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Alta cultura, arte e pensamento crítico

Homero Nunes

Amava as artes e a filosofia. Coisas que compensam. Viveu com poucos recursos e muitas ideias. Pensamentos soltos e devaneios prolixos. Jornalista, historiador e sociólogo. Professor. Morreu de fome. Você tem fome de quê?

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Cidadão Welles: o imperdoável Orson e a reinvenção do cinema

Orson Welles nunca foi perdoado por reinventar o cinema e alterar o padrão. Depois dele não foi fácil ser cineasta. É certo que ele mostrou o caminho e abriu cabeças e possibilidades, mas também reinventou a linguagem cinematográfica. Sua gramática ainda causa vertigens no acetato, sem dó nem perdão, cidadão.


orson_welles_smoke.jpg Orson Welles *06 de maio de 1915 +10 de outubro de 1985...

Hollywood nunca perdoou Orson Welles por ter filmado Cidadão Kane aos 26 anos. Era apenas um garoto que um dia pregou um trote na rádio com “A Guerra dos Mundos”. Quem ele pensava que era para reinventar o cinema apenas com um filme? Já fazia quase meio século desde a primeira exibição da locomotiva dos Lumière em Paris. Da projeção de 1895 àquela de 1941, o cinema ia muito bem, obrigado. Já havia superado os filmes mudos, começava a dar cores às imagens, projetava estrelas nas telas e nos suspiros na plateia. Mas tinha que ser o Orson mesmo! Orson Welles, o jovem que reinventou o cinema aos 26 anos.

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Depois de Georges Meliès, Chaplin, Fritz Lang, Eisenstein e o diabo, ninguém achava que o cinema podia ser mais do que já era. Nem precisava! O cinema já era a sétima arte, o auge da técnica, o movimento, “o ópio do povo” (com o perdão de Deus por destroná-lo da sentença de Marx). Foi preciso um destemido rapaz, sem juízo, sem noção do perigo, para realizar o filme listado por 99,99% dos entendidos de cinema e por 101% dos cineastas. “Cidadão Kane”: roteiro, direção, atuação e ousadia de Orson Welles.

O filme foi inovador desde os primeiros planos, ângulos, enquadramentos e movimentos. Tomadas de baixo para cima, de lado, de cima para baixo – Plongée, para os íntimos. Sucessão de planos e enquadramentos dentro de enquadramentos. Montagem não linear e edição polifônica. Linguagem cinematográfica em tudo que permitia a gramática das câmeras. Cidadão Kane reinventava a própria linguagem do cinema. Além disso, o próprio Orson Welles fazia o papel principal, do jovem ao velho Kane. Fazia tudo. Era demais para a cabeça dos pobres mortais medíocres. A inveja não permitia o perdão, cidadão.

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De genial também, depois veio “A Marca da Maldade”, com aquele plano sequência de abertura fazendo escola de novo. Câmera vai, câmera vem, segue a cena, passa em cima do prédio, foca no guarda e por aí vai. Era 1958 e o povo ainda não tinha assimilado o Citizen Kane por completo. Outro grande filme para causar inveja e enquadrar o plano. Entre os dois mais geniais de Welles, uma dúzia mais do bom cinema, sem dó nem perdão.

Antes disso, o menino encapetado, experimentando no teatro, muito jovem se destacou entre ideias e exageros geniais. Produziu peças com atores negros no auge da segregação americana, profanou Shakespeare em atualizações mundanas, rompeu palcos. Quando fez Cidadão Kane levando experimentações do teatro para o cinema, foi considerado o traidor dos puristas. O povo das coxias também não conseguiu perdoá-lo por isso.

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Causou mesmo estragos imperdoáveis quando cobriu ao vivo uma invasão alienígena em tom jornalístico no rádio. Pânico geral, engarrafamento nas estradas, congestionamento das linhas telefônicas, saques a supermercados, caos urbano e desespero total. Era uma adaptação do clássico de ficção científica de H.G. Wells, “A Guerra dos Mundos”. O mesmo que virou filme ruim com o Tom Cruise e a Dakota Fanning em 2005. A adaptação anterior é de 1953, a reportagem de Orson Welles de 1938.

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Odiado por décadas, sem o perdão dos que caíram no trote alienígena, ganhou notoriedade pelo feito. Até hoje é estudado como exemplo de teorias da comunicação nas faculdades hipodérmicas e nos modelos de Lasswell. Um caso Roswell de araque. Acabou contratado do estúdio com privilégios de criador sem amarras, carta branca para fazer o filme do Cidadão. Para não perder a rima, perdão: Lasswell, Roswell, Wells e Welles.

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Mas ninguém lhe cultivou tanto ódio, sem sombra de perdão, como William Randolph Hearst, o magnata rancoroso. Inimigo mais poderoso entre os desafetos de Orson Welles, o riquinho rico das comunicações nos States foi a figura que inspirou o cineasta a fazer seu Charles Foster Kane, o tal Cidadão. Welles negou fogo e confirmação quando acusado por Hearst, irritado pela lã felpuda da carapuça que lhe serviu direitinho, no número e cor que lhe cabia. Mas todo mundo sabia de quem se tratava o Rosebud.

Orson_&_rita_dama de shangai.jpg Orson Welles e Rita Hayworth, A Dama de Shangai, 1948

Não foi perdoado também porque logo depois de causar no cinema, casou-se com Rita Hayworth, a mais bela flor que Nova York deu à Califórnia. Hollywood deu-a ao mundo. Orson Welles tomou-a para si. Safado! Era ele o cara que a colheu entre espinhosos arbustos de desejos mil. Todos a queriam, ele a teve. Imperdoável. Quando se separou dela alguns anos depois ninguém conseguiu perdoá-lo, de novo, por abrir mão dela. Vai entender.

Orson welles no brasil.jpeg Orson Welles no carnaval do Rio de Janeiro, 1942

Também o Brasil não o perdoou pelo filme inacabado que deixou pra lá. Veio na leva ideológica da cultura americana nos anos 40. Papagaios e frutas na cabeça eram parte da leva, mas Orson Welles pretendia filmar aqui as jangadas do Nordeste, o carnaval do Rio, bundas e festas, aquele Brazil pueril. E filmou, é verdade, “É Tudo Verdade”, That’s All True. No fim da temporada de meses hospedado no Copacabana Palace, caipirinhas e samba, charutos cubanos, trechos rodados aqui e ali, o projeto naufragou e o sujeito foi embora levando a simpatia do colonizado. Era tudo lorota. O pseudodocumentário sedimentou no fundo da piscina do Copa, junto ao sofá que a lenda jogou pela janela num dia de fúria. Nem o concierge o perdoou.

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Enfim, de gênio complicado e inteligente demais para ser normal, Orson Welles passou por períodos de ostracismo e bloqueio criativo, às vezes era empurrado para o limbo devido às brigas e desafetos com a indústria, mas sempre renascia dos acetatos com algum filme nas mangas. Depois de sua morte, em 85 aos 75, várias de suas latas abandonadas foram reeditadas e lançadas. Inclusive o filme brasileiro. Recentemente, na efeméride do centenário, o último filme emergiu do mito para o enquadramento do plano. Mas Orson Welles ainda não foi perdoado por reinventar o cinema e alterar o padrão. Nunca foi fácil ser cineasta depois dele. Imperdoável Orson.

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Amava as artes e a filosofia. Coisas que compensam. Viveu com poucos recursos e muitas ideias. Pensamentos soltos e devaneios prolixos. Jornalista, historiador e sociólogo. Professor. Morreu de fome. Você tem fome de quê? [email protected]
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