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trilha sonora para suas ideas

Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente.

Gene Simmons e Abraxas: Stonerização do Rock 'N' Roll

Loucura. Mais um termo que nos ouvidos errados pode carregar significado estereotipado. Às vezes, as pessoas que mudam o mundo apenas o fazem por acreditarem que podem cumprir tal tarefa, loucura na verdade não é defeito, é apenas um apelido carinhoso para as mentes com pensamento fora da curva, uma palavra levemente embriagada para os cérebros únicos, diferentes.


Nos últimos dias, a intriga se fez presente no meio das notícias "TV Fama" do Rock, e não foi de uma maneira construtiva. O reverendo Gene Simmons, sim, aquele baixista que cuspia sangue e que afirma ter dormido com todo o estado do Acre, cravou, talvez, uma das maiores baboseiras que ouvi em minha vida, algo que um músico tão importante como ele jamais poderia ter dito, mesmo se estivesse aposentado.

O Americano afirmou que o Rock está morto, e em uma entrevista para a revista Esquire soltou a pérola: "A morte do Rock não aconteceu por causas naturais, o Rock não morreu de velhice. Ele foi assasinado". E ainda teve mais, segundo o maquiado membro do Kiss, a culpa não é de uma possível falta de talento ou derivados, e sim do compartilhamento de arquivos, porque jovens (como este que vos escreve) não dão valor à música, pelo menos não a ponto de pagar por ela.

Ouvi isso e comecei a pensar: A coisa rendeu tanto que cá estou escrevendo, e vou tentar ser o mais sucinto possível porque o tema é tão profundo que não seria exagero dizer que poderia virar tese filosófica.

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O Kiss pertence à década de 70, logo, notamos que a maior tecnologia que existia nessa período não nos libertava do formato físico de LP's. Naqueles tempos, a informação não era veloz como hoje, o conteúdo era disseminado de forma lenta pelas revistas, e blá blá blá, whiskas sachê. Hoje, temos velocidade e informação num patamar que é até impossível de ser acompanhado, e assim sendo, os meios tiveram que se adequar perante tal fato. Mas, qual seria o motivo para fazer com que a música se convertesse à Igreja mundial de vosso senhor download? Compartilhamento de arquivos.

Em suma, são novos tempos, e com eles mudanças são feitas para ajustar certos fatores. É óbvio que Gene tem um ponto à seu favor, de fato o compartilhamento de arquivos faz o músico perder dinheiro, mas a visibilidade que ele pode ter é muito maior, o problema não é a venda, se a música é boa ela tem chances de vender, e não é de hoje que sabemos que as bandas não fazem dinheiro com discos, e sim com shows.

Respeito sua colocação e digo mais, faço parte de uma MINÚSCULA parcela da população que ainda compra produtos físicos, fico indignado com isso, mas o preço também não ajuda, especialmente em nosso país. Porém o que não posso admitir é ouvir que todo um gênero está morto, quando este vive um de seus melhores momentos, mas não como Rock per say, e sim como Stoner, um apelido carinhoso, e que espero que seja compreendido por meio deste texto se fazendo convergente via uma analogia devidamente Brasileira.

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O Stoner é um primo underground do Heavy Metal. Na essência o peso se mantém em ambos, mas a atmosfera e a pegada mais lenta, com peso e groove distorcidos, (sem dizer macabro e psicodélico), que acabaram mudando as coisas. E abriram espaço para ramificações de mais um sub gênero, (que para fazer jus ao novo gás que forneceu à todo um movimento em escala mundial), é um fenômeno novo, recente, que apareceu no início dos anos noventa paradoxalmente quando o Grunge atingiu seu pico e o Rock estava morto... Esse Rock é quase um walking dead, vivem tentando matar o infeliz.

Com bandas como Kyuss, Orange Goblin, Fu Manchu, Mondo Generator e mais um caminhão de pioneiros, o gênero hoje sofre de um big bang criativo sem prescedentes. Esse grupos citados estão na vanguarda do estilo até hoje, só o Kyuss que se dissipou mas ainda representa o estilo com um dos ex membros da banda, Josh Homme e seu elo de criatividade, o Queens Of The Stone Age.

O Queens prova que esse som tem público, e que vende, logo, nega o que Gene Simmons falou, por que a qualidade além de tudo está implícita. O fato dos discos não saírem não quer dizer que o público não vai atrás, quem gosta de Rock mais especificamente faz QUESTÃO de comprar material, e enquanto ele soltou esse monte de inverdades, bandas seguem brotando por aí, e em todos os países, só que a disseminação hoje é via internet, SÃO NOVOS TEMPOS.

