introverso

Encontre as palavras e deixe sair (Dream Theater)

Helena Silva

Como reflexões na página, o mundo é o que você criou.

Categorização de amizades

O “amigo de todas as horas” parece estar perdendo espaço para o “amigo de etiqueta”.


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Conforme passaram os anos e o mundo foi sofrendo transformações, a qualidade das nossas relações foi sendo afetada. Algo que não pude deixar de observar e que no entanto é passível de má interpretação (por isso procurarei me esforçar para tocar no ponto que quero) é o que vem acontecendo no campo da amizade. Há uma certa categorização de amizades, relações fundadas unicamente a partir de um interesse ou necessidade. Ao amigo costuma ser atribuída uma função específica que é aquela que costuma cumprir nessa relação “amistosa”. O “amigo de etiqueta” ganha espaço em detrimento ao “amigo de todas as horas”, os rótulos chegaram ao campo da amizade e as pessoas tratam umas as outras como coisas.

Um engano comum que acontece quando eu abordo esse assunto, é imaginarem que digo que amigo é aquele que faz TUDO por você o tempo inteiro e está com você o tempo inteiro fisicamente no sentido extremo, como se houvesse quase uma obrigação doentia para que te acompanhasse constantemente . Parece que entendem que amigo é aquele que não tem vida própria e é tão vazio de si que vive em função do outro, para o outro, se projetando o tempo inteiro no outro. Essa é uma visão equivocada. Amigo não se trata de alguém que está inteiramente e exclusivamente disponível para você ou “às ordens”, até porque ainda seria uma relação utilitarista e escravista.

Porém, tenho escutado e visto expressões que me soavam estranhas por rotular certos amigos, atribuindo a eles uma especificidade : “amigo de copo”, “amigo de balada”, “amigo de cinema”, etc... Ou seja, o “amigo” supre aquela única necessidade e logo depois pode ser descartado, muitas vezes não compartilhando de mais nenhum momento na vida do outro porque a amizade dele se resume somente a atender aquela necessidade única. Logo, caso o “amigo” deixe aquele hábito fundador da relação amistosa de lado, seja qual for o seu motivo, a “amizade” acaba, porque não faz mais sentido que continue uma vez que não se pode mais suprir a necessidade a qual era destinado, é o que ocorre em muitos casos. Quem sabe não se possa arranjar um outro alguém que ocupe aquele lugar específico antes ocupado pelo “amigo” que agora não tem mais utilidade?

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Como “amigo de todas as horas” entendo alguém com quem sempre se pode contar, por mais que a pessoa não esteja presente em todos os momentos de sua vida, por mais que a pessoa esteja distante, e ela sabe que o mesmo se aplica a você porque existe reciprocidade na relação. Acredito que a amizade envolve respeito, compreensão, empatia e reciprocidade antes de qualquer coisa além de envolver o partilhar de momentos (não precisa ser o tempo inteiro como um grude, pois é o que muitos pensam).

O amigo pode estar presente até espiritualmente, dada a importância que ele tem na sua vida. Podem haver diferenças e desentendimentos algumas vezes entre os amigos (em todas as relações há disso) mas o que os une são as coisas que tem em comum e o respeito que conseguem manter um pelo outro. A consideração e valor que cada pessoa ocupa para outra se sobrepõe as adversidades e pequenas intrigas, de maneira que romper essa relação não é fácil, ela pode durar por muitos anos ou a vida inteira. Falar em amizade parece um pouco utópico dada a raridade de encontrar situações como as descritas, mas amizade não está ligada a efemeridade, utilitarismo e nem superficialidades, é algo mais sólido que hoje parece banal.

Para encerrar, uma música sobre amizade.


Helena Silva

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