introverso

Encontre as palavras e deixe sair (Dream Theater)

Helena Silva

Como reflexões na página, o mundo é o que você criou.

Reflexões acerca de Into the wild

Um filme que te faz pensar, sentir e questionar. Capaz de cativar o espectador. Dirigido por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer que por sua vez foi baseado em uma história real sobre Christopher McCandless. Com ótima trilha sonora na voz de Eddie Vedder. Há muito o que dizer sobre Into the wild ou Na natureza selvagem...


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Não sabia por onde começar falando a respeito desse filme embora eu tenha tanto a dizer... logo resolvi começar sendo honesta sobre isso. “Into the wild” ou em sua versão brasileira “Na natureza Selvagem” foi um filme que me fez pensar bastante do início ao fim, acredito que tenha proporcionado reflexão a muitas outras pessoas que também o assistiram, mas eu senti coisas tão profundas e que me atingiram com tanta força que resolvi que não poderia guardar essas coisas em meu interior e deixar de partilhar com outros.

Gostaria de dizer, aliás, que pensei em rever o filme ou partes dele antes de começar a digitar as palavras que agora leem, pelo simples motivo de querer ser invadida por aqueles mesmos pensamentos e sentimentos outra vez, já que há certo tempo desde que assisti e poderia ter me esquecido de aspectos importantes que me chamaram à atenção ao ter assistido. Fui rever o filme e algo que antes eu não havia me atentado tanto me chamou a atenção... a citação de Byron logo no início:

“Existe prazer nas matas densas. Existe êxtase na costa deserta. Existe convivência sem que haja intromissão no mar profundo e música em seu ruído. Ao homem não amo pouco, porém muito a natureza.”

(Lord Byron)

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Sendo honesta mais uma vez, digo que amo literatura, de verdade, simplesmente uma das minhas muitas paixões é ler. Porém devo dizer que por mais que o ultra-romantismo me encante absurdamente e embora eu tenha grande interesse por Byron, AINDA não li nenhuma de suas obras e pouco sei a seu respeito. De qualquer maneira, me senti intrigada por essa frase, uma vez que dei mais atenção a ela. Alguns acreditam que Byron fala sobre seu amor à natureza pura e simplesmente, não eu. Devo deixar claro aqui minha dúvida a respeito da tradução de “society” por “convivência”, gostaria de deixar então meu convite aos leitores que souberem a justificativa e puderem acrescentar alguma informação sobre isso de maneira a me ajudar em minha compreensão, dessa forma estaremos até mesmo estabelecendo uma relação de troca.

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A respeito da interpretação que faço a partir da tradução em português, o que noto é um tipo de manifestação sobre admiração e o deleite existente na solidão assim como o distanciamento de outras pessoas, a aproximação da natureza e o encontro de si mesmo. Algo importante a destacar sobre o “encontro de si mesmo” e ao trecho “Ao homem não amo pouco, porém amo a natureza” é que parece haver uma relação entre se afastar de outros homens, outras pessoas de forma a não se deixar influenciar por elas numa busca pela sua verdadeira essência além da preocupação em ressaltar que o afastamento não significa desamor ou indiferença, porém se trata de uma experiência que está intrinsecamente ligada a quem busca encontrar-se e não ao outro ou aos outros.

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Também poderia fazer uma comparação Homem X Natureza me baseando ainda no que é dito há respeito de intromissões. Lembrem-se que os seres humanos também pertencem a natureza mas não convivem exatamente em um estado que pode ser chamado de “natural” sem influências externas, apenas exercendo aquilo que é a partir de si mesmo, pelo contrário, o ser humano desde seu primeiro dia de vida depende de outro e conforme desenvolve-se vai entrando em contato com outros seres humanos e com outros mundos e tudo isso o afeta de alguma maneira, atua sobre ele, exerce por vezes pressão, cobranças de forma que o homem é não somente ele mas também o outro.

No caso, retomando a comparação proposta para a interpretação da frase, o último verso poderia significar que há um certo interesse em desprender-se dos outros por mais que lhes tenha amor, pois o amor maior reside na natureza e no que é natural, onde talvez haja possibilidade para encontrar-se a si mesmo e descobrir quem verdadeiramente se é. Também acredito que em se tratando da palavra “homem” pode-se dizer que é algo a se tornar, talvez exija um certo distanciamento do que seria considerado “natural” até que se alcance o status de “homem”, portanto o último verso pode também significar o desejo de desprender-se do que é considerado ser “homem” para descobrir-se um novo ser “natural”.