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Tem Stoner na Noruega com Lonely Kamel. Alemanha ao som de Kadavar e Samsara Blues Experiment. Austrália e o ensurdecedor surf sonoro do Don Fernando. França e a loucura ácida do Aqua Nébula Oscilator e o Mars Red Sky. Finlândia com The Vintage Caravan. Rússia e o som viajante do Grand Astoria e The Re-Stoned. Estados Unidos com Wo Fat e Radio Moscow. Suécia com Graveyard, Greenleaf, Truckfighters... Ufa! Poderia preencher todo esse texto só citando bandas, posso assegurar aos senhores, tem pelo menos UM grande grupo em cada páis, tem som até na Índia com os dissípulos de Ghandi do Bevar Sea, e isso tem público, MUITO público.

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Peguem o Rock In Rio por exemplo, é necessário uma cidade para suportar o festival, mas assuma meu caro, o mesmo se apoia em uma imagem do Rock que já tem mais de 30 anos e que nem é formada pela mesma cena. E o pior, ano após ano só denigre todo um império sonoro que levou décadas para se perpetuar no tempo, chamando bandas realmente patéticas para subir ao palco. Fora que o ingresso é uma fábula, e para ir até o Rio, (ou mesmo você que é carioca e já se encontra fixado no recinto), sabe que é necessário mais verba para bancar comida e etc.

São 61 atrações e tem pessoas que saem de casa para ver quatro, não acredita? O que dizer do Lollapalooza? 27 atrações e 3 e meia prestam. E esses festivais possuem o monopolio da indústria de produtoras de show, quem entra nesse negócio é louco, mas ama música e entende muito sobre o assunto, e se tratando de Stoner foi pioneiro, falo sobre os irmãos Toscano e o resultado de anos ouvindo Rock 'N' Roll, a produtora Abraxas, e os eventos psicodélicos que tanto lutam para atingir a grade headbanger que tanto reprime a cena independente-nacional.

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A Abraxas, nome levemente sugestivo e relacionado ao segundo disco do Santana (de mesmo nome lançado em 1970), salienta a existência dessa mercado e é sem exagero nenhum, pioneira. Igual seus ídolos do Stoner, por que ninguém dentro do nosso país apoiou essa causa, nenhum promoter teve a coragem de bancar eventos diferentes do usual classic Rock, mostrando não só falta de coragem, mas também de entendimento, por que o Stoner também tem a veia clássica no DNA.

Todo fã conservador esbraveja que é necessário renovação, mas a programação é essencial, ela precisa estimular essa fermentação sonora, e isso que a produtora visa, e linkou tudo com a cena Underground de Stoner Brasuca, e fechou com as tours de festivais pelo Brasil. É um trabalho duro e que é feito de forma até anônima em certos momentos, os únicos apoiadores de todo esse movimento são os Blogs, a nova mídia musical.

Caras que sem visar grana pregam pela reforma agrária musical, espaço para o Stoner, é difícil. Está difícil, mas nesse um ano de vida muita coisa aconteceu, o apoio à cena nacional foi absoluto, o que não falta é banda Brasileira na line up:

1) Fuzzly
2) Son Of A Witch
3) Saturndust
4) Monster Coyote
5) Necro

Citei apenas cinco exemplos para não me alongar muito no contexto geral, note que tudo joga contra a dupla de irmãos. No Brasil temos poucas casas (quase nenhuma), com estrutura para receber esses eventos, e poucas que são abertas a tais ideias. Felipe e Rodrigo Toscano representam a luta de tudo que o Rock sempre foi, Underground.

E nesse imponente primeiro ano de vida o anonimato se faz cada vez menos presente, fora esse rio de bandas da casa os caras já foram responsáveis pela vinda dos Franceses do Mars Red Sky, dos Austriacos do Sahara Surfers, e agora pretendem apelar com os Americanos do Radio Moscow em outubro. Eles sabem que algumas bandas não são tão conhecidas, mas agora estabelecem elos na cena e tudo está se conectando naturalmente.

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Quem diria que uma ideia miraculosa igual a essa sairia da terra do pancadão, os cariocas curtem um som que, parafraseando Tim Maia: ''é do bom'', desenho industrial para a arte dos posters e advocacia para a logística do negócio. Nos anos 2000 os discos vendem via ''WWW'', a coisa rola em LP mas em menor proporção, o caminho é Bandcamp. Pobre Gene Simmons nunca irá tocar para esses caras, viva a globalização sonora, parabéns Abraxas, a primeira celebração, primeira de muitas que virão, feliz aniversário!


Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente..
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