insight sonoro

trilha sonora para suas ideas

Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente.

Janis Joplin & o Blues Crumbiano

Existe uma chama que se mantém quando se escreve sobre alguma coisa. Aquele sentimento de defender uma causa tal qual um torcedor fanático venera seu clube de coração, pode parecer pouco, mas são exatamente estas pequenas ações que costumam deixar alguns nomes em eterna evidência. E hoje o faço uma vez mais, em prol da música já perpetuada no cerne tempo de Janis Joplin.


Sempre admirei grandes cantoras, Billie Holiday, Esperanza Spalding (um nome mais atual), Etta James... Meu único problema foi que comecei com a melhor delas, e depois que acabei de escutar sua discografia me senti órfão de seu talento. Foi então que, completamente desnorteado, tentei vários nomes, porém em vão... Não digo que não me acrescentaram nada, mas pra mim, ninguém vai superar o vozeirão chapado, Blueseiro e explosivo de Janis Joplin.

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Essa mulher literalmente ''estragou'' meu prazer em ouvir grandes cantoras com um microfone em mãos... Foram noites em claro perdidas por uma mulher que eu nem conheci, mas que depois do play me apaixonei... Foi algo muito rápido, assim como sua vida e carreira, intenso, forte... Melancólico em alguns momentos.

Seu talento e sua voz potente eram fortes demais pra ela, suas letras tocaram pessoas do mundo todo de uma maneira poucas vezes vista, era algo muito pessoal, que Janis desde seu início promissor, sentia necessidade em compartilhar, parecia que assim seu martírio era mais suportável. Dentro do palco ela era feliz, estava em casa, nunca vi alguém expressar tanta felicidade, e curtir tanto aquela troca de energia com a platéia como a americana... nenhuma voz atingiu este estágio.

A voz de Janis entra em você e fica lá, quem conhece o trabalho dela sabe disso, talvez mais que qualquer outro artista, não dá pra NÃO escutar Janis, é intenso demais. Tão intenso que nem ela suportava, por isso as bebidas e drogas. Vendo filmes daquele tempo e lendo relatos sobre ela, nomes como o do já falecido Bill Graham por exemplo declaram com toda a certeza que nunca viram nada igual Joplin antes, e vão mais além, afirmam que ela estava perdida, no palco se sentia completa, mas fora dele completamente sozinha... Deve ser complicado tocar pra 50.000 pessoas e depois voltar para sua casa vazia e sozinha...

Não tinha dinheiro no mundo que mudasse isso, Porches com pintura psicodélica, festas... Nada parecia dar satisfação a Janis, e mesmo após conquistar o mundo com seu Blues ela ainda não parecia satisfeita, e por trás daquele sorriso alegre existiam muitas marcas do abuso de drogas e álcool, que encurtaram uma carreira que poderia ter sido ainda maior. 4 de outubro de 1970 foi o dia, o dia que o mundo amanheceu mais triste, essa era a vida sem a voz de Janis, vazia... Incompleta.

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Mesmo com um mundo menos vibrante sempre escuto seu som sem pensar na tristeza de sua morte, vejo sua obra como algo revigorante para as pessoas, uma coisa única, de valor inestimável... Me lembro até hoje da indescritível sensação que ouvir seu segundo trabalho, o clássico ''Cheap Thrills'' lançado em 1968 (que está fazendo 46 anos de vida!), gravado junto com a cozinha lisérgica do Big Brother And The Holding Company.

Line Up:
John Simon (piano)
Peter Albin (baixo/guitarra)
Janis Joplin (vocal)
Sam Andrew (baixo/vocal/guitarra)
James Gurley (baixo/guitarra)
David Getz (bateria/piano)

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Track List:
''Combination Of The Two''
''I Need A Man To Love''
''Summertime''
''Piece Of My Heart''
''Turtle Blues''
''Oh, Sweet Mary''
''Ball And Chain''

É meio ''forte'' dizer isso, mas pra este que vos escreve o Big Brother não passava de uma banda de apoio para Janis. Escutei os trabalhos dos caras depois de sua saida e atestei um fato, sem ela eles perdiam a magia, a banda era muito boa, mas é indiscutível que com ela no palco a coisa era mais fluída, natural, sua voz dava o tom da Jam.

Na época da gravação deste discos existia um problema não só no Big Brother mas em todas as bandas da região de São Francisco. Os grupos eram ótimas, mas dentro do estúdio não conseguiam passar ao ouvinte aquele clima de Jam, aquelas performances chapadas que bandas como Jefferson Airplane e Grateful Dead faziam como poucos, e depois do debut auto intitulado eles aprenderam esta lição, viram que dentro do estúdio a parada não fluia naturalmente, foi por isso que gravaram ''Cheap Thrills'' ao vivo, e aí sim explodiram como se deve, com um som cavernoso.

Sinta a vibração de ''Combination Of The Two''. As distorções, o clima relaxado dos músicos... A voz de Janis... É assim que tudo deveria soar meus amigos, mas chegar aí não era pra qualquer um não (!) Repare no requinte de ''I Need A Man To Love''. É aquela performance que nunca seria captada dentro de uma sala, esse som precisava de ar puro, o Groove precisava condensar na luz do sol, sinta o balanço dos vocais, verás que nenhum fone de estúdio nunca chegará a este patamar de Blues.

Sujo na medida certa, com riffs certeiros, groove latente, música pulsante com momentos dos mais variados, sinta o feeling de ''Summertime''. Essa mulher cantava demais para estar presa a uma banda... São momentos como ''Piece Of My Heart'' que deixam claríssimo que seria impossível prender Janis, uma carreira solo era inevitável, por melhor que ''Turtle Blues'' fosse (e ainda é) todos sabiam que era questão de tempo, mesmo com uma Jam deste nível!

Este disco é um marco histórico, marca o fim de algo primoroso, e o começo de algo que marcaria história, veja a cozinha frenética de ''Oh, Sweet Mary''. Um aperitivo do que seria a saideira, uma das músicas mais lindas que já escutei, a performance visceral de ''Ball And Chain'', um retrato fiel do que foi Janis Joplin. Ela subia no palco e não saia até todos se convencerem que ela tinha feito seu melhor, gritado como nunca, do jeito que só ela sabia, arrepiando a multidão, colocando as vísceras pra fora... Dando uma surra no Blues, que disco, e que ilustração do mestre Robert Crumb!


Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente..
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