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Discorrendo, afinal sobre o filme minha interpretação a respeito da citação de Byron parece estar em harmonia com o enredo de Into the wild que é baseado numa história real, é também uma adaptação fílmica do livro de mesmo nome. Deixo claro que se fazem necessárias revelações sobre a obra cinematográfica para que eu siga com a visão que tive a respeito do filme. Trata-se de um jovem chamado Christopher Mc Candless que está, cansado de quem se tornou e de toda sua história de vida, o meio social em que nasceu, seu núcleo familiar e suas escolhas, portanto ele toma a decisão de abandonar tudo isso e “nascer de novo”, ele próprio passa a nomear-se Alex Supertramp, funda então um novo modo de vida através de uma experiência viajando sozinho pela América do Norte rumo ao Alasca.

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A história se mostra fantástica logo de cara podendo provocar a reflexão sobre o que achamos a respeito de nós mesmos e a vida que levamos. Será que estamos vivendo da maneira que queríamos? Será que as escolhas que fizemos tem a ver com o que somos? Tem a ver com o que de fato amamos? Ou tem elas a ver com motivos outros que nada tem a ver com nós mesmos? Há escolhas que fazemos por nos identificarmos com elas, por termos características que se adéquam a essa escolha, por podermos exercer nossas características de acordo com o que escolhemos, por podermos continuar a sermos como somos, pois muitas vezes se tratam de escolhas que exigem aquilo que existe em nós.

Por outro lado há escolhas que fazemos por causa de outras pessoas, escolhas que tem a ver com o que é mais bem visto, que tem a ver com o que dá mais dinheiro, que tem a ver com o que agrada mais, que tem a ver com o que te dizem para fazer, que tem a ver com o que acreditam ser melhor para você, mas essas são escolhas que não partiram exatamente de você e você foi empurrado por elas, distanciando-se de quem é e tornando-se algo que nunca seria, sendo inclusive dominado por essas escolhas, talvez futuramente se perceba infeliz devido essas escolhas.

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Porém, retomando o filme, McCandless estava insatisfeito com absolutamente tudo o que se tornara e tudo que o cercara e a escolha dele foi desprender-se completamente de sua antiga vida, deixá-la esquecida em um canto do passado. Não era uma coisinha ou outra que o incomodava mas sua história de vida inteira, digamos que pequenos acontecimentos que foram se somando até deixá-lo esgotado e completamente infeliz, levando-o então a procurar tornar tudo diferente.

Em certo momento quando o personagem fala sobre “um falso ser espiritual”, “não ser envenenado pela civilização” e “correr solto pela natureza” me lembra um pouco Rousseau e sua ideia de “bom selvagem”. É importante ressaltar que Chris McCandless estava machucado, tinha problemas em seu núcleo familiar, principalmente no relacionamento com seus pais que viviam um verdadeiro inferno desde que Chris era pequeno mas gostavam de manter as aparências, preocupavam-se em demasia com o julgamento alheio a ponto de manter uma relação em que não havia amor, apenas brigas, intrigas e desilusões.

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Chris também achava o excesso de materialismo que o cercava desnecessário e apesar de ao menos aparentemente ter perdido fé nas pessoas, em sua jornada até o Alasca encontrou muitas pessoas que o auxiliaram. Apesar de se afastar da sociedade e de valores que a formam, manteve certas convenções sociais , exerceu tarefas que exerceria estando em sociedade e dependeu de pessoas até que alcançasse seu objetivo.

McCandless ao menos inicialmente mantinha hábitos higiênicos como banhar-se e raspar a barba, calçava sapatos, usava cinto, trocava suas peças de roupa, conseguiu empregos temporários de maneira a obter dinheiro por seu próprio esforço visando ainda o destino planejado e apesar de não manter contato frequente com as pessoas as quais encontrou pelo caminho, desenvolveu uma relação com as mesmas: o casal hippie do qual tinha se afastado mas voltou a visitá-los, Wayne que lhe ajudou a arrumar um emprego e Ronad Franz, um velho marinheiro cristão solitário que apegou-se tanto a McCandless a ponto de lhe propor a formação de uma nova família, a qual McCandless rejeitou, afinal sua prioridade ainda era chegar ao Alasca.

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Ele conseguiu cumprir o objetivo tão almejado, chegou sim ao Alasca. Porém as coisas se complicaram, Chris foi definhando, sua hora chegava, findava-se então sua vida. Todas as situações que enfrentou, todas as pessoas que conheceu, todas as novas lições que aprendeu, toda a experiência a qual se submeteu desde que decidiu despedir-se de sua antiga vida e escrever sua própria história não foi em vão, como ocorre com toda experiência, algo lhe foi ensinado, algo que os gregos já acreditavam “A felicidade só é real quando compartilhada”. Chris morreu em um ônibus velho que habitava e chamava de “ônibus mágico”, duas semanas depois de sua morte seu corpo foi descoberto por caçadores e sua grande história foi descoberta tornando-se um livro e posteriormente uma adaptação fílmica que deu origem a essa publicação que acabaram de ler.


Helena Silva

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