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A jukebox não pode parar...

Igor Lunei

Estudante de Jornalismo, escritor, redator, dependente de música, amante de histórias em quadrinhos e desenhos animados.

marina & the diamonds e seu electra heart

O álbum Electra Heart, da cantora galesa Marina and The Diamonds, é uma imersão na vida de uma personagem que retrata os diferentes arquétipos femininos americanos.


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Implantar um conceito em um álbum e fazer com que suas músicas contem uma história é algo que, quando bem feito, traz bons frutos para seus autores e deliciosas canções para nós, ouvintes.

Nessa linha foram produzidos ótimos trabalhos, como o Bedtime Stories (1994) da Madonna. Nele, a intérprete segue uma linha sonora voltada ao R&B moderno e à Urban Music, fazendo-o algo extremamente único dentro de sua discografia. Também dessa fonte bebeu Christina Aguilera ao lançar seu Back To Basics (2006), cujo o nome autoexplicativo remetia a vontade da cantora de retroceder aos sons feitos dos anos 20 aos 40, mas ainda com um toque de modernidade ao lado do Soul, Jazz e Funk.

Atualmente, quem mais me chamou atenção ao empregar tal método foi a musicista galesa Marina & The Diamonds. Em 2012, ano em que resolvi abdicar de preconceitos e me aprofundar em diferentes estilos musicais, descobri o “Electra Heart”. Segundo CD da jovem, tal trabalho audiovisual focado no electro-pop conseguiu traçar-se em minha cabeça como o limite entre o indie e o mainstream. Porém, mais tarde descobri que o buraco era bem mais em baixo...

marina1.jpegCapa do álbum "Electra Heart"

Através da gravação, Marina Diamandis resolveu contar a sua visão sobre como é a sociedade americana. Ela presenciou diferentes exemplos femininos dentro dos EUA ao divulgar um trabalho anterior, podendo entender o que era de fato o sonho americano, seja para os próprios ianques ou mesmo para os imigrantes que tentavam vida naquele lugar.

Tendo em vista isso, criou a personagem que dá nome ao disco. Sendo fictícia, Marina separou-a em quatro arquétipos presentes nas mulheres estadunidenses. Cada um na estória do álbum retrata um momento da vida de Electra Heart.

Em inúmeros locais da vasta rede que é a internet vocês podem encontrar diferentes adaptações para os arquétipos e uma variedade impressionante de músicas, mesmo do álbum anterior – The Family Jewels, para cada um deles. Então, resolvi trazer a minha visão dessa trama satírica formada pela Diamandis. Se usarmos a imaginação e nos conectarmos ao tom de tragédia grega, podemos ver que o final disso tudo tem diferentes lados.

A propósito, nada teria funcionado se as canções presentes fossem ruins. E já que não são, vamos lá...

Teen Idle - A adolescente popular e problemática

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Tendo como exemplo garotas do ensino médio que possuem desde cedo tudo o que querem, o arquétipo Teen Idle retrata o inicio da vida em sociedade da personagem. A líder de torcida loira e maquiada que todos os caras querem ter em seus braços, aquela que todas as outras meninas querem ser amigas – ou pelo menos estar do lado para desfrutar de sua popularidade. Não necessariamente virgem, mas imaculada aos olhos dos pais. Ainda assim, não está satisfeita. Há a necessidade de ser rebelde, de ser vista como revolucionaria e superior. Sonhadora.

Para esses adjetivos, as canções desse momento são as faixas “Bubblegum Bitch” e “Teen Idle”. A primeira, um Rock sobre uma garota conquistadora, mas inocente. Ela não faz o mal por ser má, sim por ser o certo de acordo com sua educação. Já a próxima, uma balada sombria sobre a descoberta de sua personalidade. Electra começa a entender seus valores, que aquilo é uma casca vazia de maquiagem e fama. Mas não vê grandes problemas nisso...

Primadonna – A obsessão pela fama

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Um pouco mais velha, a personagem entende que precisa sustentar aquela armadura após a escola. Ela necessita se tornar rica, famosa e desejada por todos. Para isso, fará o que for possível.

As músicas daqui são “Primadonna”, um pop eletrônico extremamente radiofônico, com um refrão grudento sobre o que ela assume ser. Há também “The State of Dreaming”, inspirada na estrela Marilyn Monroe e no fato de as pessoas apenas lembrarem-se das coisas boas de sua carreira, cujo arranjo da banda com os sintetizadores deram-na um clima quase teatral para acompanhar a letra onde a garota desiste totalmente de sua “bondade”, partindo daí para o mais cruel dos arquétipos.

