insólito

Pequenos grandes eventos

Larissa Caramel

Esta que vos escreve não possui compromisso algum com a verdade alheia.

Insólito em livro à venda em:
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Insólito está de casa nova: https://medium.com/series/ins%C3%B3lito-6c7ce0db7e56

Memórias ao mar

Um conto sobre um sonho de outras vidas.


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Era um belo final de tarde. O céu carregava distantes nuvens de tempestade e dali via o mar agitado, como fera irritadiça, quebrando ferozmente nas pedras. Apesar do frio, sentia-se confortável. O vento amortecia o rosto e as mãos, mas o incômodo era pequena distração. O silêncio e o todo ao seu redor eram de uma beleza singular, e sabendo que por muitas eras não conseguiria recuperar aquele estado permanente de totalidade, temia por enxergar tão longe. Um ruído chamou sua atenção para o casebre afastado da costa. Algum animal derrubara as panelas enferrujadas e velhas que guardavam ervas colhidas pela manhã. Logo precisaria fechar as janelas e portas e alimentar o fogo. Mais uma noite gelada estava a caminho, podia ouvir. Seus farrapos não a protegeriam do frio, precisaria também de mais lenha. Levantando-se, aproveitou para olhar por uma última vez para o furioso mar. Nele, a velha enxergava o tempo. E no tempo, via todo caminho tortuoso que ainda percorreria. Seria capaz de voltar? De quantas vidas precisaria?

Seu corpo, castigado pela idade, resistia a todo movimento necessário. As costas, travadas após a procura por madeira seca, descansavam desajeitadamente em uma almofada desbotada, usada para amortecer o encosto da cadeira de estimação. Pernas e pés descansavam junto ao fogo. As mãos calejadas massageavam o braço dormente, cansado por carregar tinas de água e panelas, limpar e temperar coelhos, varrer, lavar, manter cuidadosamente a propriedade de um cômodo. Vivia sozinha, acompanhada pelo mar e pela mata costeira. No desenrolar de sua vida, não houve espaço para marido e filhos. Poderia procurar por ajuda, mãos jovens e descansadas para o trabalho, mas aqueles eram dias de pânico e já conhecia sua iminente condenação. Permaneceu protegida do frio, a assistir ao fogo que consumia e transformava galhos mortos em vida e calor.

O preguiçoso Sol de outono ainda competia com a noite quando escutou o agito incomum dos pássaros. Antes mesmo de abrir os olhos cansados, pôde ouvir o vento do leste espalhando as folhas recolhidas no dia anterior. Rapidamente tomou consciência de seu corpo dolorido e percebeu que adormecera em sua cadeira. Levantou-se vagarosamente e abriu as janelas, deixando a brisa gelada limpar o ar carregado de fuligem de seus pulmões. Investindo a embaçada vista em direção ao horizonte, avistou homens em seus cavalos. Com pouca pressa, juntou algumas mudas de roupa, raspou o mofo das cascas endurecidas dos restos de pão, encheu de uma água barrenta o cantil feito de estômago de carneiro e trancou cuidadosamente janelas e portas de sua então moradia. Olhou por uma última vez para o mar, partindo sem arrependimentos. No dedo mínimo da calejada mão direita, levava seu mais precioso bem. Um anel de prata, escurecido pelo tempo, adornado com discreta pedra azul, de tom límpido como o céu de inverno e ao mesmo tempo escuro como o mar ao anoitecer. Ao caminhar, evitando a estrada, em direção ao vilarejo, apertava nervosamente o anel, um dia largo o suficiente para o dedão, agora pequeno e incômodo para seus enrugados e endurecidos dedos.

Colocava vida em suas velhas pernas, andando penosamente em meio às árvores. Chegou ao vilarejo já noite, apesar das poucas horas. O inverno estava cada vez mais próximo, e os dias cada vez mais curtos. Já avistava os esperados grandes portões de madeira, e apesar das dores que escalavam sua espinha a cada movimento das pernas, correu em meio à confusão. Homens em seus cavalos escoltavam a multidão que insultava e agredia o grupo de mulheres sendo conduzidas ao pátio da pequena e única igreja do local. Algumas, ainda esperançosas moças, desvencilhavam-se das mãos furiosas e corriam em sua inútil fuga para logo serem alcançadas e surradas.

Bateu à porta apressadamente e cessou somente ao ver o rosto que habitava suas lembranças. Já não era novo como o jovem rapaz que um dia surgiu pela porta de seu casebre, e seus olhos esnobes, que traziam antes pedidos e promessas, nada lhe reservavam além da frieza que condenaria ambos ao dever de várias vidas. Nenhuma palavra foi dita e a porta então secamente batida, deixando a velha a sentir o cheiro da madeira úmida e o amargor da traição. A situação, que logo atraiu olhares em meio à multidão, revelara prontamente a última fugitiva, que com o que lhe restava de forças, pôs-se a correr como lhe permitia o chão irregular. Incapaz de aumentar a velocidade, sua perna fatigada finalmente cedeu e nada pôde fazer além de levar o corpo ao chão. Caída no sujo barro, assistiu à aproximação das tochas refletidas nas poças e só pôde invejar as mulheres que já naquele mesmo barro jaziam mortas, livres da barbárie daquela era.

