introverso

Encontre as palavras e deixe sair (Dream Theater)

Helena Silva

Como reflexões na página, o mundo é o que você criou.

A respeito da fachada (aparência) e o apego que temos a ela

A primeira impressão não deve ser a que fica, mas aquela que se confirma ou que se desconstrói.


nao julgue pela aparencia.jpg Estamos sujeitos ao erro na interpretação que fazemos das outras pessoas

Estive pensando recentemente (na verdade, nem tão recentemente assim, mas só agora pude falar sobre isso) a respeito da fachada, dentro do seu significado popular, aparência. Se tentássemos compreender o termo a partir da Arquitetura ou Sociologia por exemplo, poderia ter um outro sentido. Enfim, pensei em como muitas vezes nos apegamos a uma fachada, a determinada impressão que temos de alguém, de maneira que conservamos essa impressão, congelamos e a mantemos estática. Apegamos-nos a ela de tal forma que acabamos por nos impedir de conhecer verdadeiramente alguém ou simplesmente de conhecer um aspecto a mais de alguém.

Poderíamos simplesmente a partir de determinada impressão, conhecendo ou buscando conhecer alguém, confirmarmos o que achávamos a respeito desse alguém ou percebermos que estávamos enganados, mas muitas vezes nem chegamos na parte que diz respeito a conhecer ou buscar conhecer alguém, pois a simples impressão tida sobre o outro faz com que optemos por não conhecê-lo. Muitas vezes não significa que não temos interesse ou vontade de conhecer o outro, mas podemos ter medo, dúvida, insegurança ou sentimentos similares que faz com que nos mantenhamos distantes.

No entanto, eu gostaria de focar precisamente no caso em que nos apegamos a uma fachada de tal modo, um tanto preconceituoso, posso chamar assim, que acabamos por subestimar pessoas que poderiam revelar-se incríveis caso a conhecêssemos a partir de um outro aspecto que não aquele que primeiramente enxergamos. Esse que primeiramente enxergamos, aliás , muitas vezes qualquer um pode enxergar, pode se tratar de algo que se destaque em uma pessoa, muitas vezes impacte e atinja a todos com maior força de forma que se tem uma opinião generalizada a respeito daquela pessoa, o foco passa a ser um único aspecto, muitas vezes pejorativo.

Gostaria de focar em algumas figuras conhecidas e mostrar como o apego a fachada pode ser cruel muitas vezes e/ou muito estúpido também.

lizzie.jpg Lizzie Velasques

Essa é Lizzie Velasquez, muitas informações a seu respeito tem circulado por aí. Em sua vida, desde a infância, Lizzie lidou com comentários horríveis sobre sua aparência, insultos, piadas bestas e uma intensa ridicularização focada somente no seu aspecto exterior, num primeiro momento chocante talvez, bastante diferente das diversas aparências possíveis de se encontrar por aí. Ela sofre de uma doença muito rara, na qual não consegue ganhar peso, além de ser cega do olho direito.

O ápice da crueldade, estupidez e ridicularização a qual a submeteram, foi a publicação de um vídeo em que a chamavam de “mulher mais feia do mundo”. Imediatamente jorrou uma série de comentários de uma natureza desprezível e repugnante, um deles dizia algo como “Lizzie, faça um favor à humanidade, aponta uma arma para a sua cabeça e se mata.

Eu sinto um horror e asco extremamente forte quando penso nessa situação. Como podemos ser tão brutais e irracionais a partir de uma aparência que não nos agrada? A partir de uma aparência que vai contra qualquer padrão de beleza estabelecido? Será que alguém que faz um comentário desses tem consciência do que diz, para quem diz e que implicações isso pode ter? Será que ao menos se importa? Para e pensa nessas coisas? Se coloca no lugar dos outros?

Lizzie se mostrou mais forte que todos os ataques que sofreu, que todas as pessoas que se voltaram contra ela, chegou a considerar a possibilidade de suicídio mas felizmente recuou para mostrar todo o seu brilhantismo e enorme exemplo de vida como ser humano. Ela estabeleceu metas para sua vida e correu atrás de todas elas e foi alcançando algumas delas. Publicou livros, se formou na faculdade e ainda é palestrante motivacional.