Homewrecker – A destruidora sem sentimentos

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Ao notar que a vida real não é exatamente como ela havia sonhado, Electra Heart se despe de sua falsa moral e assume-se como a destruidora de lares. Essa é a aceitação de que tudo o que aprendeu na vida, na verdade, era como ser ruim, como passar por cima dos outros para conseguir o que quer.

Na música de mesmo nome do arquétipo ela faz sua apresentação. O arranjo eletrônico ao lado dos teclados e a soma dos vocais falados aos agudos do refrão ligam-se à grandes referências, como a banda Depeche Mode e mesmo os Pet Shop Boys. Em “How To Be a Heartbreaker”, há o ensinamento por parte da personagem de como ser uma vadia interessante aos homens. As regras são colocadas de modo que não haja envolvimento emocional por parte das mulheres. Também é outra faixa com apelo popular, de fácil e gostosa aceitação.

Em “Power and Control”, um dance um pouco mais sombrio, Electra demonstra como possuir o poder e o controle na relação. “E.V.O.L.” mostra também como ser uma boa conquistadora, mas exigindo que se distancie do amor, pois o mesmo é um sentimento ruim e destrutivo. “Radioactive”, canção com influências de eurodance e house que tem um dos meus videoclipes favoritos, é a retratação dela aplicando todas essas regras. Há o mantimento de distância aos sentimentos mais fortes com a metáfora do coração radioativo, sendo a própria Homewrecker.

Mas será que ela estava feliz assim? Absolutamente não!

SU-Barbie-A – Uma vida de arrependimentos

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O arquétipo da dona de casa suburbana. Aqui há a representação de uma mulher que aparenta ser perfeita e feliz para seus vizinhos e família, mas por dentro da casca já tão gasta de Electra Heart está uma pessoa amargurada, que vive apenas em função de aparências, não para si. Infelicidade e descontentamento encobertos pela imagem de uma senhora invejável.

Em “Living Dead” isso fica bem explícito na letra deprimida sobre um arranjo feliz e empolgante. Já na assustadora Power balada “Staring Role” há sua abertura dos sentimentos: “It almost feels like a joke to play out the part / When you are not the starring role in someone else's heart / You know I'd rather walk alone, than play a supporting role / If I can't get the starring role.”

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Na também balada “Lies”, a mais bonita do álbum, a personagem entrega-se ao fato de que não pode viver sem amor e que já não mais deseja mentiras. “Hypocrates” retorna a linha roqueira que iniciou o CD, criticando tudo isso a que foi cometida e o fato de ter se deixado levar por tais influências negativas.

Mas o grande final está em “Valley of The Dolls”. Envolta num clima soturno, marcial, quase soando como um mantra hipnótico, essa canção mostra o resultado da vida vivida através dos arquétipos: a morte. Não física, mas o óbito do que antes era colocado como certo por ela. Tudo que se iniciou em Teen Idle e agora tinha resultado em SU-Barbie-A não tinha mais significado. Ela entende que a alma não funciona dessa forma e que o amor, agora destruído, é sim algo importante e bom.

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É o fim?

Só que cheguei à conclusão de que não acaba por ai. Na estranha “Fear and Loathing”, última faixa do álbum em versão normal e primeiro videoclipe dos 11 lançados, podemos perceber que Electra faz uma reflexão de tudo que viveu. Nisso, fica perceptível a metáfora do recomeço empregada pela Marina Diamandis ao contar toda essa estória.

O que explodiu minha cabeça foi o já citado fato de esse ter sido o primeiro vídeo lançado sobre a trajetória da personagem, visto que o último, intitulado como “Eletra Heart”, mostra os diferentes momentos dos arquétipos, dando fim a essa saga que estava sendo trazida à memória dela.

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Para essa pós-vida temos mais três faixas. A deliciosa “Sex Yeah”, onde por cima de uma batida de rock eletrônico a lá anos oitenta a personagem narra o quanto ser forçada a uma imagem sexual não lhe rendeu um bom futuro; O confuso dubstep na imersível “Lonely Hearts Club”; e “Buy The Stars”. Nessa doce baladinha ao piano, quase com uma inocência adolescente, temos o recomeço da personagem com o amor.

Álbum versão econômica completo

Marina & The Diamonds - Sex Yeah

Coletânea de videoclipes


Igor Lunei

Estudante de Jornalismo, escritor, redator, dependente de música, amante de histórias em quadrinhos e desenhos animados..
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