Recuperou a consciência ao sentir o Sol aquecer seu rosto. Era arrastada por dois homens, incapaz de sustentar o peso nas pernas doloridas. Ganhara um simples vestido branco, último agrado religioso, compartilhado pelas demais mulheres que eram também empurradas em direção à alta e irregular pilha de madeira. Homens encapuzados triunfantemente posicionaram cada uma lado a lado, ombros unidos e mãos atadas às costas. A multidão, em êxtase, esperava impacientemente pelo espetáculo que livraria suas casas da doença e do medo. Enquanto ainda lhe era agradável o calor que aquecia os pés torturados, encontrou o rosto impassível de seu traidor, que ao lento inflamar das chamas, afastava-se desgostosamente da fumaça a fim de evitar que suas finas roupas cheirassem mal. Ao aumentar da dor, sua longa jornada nada mais parecia que simples sopro. Era sua vez de abandonar aquela vida, mas jamais aceitaria partir como simples vítima. Em meio a insuportável sofrimento, apertou as mãos das demais mulheres e as proibiu de gritar. Para incômodo do público, que ansiava pelo fim simbólico de todo o sofrimento que assolara o vilarejo, a velha pôs-se a gargalhar, orgulhoso deboche logo acompanhado pelas gargalhadas de enlouquecida dor de suas então irmãs. Durante o processo de sufocamento, ouviu a desesperadora falta de ar calar a cada uma delas, e não pôde ignorar o cheiro - inesquecível por muitas vidas ainda por vir - da fumaça de seus corpos.

Despertou do que lhe parecia um sono demasiadamente pesado. Pensava ter adormecido novamente em sua cadeira, sentia braços e pernas dormentes, mas ao abrir os olhos viu-se deitada em um deserto de pedra que se estendia até o horizonte. Forçou-se a levantar, mas o corpo não obedecia. Sua pele, completamente coberta por cinzas e fuligem, mal sentia o próprio toque. Esperou por um anoitecer que jamais veio. Era sempre dia, mas não enxergava o Sol, pois o céu permanecia constantemente encoberto. Aos poucos e penosamente recuperou o controle de suas pernas. Quando estável, pôs-se a caminhar, na esperança de encontrar algo ou alguém. Entendia que aquele era o fim de sua existência física e que estava ainda ligada às dores e sofrimentos de sua recente encarnação. Nada encontrou e nada mudou por um longo período de tempo. Sentia o passar dos anos e o peso das eras, relembrou cada uma de suas muitas vidas, espírito velho que era, e sofreu por cada antigo arrependimento. Pediu por iluminação em todas as línguas, através de todas as religiões, e até mesmo desistiu de suas crenças. Então finalmente imóvel, a definhar, bloqueou qualquer pensamento ou emoção, ansiando amargamente por qualquer fim.

Após tanto tempo imóvel, conectada mais intimamente à pedra do que à vida, inesperadamente sentiu um leve toque em seu ombro. Sem abrir os olhos, encolhendo-se rapidamente em posição fetal, ignorou a tranquila voz lhe dizendo que já era hora. O ódio há muito adormecido inundou o que restava de seu espírito. Deliberadamente, ignorando todo tipo de súplica, fora abandonada naquela situação e, por conveniência, vinha então naquele momento uma voz lhe dizer o que fazer. Ignorou muitas vezes mais, vertendo lágrimas de orgulho ferido, a voz que sempre voltava a lhe oferecer conclusão, até finalmente abrir os olhos e encontrar-se sozinha. Duvidou então que o ocorrido fosse algo além do fruto de seu próprio delírio, e sentindo a orgulhosa e conflitante raiva borbulhar dentro do que sequer poderia mais chamar de corpo, viu a mínima esperança tão fortemente guardada desaparecer, para então esperar ansiosamente pela volta de quem recusou, temendo por outra eternidade condenada a relembrar todas as mulheres que encarnou.

Por quanto tempo esperou era incapaz de calcular. Perdera gerações e entendia que o mundo já nada se parecia com o lugar pelo qual um dia caminhara. Temia que mais tempo à espera a tornasse incapaz de manter a sanidade ao retornar, e quando ouviu novamente a voz, imediatamente reagiu e pôde então ver o homem que lhe estendia a mão, mas não pôde distinguir seu rosto, pois como coroa sobre sua cabeça, preso entre os chifres de cervo, carregava o Sol, e arrastava o anoitecer como manto em suas costas. Já é hora, disse o homem-Sol. Lembrou-se por uma última vez do impetuoso mar, do qual se despedira há tantos séculos, e de seu pequeno casebre, que ainda tinha como lar, para então levantar-se, olhando para o Sol.

Seria capaz de voltar? De quantas vidas precisaria?


Larissa Caramel

Esta que vos escreve não possui compromisso algum com a verdade alheia. Insólito em livro à venda em: https://www.chiadoeditora.com/livraria/insolito Insólito está de casa nova: https://medium.com/series/ins%C3%B3lito-6c7ce0db7e56.
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