZDF, tomou proporções internacionais. O enredo traz a riqueza de informações e de ângulos diferentes sobre a campanha contra a Rússia no Terceiro Reich; muito bem elaborada e pensada a divergência de compor um grupo de amigos que acaba obtendo papéis e consequências diferentes entre si e sobre o que pensavam de si, na Segunda Guerra Mundial. Essa visão periférica nos comove para impulsionar e reciclar a ideia que atribuímos, diante a sociedade alemã, a esta fase triste da história mundial.



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Ah, o cinema! A sétima arte que nos prende, nos emociona, nos impulsiona, nos acrescenta, que guarda as nossas memórias e nos faz perceber as de outrem. Seu processo de transformações, como de toda arte, está inevitavelmente vinculado a sua sociedade, não apenas como um desabafo, mas a fim de iniciar a construção de preceitos legais, éticos e morais. Foram os irmãos Lumière que nos consagraram com a primeira projeção feita publicamente em tela, de cenas cotidianas e muito simples, mas que abriram portas para a criatividade pela magnitude de reproduzir o movimento repetidas vezes.

A princípio não havia roteiros, mas o sucesso ao público foi tão grande que em pouco tempo esta arte se espalhou pelo mundo; o cinema mudo ganhou vez com os seus enredos autoexplicativos repletos de críticas sociais, e aqui é facilmente lembrar Charles Chaplin. A transição do cinema mudo para a fala e para o enriquecimento dos roteiros e enredos foi um processo lento, mas assim que concretizado deu espaço para uma multiplicidade de cineastas e seus estilos diferentes; acompanhando todo o processo histórico, social e político, com uma triste fase de censura no Brasil, hoje gozamos da amplitude dessa arte e seus vários segmentos, que alcançam a todas as faixas etárias, classes econômicas, culturas, e outras inúmeras pluralidades que posso utilizar para caracterizar as diferenças continentais que têm contemplado de um intercambio cultural pela globalização e as tecnologias.

Este breve discurso cronológico serve apenas para situar o leitor, uma particularidade minha é que um filme não se torna interessante se ele não me emociona ou me faz questionar a vida em todos os sentidos, em sociedade ou individualmente. A imagem, o enredo, o envolvimento entre os personagens e a contextualização histórica são fatores importantes, e são estes além de informadores, também, formadores de opinião. Tenho sido muito feliz nas minhas descobertas cinematográficas europeias, fugindo do que é muito comercial, considero este cinema em geral muito detalhista e com técnicas bem diferentes, que enfoca na evolução do personagem e sua personalidade correlacionada aos acontecimentos, em questão falarei sobre o cinema alemão, que tem me impressionado muito, tratando um assunto histórico e muito delicado para a própria Alemanha por parâmetros diversificados.

“Unsere Mütter, unsere Väter”, traduzido para o português brasileiro “Nossas mães, nossos pais”, e lançado nos Estados Unidos como “Generation War”, é uma minissérie alemã dividida em três partes, cada uma com em média uma hora e meia de duração, retratando a história de cinco personagens de ideais e ascensões muito distintas, porém, que são amigos desde a infância e vivem sua juventude na Alemanha, em plena Segunda Guerra Mundial, em 1941, exatamente quando o Terceiro Reich inicia campanha contra Rússia. Destes cinco amigos, dois são irmãos, Wilhelm e Friedhelm Winter, que virão a servir seu governo na militância como soldados nazistas; Charlotte, outra cidadã alemã que servirá como enfermeira para a tropa de front; Greta também considerada cidadã alemã para a época, que mais tarde se tornará uma cantora muito famosa e por fim, Viktor, um judeu filho de um alfaiate. Já se torna bem claro o conflito que haverá, simplesmente ao citar os personagens centrais, a minissérie traz experiências individuais que os levam a diferentes rumos que o esperado, mas que não cabe citar aqui. Alguns pontos serão elencados pelo seu diferencial, que fazem dessa obra uma forma genial de mostrar algo tão conhecido por outra perspectiva.