Uma pessoa que foi tão rechaçada pelos outros, dotada de tamanha força e capacidade, virou o jogo totalmente. Hoje, um monte de pessoas aprendem com Lizzie Velasques, se inspiram com ela, admiram sua figura e sentem necessidade de escutá-la, buscam motivação em suas palavras e história de vida. Acredito que muitos ao olharem para ela a tenham julgado e a julgam incapaz, ela nos mostra o contrário.

O vídeo acima mostra Vince Low, um artista malaio extremamente habilidoso e talentoso que produz seus desenhos a partir de rabiscos como é possível perceber a partir da maneira que retrata Elvis mostrada no vídeo. Ele é disléxico. Teve muitas dificuldades na escola e sofreu discriminação inclusive pela própria família, aparentemente ele era um “imprestável”. Vince descobriu sua capacidade artística e a colocou em ação. Ele criou uma série chamada “Dislexia didn’t stop them” (dislexia não os deteve) para uma campanha contra o preconceito da associação de dislexia da Malásia. Na série, ele ilustra algumas personalidades portadoras do mesmo transtorno que ele, mostrando que ser disléxico não implica em incompetência.

Vince-Low-Einstein.jpg No desenho de Vince diz: "Dislexia não limitou Einstein"

Gostaria de encerrar com Susan Boyle e sua primeira audiência no Britain's Got Talent. Provavelmente você já deve ter visto o vídeo exibido a seguir, eu também já vi várias vezes e é sempre algo bom de se fazer. Perceber todas as expectativas sendo quebradas e o preconceito caindo por terra, perceber a surpresa tanto da plateia quanto dos jurados e imaginar a surpresa do telespectador em casa ao assistir tudo isso pela primeira vez. Observem bem o vídeo, mesmo que já tenham visto isso, vejam mais uma vez. Observem como Susan se apresenta de maneira simples, como fala de maneira honesta a seu respeito, o bom humor presente o tempo inteiro mesmo diante de olhares que para outros poderiam ser constrangedores e intimidadores.

Observem, o deboche da plateia, alguns risos ao fundo, um assobio irônico, alguém fazendo cara de nojo, os jurados com cara de “Quem essa mulher pensa que é?” e “O que ela está fazendo aqui?” e “Temos aqui mais uma candidata iludida com a finalidade única de ser piada e encher nosso saco”, observem instantes antes da Susan começar a cantar , alguém com uma expressão apreensiva, outro alguém se preparando para rir tapando a boca, observem bem.

O que Susan simplesmente faz diante de tudo isso é não se abalar ou não se mostrar abalada, ela faz um ok para liberarem a música que será interpretada por ela enquanto um pequeno suspense toma conta do local e no momento em que abre sua boca e solta sua voz de maneira firme, sem aparente nervosismo, mostra o quanto ela tinha consciência do talento que abrigava em si e que era capaz de mostrar isso a todos que duvidavam dela e a subestimavam, lembrando que como ela diz, se tratava de um sonho que tinha, se apresentar diante de uma grande plateia. Ela pareceu disposta a não deixar que destruíssem ou passassem por cima desse seu sonho e conseguiu realizá-lo da melhor e mais bonita forma possível.

Inclusive parecia satisfeita com aquele momento, esqueceu-se do julgamento dos jurados e da possibilidade de ser classificada. Ter cantado diante de todos lhe parecia o bastante, pois era o que de fato queria e tinha conseguido. Após terminar sua apresentação ela sai de cabeça erguida e os jurados tem que chamá-la de volta. Susan foi ovacionada. Empolgou a plateia. Os jurados assumiram seu preconceito inicial e foram capazes de reconhecer o erro deles e o talento dela. Por todos esses motivos e qualquer outro que se possa acrescentar, finalizo com o vídeo abaixo que também traz uma mensagem importante ao término sobre abrirmos mãos de nossos preconceitos.


Helena Silva

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