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trilha sonora para suas ideas

Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente.

Camel: Um Camelo Progressivo

Camel é o nome de uma marca de cigarro, mas bom mesmo é o Camel, banda com mesmo nome, que é bom que se diga não prejudicava ninguém, não fazia fumaça, só fazia música. Um retrato britânico do melhor do Rock Progressivo setentista.


O Rock no geral ficou conhecido por ter em cada grande banda (de cada segmento), um chefe, alguém que segurasse a barra quando a banda toda estivesse em frangalhos, um membro sóbrio, quando todos já eram Junkies, alguém que não quisesse se vender para a indústria e que queria apenas viver de música, mantendo sua banda, trabalhando duro, não importando como.

Normalmente quando muitas pessoas lêem esta descrição o nome que mais costumo escutar como resposta é Tony Iommi. Não vou nem discutir isso, de fato, Tony é o responsável (total responsável) pelo fato do Black Sabbath ainda existir, e as várias reincarnações da banda, após a saída de Ozzy, são as provas disso.

Só que na história do Rock nós tivemos muitos lutadores neste quesito, e o motivo de Iommi ser o mais famoso (e consequentemente o mais citado), é o fato de sua banda ser referência mundial pra tudo que diz respeito ao Heavy Metal, porém, é bom que se diga, tivemos músicos que lutaram tanto quando o guitarrista (se bobear até mais neste caso) e que mesmo assim ficaram esquecidos com o passar do tempo. Um sacrilégio com uma banda que para mim sempre foi uma das melhores dentro do Rock Progressivo, falo do fantástico Camel e de seu porta voz, o batalhador e talentosíssimo Andrew Latimer.

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Se o Camel ainda é lembrado (mesmo que de forma pífia pela crítica) e se mantém ativo até hoje, apesar de todos os problemas envolvendo o nome do grupo, morte de músicos, e substituição dos mesmos, (fora inúmeras renovações e tentativas de novos contratos) Andrew é o maior responsável, tanto por manter a banda, tanto por manter o legado de seu grupo para as próximas gerações.

Pra variar tudo começou no fim da década de setenta, quando as gravadores procuram um som mais Pop, e o Camel, assim como outras bandas de Progressivo na época, se viram em apuros. Os temas instrumentais, as viagens com sons climatizados... Nada mais importava, as gravadoras queriam material vendável, e isso não era o que o Camel fazia, não de livre e espontânea pressão.

Com o passar dos anos a banda foi vendendo cada vez menos, teve problemas com seu nome, e contratos eram quebrados sucessivamente, fora que os músicos também não estavam lá muito bem financeiramente falando. Mas hoje tudo isso é passado, o que ficou foi o espírito de luta e de amor não só por sua banda, mas pela música, que foi o que fez com que Andrew mantivesse o Camel em jogo.

Sempre com discos surpreendentes (mesmo em um passado recente) mantendo sua banda na mídia, remasterizando o cardápio do grupo, fazendo Tours de reunião, vencendo os hiatos, tocando Rock Progressivo, tudo pelo Rock Progressivo, e é justamente por toda essa luta e os serviços prestados que hoje passearemos por mais uma pérola dos britânicos, trata-se do brilhante ''Mirage'', o segundo disco dos caras lançado em 1970 e quatro, e que neste ano completou 40 anos de vida.

Line Up:
Andrew Latimer (guitarra/flauta/vocal)
Peter Bardens (órgão/piano/vocal)
Doug Ferguson (baixo)
Andy Ward (bateria/percussão)

front.jpg

Track List:
''Freefall''
''Supertwister''
''Nimrodel/The Procession/The White Rider''
''Earthrise''
''Lady Fantasy''

Esse disco é considerado a obra prima do grupo, mas sempre fico em dúvida quando falo sobre isso, por que para este que vos escreve, o Camel setentista é absolutamente fantástico, mas de fato, ''Mirage'' entraria no Hall dos melhores (com facilidade) e é claro, dos meus favoritos.

O primeiro disco dos britânicos causou um grande impacto em meus ouvidos, aliás me lembro que escutei o primeiro (auto intitulado de 1973) e este aqui no mesmo dia durante horas, mas foi em ''Mirage'' que fui realmente fisgado.

Foi neste disco que compreendi o significado de bom gosto, e que sacramentei minha opinião de que nenhum Rock Progressivo consegue soar tão intenso quanto o som que esses caras destilavam nessa época. Não era intenso de pesado, era intenso de intenso, coeso, é possível escutar todos os instrumentos, o vocal, e sempre de forma constante, mesmo nas improvisações, onde a maioria das bandas dá uma segurada no som, o Camel seguia martelando, e essa característica única é completamente perceptível logo na abertura do disco com ''Freefall''.

A forma quase que espiritual como as melodias eram desencadeadas, as surpresas no caminho, a maneira suave como tudo era conduzido, a bateria sempre no tempo certo, a guitarra, o órgão, a infalível guitarra de Andrew, o baixo pulsante... era e continua sendo fantástico, aliás o tempo só ajuda, quanto mais se escuta mais se apaixona, quanto mais se escuta mais detalhes se percebe, vejam o requinte de ''Nimrodel/The Procession/The White Rider'', o feeling, toda a pregressividade viajando a vosso favor, o vocal é só um detalhe, o instrumental é que dá o tom, até a hora que você simplesmente se perde.

E não volta tão cedo, é tudo tão pleno que simplesmente vai lhe bastar durante décadas, quem conhece o Camel sempre tem uma carta na manga, seja com o órgão sinuoso de ''Earthrise'' ou com um dos temas mais clássicos e míticos de toda a história do Rock Progressivo. Sim, ela mesmo, ''Lady Fantasy'', uma das melhores, mais completas e menos lembradas faixas do gênero, um tema que sintetiza tudo que o Rock Progressivo pode ser: bonito, fino, bem tocado e grandioso, este é o Camel, a banda que mesmo quando some sempre está por ai.


Guilherme Espir

A música nunca está alta o suficiente, tampouco satisfeita, ela aparece algumas vezes aqui, no Insight sonoro, e cai todo dia no Macrocefalia Musical (macrocefaliamusical.blogspot.com.br) mas não... ela nunca está alta o suficiente..
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