Friedhelm – Irmão novato, inteligente e com princípios humanitários: O primeiro ponto em questão é sobre um dos personagens centrais, Friedhelm já desde o início apresenta um pensamento diferente do que sua pátria vive, totalmente contra os ideais do Führer, destaca logo no começo que “A guerra só trará o pior de todos nós”.

Alfaiate, pai de Viktor, e a perda da identidade: Judeu e residente por muitos anos na Alemanha, pelo medo e pela falta de reconhecimento em sociedade a princípio, a personagem cria uma repulsa pela própria cultura em busca da alteridade naquela sociedade.

A admiração pelo Führer por uma maioria considerável: Uma das passagens do primeiro capítulo dessa minissérie expõe uma cena onde um dos soldados agradece a figura de Adolf Hitler, pois com sua nova forma de governo a economia está aquecida, o que fez com que o cidadão alemão percebesse a princípio, a guerra como algo ganho e válido, também pelo carisma de seu governante.

A cronologia dos fatos e a evolução da guerra: Nos três episódios o tempo decorre de forma diferente, e a mudança que ocorre em todos os personagens é um reflexo do cenário de guerra que também se transforma, já no segundo capítulo pode-se notar a dúvida sobre a validade daquela guerra, todos vão por um processo de perdas sendo tomados pelo cansaço.

O medo duplicado: O medo e a raiva por aqueles que eram perseguidos sempre foi muito nítido historicamente, porém, o filme mostrou outra face, o medo dos alemães natos. As formas manipuladoras de poder de Adolf Hitler colocavam o cidadão alemão contra as outras pessoas que não se encaixavam em seus padrões, na lógica de que estes certeiramente se colocariam de fronte contra os alemães, a atitude era equiparada a uma forma de legítima defesa.

O contexto social e a interferência no cotidiano: Aqui retrato a cena de uma mãe que se vira para a filha, e no objetivo de fazer pará-la de chorar, cita “Para com isso ou os Russos virão”. A imposição do medo pela contextualização vivida.

A figura de Adolf Hitler como o Estado: De todos os filmes nazistas que vi, em nenhum deles a imagem de Hitler era deixada de lado. Nesta minissérie houve a explanação do poder de Adolf, demonstrada pelos coronéis e comandantes, que eram a extensão do seu poder, mas ainda assim é muito curiosa essa perspectiva já que a sua imagem aparece apenas uma vez, e em um panfleto.

A vida desses amigos que antes era marcada por sonhos e planejamentos foi definitivamente roubada por esta fase da história, pois os destina para meios muito diferentes e alguns finais trágicos. Houve muitos elogios em todas as esferas internacionais, mas o jornal Kölner Stadt-Anzeiger classificou Generation War uma sucessão de clichês sem profundidade; não posso afirmar se essa crítica foi rígida demais ou não no meio alemão, tenho conhecimento de que os temas cinematográficos na Alemanha rondam muito sobre a Segunda Guerra Mundial e o Nazismo, porém, pela minha visão formulada e simplificada pelo estudo da história, esta minissérie gerou uma interpretação completamente nova sobre o ângulo das consequências da guerra e a sociedade que viveu e participou dela. Por ser um marco da história muito lembrado e condenado, uma camada de repulsão fica envolto a sensibilidade diante a sociedade, não só a perseguida, mas a que foi submetida a perseguir.

A minissérie é muito rica em imagem, sonoridade, e roteiro; eu literalmente estive presa na frente da tela passando boas horas me enriquecendo de conhecimento histórico e político e desfrutando de um enredo muito bem elaborado, que capaz de entreter o espectador por toda trama. Este texto análise quase fica como um convite à inserção do cinema informador, que retoma as nossas memórias, e como já dito, as memória de outrem, de um ângulo completamente alheio ao senso comum.

Bruna Ribeiro

Irremediável amante da história, consegue dispor a política como mais uma das prazerosas e bem elaboradas artes, que sempre será de aspiração para a música e o cinema. .
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